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Carreira e finanças

Mulheres contam como encaram o machismo em empresas de tecnologia

Beatriz dos Santos e Rita Trevisan

Colaboração para Universa

21/06/2018 04h00

Ter o bom desempenho relacionado a algum envolvimento com um superior, ver uma boa sugestão ser ignorada, sofrer interrupções bruscas e ser impedida de falar durante um embate com um colega do sexo masculino, em uma mesa de reunião. As mulheres a seguir passaram por essas e muitas outras situações de constrangimento e desrespeito, dentro de grandes empresas de tecnologia.

Hoje, à frente de equipes inteiras ou empreendendo, elas contam que já ultrapassaram a barreira do machismo e compartilham suas experiências com quem ainda sente o preconceito na pele.

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“Já lidei com homens tão machistas que se recusaram a estender a mão para me cumprimentar”

Acervo pessoal
Imagem: Acervo pessoal

“Tenho a minha própria empresa e sofri vários tipos de discriminação. Cheguei a lidar com homens tão machistas que se recusaram a estender a mão para me cumprimentar. Há um mês, fui a uma reunião com um cliente que está em fase de implantação e a pauta do encontro era um assunto da minha responsabilidade. Ao chegar lá, o gestor da empresa perguntou se iríamos aguardar a chegada do meu sócio. Respondi que não, pois o assunto não demandava a presença dele. O cliente disse que não queria me ofender, mas preferia tratar direto com ele.

Eu fingi que estava brincando e respondi: ‘Olha, não quero frustrá-lo, mas apesar de ele ser o mais bonito, quem manda na empresa sou eu, e vai ser mais produtivo para você falar direto comigo, acredite.’ Ele ficou sem graça e sem alternativa! É assim que eu reajo. Acho que o melhor que temos a fazer é enfrentar os ataques de machismo com ataques de competência e profissionalismo. Mirtis Fernandes, 46 anos, empresária

“Meu chefe me disse que empreender na área era coisa de homem nerd”

Acervo pessoal
Imagem: Acervo pessoal

“Eu sempre fui dessa área e hoje tenho a minha empresa. Mas, em outras companhias pelas quais passei, enfrentei muito preconceito. Quando pedi demissão de meu último emprego, por exemplo, meu chefe deixou bem claro que empreender não era para mim, que era ‘coisa de homem nerd’, e insinuou que eu não teria sucesso. Na hora em que ele falou isso, eu não notei que se tratava de uma discriminação de gênero. Pelo contrário, me senti na obrigação de me justificar, como se isso fosse natural.

Só depois percebi o que era e o tanto que falta para que a sociedade e o ambiente de trabalho reconheçam um funcionário pelo que ele faz e não por como ele é. Hoje, minha empresa tem escritórios no Brasil, na Argentina, no México e na Colômbia e opera em outros quatro países, também. São quatro milhões de viajantes que utilizam nosso buscador por mês, o que prova que eu tomei a decisão certa. Eu acredito que tudo o que não podemos fazer, ao sofrer preconceito, é abaixar a cabeça. Catalina Jaramillo, 34 anos, engenheira e co-fundadora da startup Viajala.com.br

“Recebi um elogio ao meu trabalho e disseram que o cliente tinha me achado bonita”

Acervo pessoal
Imagem: Acervo pessoal

"Desde o início da minha vida profissional como engenheira de suporte, sempre senti muito mais preconceito por parte dos clientes do que das empresas. Quando comecei a trabalhar, fui fazer um atendimento técnico e o cliente achou que eu estava ali apenas para anotar o problema, disse que queria um engenheiro. Tive que explicar que eu era engenheira e tinha todas as qualificações para realizar o trabalho. A sensação era é a de que eu sempre tinha que fazer um esforço extra para provar o que estava falando.

