Minha história

"Cuidei dela até o fim, minha dívida foi paga", diz mãe de Nara Almeida

Amanda Serra

Da Universa

25/05/2018 04h00

“Dói ser chamada de cachorra, ler comentários que abandonei minha filha, que vim para São Paulo por conta da fama dela".

Numa forte entrevista exclusiva à Universa, Eva Almeida, 44, dá detalhes íntimos de sua convivência com a filha Nara, a youtuber e influenciadora digital que morreu de um câncer raro no estômago aos 24 anos na última segunda-feira (21). Um choque para seus 4,6 milhões de seguidores.

Esta cabeleireira maranhense vem sendo julgada nas redes sociais por não ter criado Nara e demorado 22 anos para revê-la. Nesse tempo, a youtuber ficou com os avós no interior do Maranhão. O reencontro aconteceu em setembro do ano passado graças às passagens pagas pela atriz Larissa Manoela. Eva morava em Roraima.

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“É mentira isso que a gente não se falava. As pessoas julgam sem saber. Nos falávamos por vídeos, mensagens, telefonemas. O tempo foi passando e acabamos nos acomodando, mas não foi falta de amor”, se defende.

Minha dívida com a minha filha foi paga e ela não tem mágoa de mim. Ela sabe a mãe que fui e me sinto uma pessoa melhor. Recuperei todo o tempo em que estivemos longe. No começo da vida dela fui eu e ela, assim como no final. Nós duas.", desabafou a mãe da blogueira. 

De novembro a maio, troquei fralda, dei banho, passei creme no corpinho dela, dava comida na boca, água. Não eram as enfermeiras (somente) que faziam isso. Ainda acordo nos horários que ela tomava medicação

"Deus deu esse tempo para eu cuidar dela. Se hoje as pessoas me criticam é porque não sabem da minha vida”, conta a maranhense, que está em São Paulo ajeitando os itens deixados pela influenciadora onde morava com o marido, o engenheiro Pedro Rocha.

Com a sensação de dever cumprido, a cabeleireira recebeu o perdão da filha e e deixou o remorso para trás. “Sentia que tinha uma dívida com a Nara, não vou mentir. Não conseguia me sentir feliz por completo e isso me incomodava bastante. Minha filha caçula [Beatriz] sempre foi muito fã dela, seguia ela o tempo todo e às vezes me culpava por não falar sempre com a irmã. Mas a Nara dizia que não tinha que me perdoar por nada. Mesmo longe estive presente, dei amor e não fiz nenhuma maldade contra ela. ”

Reprodução/Instagram/almeidanara
Imagem: Reprodução/Instagram/almeidanara

Pesando 40 kg e sem poder se alimentar, Nara teve que ser sedada nos últimos dias em que passou no hospital ouvindo louvores evangélicos ao lado da mãe, apesar de não seguirem a religião -- "o preferido era 'Aquieta Minh'alma'. “Os médicos tinham me dito que precisavam dar conforto para ela, mas não queria vê-la entubada. Mas cerca de 15 dias antes da morte dela, conversamos e ela disse: ‘Mãe, não aguento mais. Sou muito forte, mas minha força está acabando’. Ela queria viver e sei que só resistiu porque queria estar ao meu lado, viver o que não vivemos”, conta ela, que foi informada em setembro que a menina só viveria até dezembro (2017).

Após a despedida, a cabeleireira permitiu que a filha fosse anestesiada. “Ali soube que a gente se separaria e ela não seria curada, algo que sempre acreditei. Meu sofrimento foi maior nesse momento do que quando recebi a notícia da morte, estávamos conectadas.”

Com esperança de que a filha se recuperasse e também para ter como se manter em São Paulo, Eva vendeu os móveis da casa financiada que tem em Roraima, onde morava com o marido, um soldado da Força Aérea Brasileira, e outros três filhos. "Queria que ela tivesse certeza que eu estava do lado e não iria abandoná-la. Eu e a Nara fizemos planos para o futuro, ficamos realmente conectadas. Daria tudo para tê-la aqui do meu lado hoje, com saúde", afirma Eva, que deve se mudar definitivamente para capital paulista.

“Fiz questão de dizer que a amava, em todos os momentos que pude, inclusive, me questionava sobre isso diariamente. Queria que ela se sentisse amada e cuidada. Ela se tornou o meu anjo de luz e onde ela estiver está dando força para eu superar tudo isso.”

Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram
Casamento abusivo e uma hepatite aguda no fígado

A mais velha de nove irmãos -- somente ela e mais três estão vivos --, Eva foi criada por uma madrinha em Roraima, mas passou a maior da vida na residência de conhecidos até se casar pela primeira vez aos 16 anos. “Minha família morava no meio mato e eu tinha que estudar. Mas era maltratada nas casas em que morava, apanhava, fui molestada. Só não fui estuprada porque dormia do lado da filha do homem que ficava passando a mão em mim. Achava que casando teria uma vida melhor, comida. Minha maior vontade era comer um pão, como tinha vontade disso", lembra.

