Mulheres inspiradoras

Filha de ex-viciados acolhe 500 crianças e vira "jovem mãe da Cracolândia"

Carine Wallauer/UOL
Desde 2009 em SP, Joana Machado atua em projetos sociais na região da Cracolândia Imagem: Carine Wallauer/UOL

Amanda Serra

Da Universa

13/05/2018 04h01

Aos 30 anos, a enfermeira e missionária Joana Machado Rodrigues se tornou uma espécie de "jovem mãe" para as cerca de 500 crianças que vivem entorno da região da Cracolândia, no Centro de São Paulo. Desde 2010, ela coordena o projeto social “Novos Sonhos” que oferece aulas gratuitas de balé, jiu-jítsu, música, futebol, skate e reforço escolar para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social.

“Minha mãe era alcoólatra e foi embora de casa quando eu tinha 13 anos. Desde então, a ‘tia’ preencheu o espaço que ficou. Ela sempre está ao meu lado, pergunta se estou bem, mostra sua força de vontade e dedicação. Está presente nas nossas vidas nas situações boas e ruins”, afirma Raissa da Conceição Jesus, 16, que começou a fazer balé ainda criança, após Joana, caracterizada de palhaça, aparecer no cortiço onde ela morava com a família e convidá-la. “A dança me ensinou a ter disciplina, fez com que eu passasse a socializar.”

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E foi batendo de porta em porta que a atuação da missionária deixou de se restringir somente às atividades de recreação e aprendizado. Ela também é responsável pela alimentação, cuidados médicos, acompanhamento psicológico e emocional dos seus alunos - três deles moram em sua casa.

Arquivo Pessoal
Joana e o marido, Lael na festa de 15 anos de Raissa. A comemoração foi patrocinada pela Paris Filme e outras 10 meninas participaram Imagem: Arquivo Pessoal

“O mais importante é acolhermos todos, criarmos um relacionamento. Não pode ser só uma cesta básica, um ensino bíblico e ações sociais. As crianças não vivem disso, vivem de relacionamentos e a gente realmente faz parte da vida delas. Quando renunciei minha juventude disse: ‘estou aqui para viver intensamente’. Dedico minha vida a esse projeto porque amo muito tudo isso e sou Grata ao que fizeram pela minha família”, afirma Joana, filha de ex-usuários de drogas.

Mais de 12 horas de trabalho

Era fim de tarde quando a reportagem da Universa chegou na sede (alugada) da ONG nascida dentro da Cristolândia, centro de acolhimento ligado à Igreja Batista, na Alameda Cleveland. O dia da missionária, no entanto, tinha começado cedo como de costume e ainda estava longe de terminar. Às 8 horas, estava com Raissa na ginecologista – a adolescente está grávida de três meses. Logo depois seguiu para um fórum em busca de um documento que autorizasse a filha adotiva Jessica Vitória, 14, a viajar com ela e a família para Bahia na última sexta-feira (11).

Desde 2014, Joana possui a guarda provisória de Jessica, que não foi registrada quando nasceu por negligência dos pais biológicos – a coordenadora vem tentando descobrir o local exato de nascimento da menina para agilizar a documentação. Os pais de Jessica são dependentes químicos e tiveram pouco contato com a menina, criada pela avó paterna (que morreu) e por um primo de 15 anos. Atualmente, o pai está detido, acusado de tráfico e latrocínio; a mãe saiu recentemente da prisão após cumprir pena por tráfico, mas não quis reaver a guarda ou ter contato. A garota tinha nove anos quando chegou aos braços da missionária.

Arquivo Pessoal
Joana e as filhas Jessica Vitória e Rebecca Imagem: Arquivo Pessoal

“Ela morava em um cortiço dentro da Cracolândia, onde a avó e um primo alugavam quartos para viciados. A família inteira está presa ou sofre com o vício. Quando ela chegou aos Novos Sonhos, reclamava muito de dor na barriga, não conseguia se comunicar direito, não sabia ler, escrever, nem mesmo contar ou dizer os nomes dos animais. Vivia reclusa dentro de um quarto, assistindo TV e eventualmente limpando o único banheiro que tinha no local. É como se fosse um bicho”, relembra Joana.

Adoções

Preocupada com as perspectivas e limitações da garota, Joana pediu para o primo que a deixasse cuidar da garota. Com a autorização dele e do pai da menina, a missionária adotou Jessica. “Descobri que a dor na barriga era porque ela ficava sem comer, dois, três dias às vezes. Ela se mudou para minha casa, consegui matrícula em uma escola estadual do bairro e hoje ela lê e escreve melhor que eu. ”

Logo depois da chegada de Jessica, Joana engravidou de Rebecca, 1 ano. Atualmente moram na casa da missionária e de seu marido, Lael Menezes Rodrigues, 28, mais duas crianças – Sandra, 13, e o irmão, Paulo, 8. Eles moravam em frente ao edifício Wilton Paes de Almeida, que desabou no Centro de São Paulo.