Uma vez, recebi um e-mail de um cliente elogiando a qualidade do meu atendimento e tive que ouvir piadinhas machistas de colegas dando a entender que ele só estava dizendo aquilo porque tinha me achado bonita. Quando participo de reuniões, sempre peço a palavra e busco ter uma postura mais séria e firme, pois ainda há casos em que não consigo expor minha opinião. Felizmente, todos os casos de discriminação só me serviram como combustível. Hoje, tenho uma equipe de 40 pessoas em toda a América Latina.” Andrea Cavallari, 34 anos, gerente sênior da área de Global Customer Success Latam da Red Hat

“Num encontro de desenvolvedores, ninguém me deixava falar. Até que engrossei a voz e gritei”

Acervo pessoal
Imagem: Acervo pessoal

“Já passei e presenciei diversos tipos de machismo e preconceito. Não encontrei tanta dificuldade para entrar no mercado, mas precisei ter muita força de vontade para crescer nele. Uma vez, alguns desenvolvedores com quem eu trabalhava pegaram uma foto da confraternização da empresa e fizeram desenhos obscenos na minha boca, mostrando para todos os outros funcionários. Chamei o dono da empresa para conversar, falar sobre o meu constrangimento e, então, ele soltou a famosa frase: ‘Eles são meninos, são assim mesmo’.

Outro episódio marcante foi em um encontro com colegas, no qual eu tentava falar sobre o que estava sendo debatido, mas havia um homem que sempre me interrompia. Depois de mais de uma hora nessa situação, engrossei a voz e gritei: ‘Você vai me deixar falar ou não, porra?’.Depois disso, ele passou a pedir licença para falar Mas demorou até eu bancar esse tipo de enfrentamento. Agora, quando algo não me agrada, já chamo as pessoas envolvidas para conversar e resolver a situação. Keit Oliveira, 25, Senior Front-End Developer, Líder de desenvolvimento Front-End na Neon e Organizadora do Front In Sampa

“Atribuíram minha promoção a um possível relacionamento com um rapaz de cargo mais alto”

"Onde eu trabalho temos um grupo de mulheres que se encontram constantemente para falar sobre equidade de gênero e podemos desde desabafar sobre nossas vivências até propor ações para a empresa executar em prol do movimento. Mas, no começo da minha carreira, em outros locais, sofri bastante para ser aceita. Logo na minha primeira promoção, aos 19 anos, os colegas atribuíram o meu crescimento a um possível relacionamento com um rapaz que tinha um cargo mais alto que o meu.

Em outras ocasiões, ouvi que ‘datacenter não era lugar de mulher’, ‘que não era de bom tom vestido e batom escuro para o ambiente de trabalho’, fora as inúmeras vezes em que eu falava algo que não era aceito e, logo em seguida, um outro homem dizia a mesma coisa e, então, a ideia passava a ser bem-vista. Aos 23 anos, já era especialista de banco de dados e, aos 27, fui promovida a coordenadora e tenho uma equipe de cinco pessoas. A maior lição que tirei de tudo isso é que assumir o papel de sobrevivente perseverante, que nunca desiste.” Susane Sousa, 27 anos, coordenadora de infraestrutura de dados - TI na Catho

“Antes de começar a reunião, os clientes perguntavam se estávamos esperando mais alguém”

Acervo pessoal
Imagem: Acervo pessoal

“Quando fiz curso de eletrônica, o número de meninas na classe não chegava a 10%, e toda vez que dávamos alguma opinião ou fazíamos algum comentário, éramos discriminadas. O preconceito tem diminuído, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido. Quando comecei a empresa, alguns clientes me recebiam com um ar desconfiado. Muitas vezes, antes de iniciar a reunião, me perguntavam: ‘Estamos aguardando alguém?’ Você via na expressão do cliente a desconfiança mas, aos poucos, eu fui conquistando respeito.

Essa é a minha maneira de lidar com o preconceito, eu simplesmente respondo de maneira natural e deixo meu trabalho falar por mim. É claro que também tenho meus dias difíceis. Mas, nesses momentos, é só colocar o salto alto e passar um batom e eu já me sinto poderosa de novo.” Sylvia Cristine Bellio, 48 anos, empresária