Reprimida, com sede de uma vida melhor e sem instrução sobre sexualidade, ela se casou com o pai de Nayara, sua filha mais velha, atualmente com 28 anos. “Era inocente de tudo, acho que até hoje sou um pouco criança, e o primeiro que apareceu querendo namorar comigo, namorei e casei, mesmo contra a vontade dos meus pais [criação]. Durante um ano e quatro meses sofri na mão dele. Ele ficava fora de casa, arrumava outras mulheres e me obrigava a ter relação [sexual]. Era um relacionamento abusivo.” A agonia só acabou quando seu pai de criação descobriu e a levou de volta para casa. 

Por conta da perseguição do ex-marido, Eva voltou ao Maranhão e lá conheceu o pai de Nara. Por já ser mãe, a família paterna da modelo não permitiu que a cabeleireira e ele se casassem. Aos 18 anos e grávida pela segunda vez, ela se mudou para casa de uma tia em João Lisboa (MA) e começou a trabalhar como costureira.

Tive a Nara sozinha, só eu e um enfermeiro na sala de parto junto com os médicos’, conta. Ela lembra que passou por algumas complicações. Logo após o nascimento da segunda filha, a maranhense começou a ter fortes dores de estômago, crises de vômitos, desmaios e descobriu que estava com hepatite aguda.

Operada com urgência por conta de uma obstrução do fígado, a mãe biológica de Eva acolheu as duas netas em sua casa. “A Nara ficou comigo até os seus 11 meses de vida. Quando ela completou um ano, a visitei e minha mãe pediu para cuidar das minhas filhas, porque tinha se apegado a elas e dizia que era uma forma de se desculpar por não ter me criado”, conta. Eva então retornou a Roraima.

Tenho uma certa vergonha do meu passado. Acho que poderia ter sido uma pessoa diferente, ter feito faculdade, não ter me casado com 16 anos. Me culpo por isso, mas tive uma vida complicada. Morei de favor, trabalhando como empregada, passava tardes areando panela até ela ficar brilhando. Não tive ninguém me orientando, quando fiquei menstruada pela primeira vez achei que tinha me machucado", diz. "Minha mãe teve a chance de corrigir o erro dela e eu tive a minha. Se é que podemos chamar de erro. Chamo assim porque o pessoal fala assim."

“A vontade dela era viver para sempre”

Nayara voltou a morar com a mãe quando tinha 15 anos, mas Nara preferiu continuar com os avós maternos no município de Mirador (MA) onde o pai também morava – ele esteve na UTI e deve vir para São Paulo em breve pegar as cinzas da filha e levar para a avó materna que fará o sepultamento no Maranhão.

Ambiciosa, a influenciadora logo se mudou para casa de uma tia em Goiânia onde iniciou sua carreira nas mídias digitais. Posteriormente, se mudou para São Paulo onde morou em uma república. Pedro levou Nara para morar com ele assim que se conheceram. O casal firmou união estável para que a jovem tivesse direito ao convênio médico e pudesse se tratar em um hospital particular.

Nara nasceu para ser livre, não queria ser controlada.Desde cedo quis a independência dela. Não adiantava prender ela em lugar nenhum porque ela não ficava. Talvez se tivesse ido morar comigo em Roraima, também viesse para São Paulo como fez. Ela tinha sonhos. Se divertiu, viajou, fez tudo que quis intensamente”, afirma Eva. A cabeleireira, que até setembro ganhava R$ 400 por semana num salão em Roraima, pretende realizar o sonho da filha e abrir uma loja na capital.

“Será o ateliê Nara Almeida. Terá fotos dela no interior e o nome dela ficará por muito tempo. De certa forma ela deixou tudo preparado, tem muitas pessoas me ajudando já. Ela sempre dizia que daria uma vida de rainha para mim, que não queria que eu trabalhasse para mais ninguém, apenas para o nosso próprio negócio. ”

Como último desejo, a cabeleireira doou as córneas da jovem. Por conta do câncer não foi possível doar os outros órgãos. “Tenho certeza que ela gostaria de ajudar outras pessoas. Quero ver o brilho do olhar dela em outra pessoa."

“O que poderia ter feito como mãe eu fiz e tenho certeza que foi bem feito. Farei o que ela me pediu, cuidarei de mim. Ontem mesmo já fiz uma endoscopia a pedido dela. E sei que ela está bem porque foi isso que ela disse no sonho que tive. Agora, vou procurar ser mais mãe para os meus filhos que ficaram, estar mais presente na vida de cada um”, finaliza Eva.

Você também tem uma história para contar? Ela pode aparecer aqui na Universa. Mande seu depoimento, nome e telefone para minhahistoria@bol.com.br. Sua identidade só será revelada se você quiser.  

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