“Encontramos eles sozinhos no cortiço onde moravam, sem alimentação e inalando toda aquela fumaça”, conta Joana, que imediatamente foi atrás da mãe deles na Cracolândia (ela é usuária de drogas) e avisou que estava levando as crianças para sua casa, onde ainda permanecem. O pai sumiu -- o famoso “aborto masculino”. “Ainda não sei o que acontecerá com eles, não sei se a mãe vai dar a guarda, se assumirá a criação. Enquanto isso estão comigo, estou cuidando. Estão estudando, comendo, aprendendo a ter limites e recebendo amor”, diz a missionária.

Empatia e resiliência

Carine Wallauer/UOL
Imagem: Carine Wallauer/UOL

Nascida e criada no interior da Bahia, caçula de três irmãos, a história de Joana poderia ser mais trágica entre tantas as que ela convive diariamente. “Se minha família não tivesse recebido ajuda no passado para se livrar das drogas, talvez hoje estivesse me prostituindo, viciada. Jesus trouxe esperança e isso não é qualquer um que dá. Sei o quanto é importante abraçar, acolher.”

Quando era pequena as pessoas olhavam e diziam: ‘filha de usuário’. Sofria muito preconceito. Meus pais não tinham estudo, nossa família era pobre. Hoje, são formados em teologia, têm casa própria, meu pai é pastor, minha mãe atua como psicóloga, pedagoga. Eles foram responsáveis por coordenar o sistema prisional do Espírito Santo entre 1996 e 2001”, diz Joana, que tem na mãe o seu maior exemplo. “Ela saiu de casa com 16 anos, perdeu contato com a família, foi torturada pela polícia mesmo grávida, sofreu muito preconceito por ser negra, pobre e viciada. Mas nunca a vi reclamando, pelo contrário.”

Os pais da missionária deixaram as drogas após se converterem ao protestantismo e “aceitarem Jesus” (como eles costumam dizer). Quando Joana nasceu, a mãe tinha frequentes crises de abstinência. Recuperada do vício, a família integrou a Junta de Missões Nacionais. A partir daí, viajaram pelo Brasil com o objetivo de livrarem pessoas do vício e da marginalidade.

“Cresci com a minha casa repleta de gente. Era o morador de rua que minha mãe levava para tomar um banho e aparar a barba; o bebê que ela levava para trocar a fralda e alimentar ou o ex-detento (a) que saía da prisão e não tinha para onde ir”, relembra a jovem. 

“Tenho que ser um referencial de mulher, de ser humano, de honestidade”

Arquivo Pessoal
Jovens e crianças do projeto Novos Sonhos Imagem: Arquivo Pessoal

Faltando quatro meses para se casar, com casa comprada, mobiliada, Joana viu sua vida mudar após a mãe ser recrutada para trabalhar na Cracolândia, na mesma época que nasceu a Cristolândia (programa de prevenção, recuperação e assistência a dependentes químicos e codependentes) presente em sete estados do Brasil. “Ninguém em casa queria vir para cá. Relutei o quanto pude, até que um dia acompanhei minha mãe e fui contagiada pelo sentimento de amor. Não consegui ver crianças, menina de 12 anos se prostituindo por R$ 2, por uma pedra de crack e não fazer nada.”

Não pense que foi fácil para jovem recém-formada deixar para trás a carreira, o grande amor da juventude e sua vida na terra natal. “Sofri muito e trabalhei para preencher os vazios. Muita coisa passou sem eu ter vivido. Renunciei a momentos de lazer, descanso. Foram decisões difíceis, mas não me arrependo, pois o que vivo hoje me motiva. Já pensei em desistir pois viver pela fé é muito complicado. Já teve dia de não ter comida em casa, mas no dia seguinte aparecer. Ou de faltar cesta básica no projeto e logo depois surgir também. Vivo pela fé todos os dias”, desabafa Joana, que também se cobra para ser um exemplo.

Como as contas são pagas?

Carine Wallauer/UOL
Imagem: Carine Wallauer/UOL

O Novos Sonhos possui cerca seis funcionários fixos que recebem uma ajuda de custo em média de R$ 600 por mês -- os valores são pagos pelos patrocinadores, ao total são seis, entre pessoas físicas e jurídicas -- que ajudam a custear os gastos com alimentos, aluguel, contas de água, luz e produtos de limpeza e higiene pessoal. “Tudo aqui é doação, as roupas de balé, os uniformes de jiu-jítsu, futebol. Nós e os irmãos de outras igrejas que cozinhamos, limpamos, damos aulas”, afirma Joana, que recebe mensalmente R$ 1 mil por mês da Junta de Missões; assim como seu marido, que também é missionário.

Além das aulas citadas, o projeto também tem reuniões semanais com meninas entre 12 a 18 anos para falar sobre sexualidade, drogas, relacionamentos e profissão. 

"As crianças precisam de um referencial de mulher, ser humano, cidadão, honestidade e amor. E eu doo justamente a minha vida, me cobro nos pequenos detalhes. Acredito no potencial de cada uma, de cada um que está aqui. Eles têm muita força de vontade de vencer, são inteligentes e precisam de oportunidades."

Novos Sonhos

Alameda Cleveland, 484 - Campos Elíseos, SP
Horário: 8h às 21h30
Telefone: (11) 2768-9675

Carine Wallauer/UOL
Jovens do Novos Sonhos durante a aula de música Imagem: Carine Wallauer/UOL

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