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Ela já sofreu violência, hoje inspira e emprega mulheres em Paraisópolis

Carine Wallauer/UOL
Elizandra Cerqueira será homenageada em Paris em 2018 por conta de seu trabalho social dentro da maior favela de SP Imagem: Carine Wallauer/UOL

Amanda Serra

Do UOL, em São Paulo

13/12/2017 04h00

Da laje para o mundo! Elizandra Cerqueira ainda não completou 30 anos, mas já ganhou um prêmio internacional graças a uma ideia empreendedora -- que ela colocou em prática em uma laje no meio de Paraisópolis. Mulher, filha de nordestinos, periférica, sobrevivente de violência doméstica, a jovem, de 29, poderia ser só mais um número dentro das estatísticas não fosse seu ativismo social. À frente da Associação das Mulheres de Paraisópolis há 11 anos, Eli (como é chamada) é responsável pela criação e coordenação do projeto Horta na Laje e do Bistrô Mãos de Maria, que emprega seis pessoas e fatura mensalmente cerca de R$ 10 mil.

Ao som externo que vem da rua e variam do funk aos burburinhos do cotidiano da comunidade, o espaço, em cima da laje da União dos Moradores e Comércio, serve comida caseira diariamente, preparada com os alimentos plantados ali mesmo, a preço único, R$ 20 - no esquema coma à vontade. A bebida e o pedaço de pudim generoso da Zuleika são à parte. Na quarta-feira de feijoada, dia em que o UOL esteve por lá, tinha até caipirinha de degustação para combinar com o cardápio. Personalidades locais costumam frequentar a laje, como a "musa do rolezinho", Yasmin Oliveira, a MC Trans, Vitória, além de líderes da comunidade. É um bom momento para ficar por dentro dos assuntos.

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Imagem: Carine Wallauer/UOL
Inaugurada em maio de 2017, a iniciativa de empreendedorismo sustentável foi premiada recentemente pelo Instituto Stop Hunger, organização social que luta contra a fome e pelo empoderamento de mulheres. Elizandra deve viajar a Paris em março de 2018 para receber o prêmio -- será sua primeira viagem internacional. As funcionárias do bistrô são ex-alunas do curso gastronômico de capacitação criado e ministrado na comunidade. “O lucro que temos hoje é usado para pagar os salários dos funcionários e investir em acessórios, manutenção”, explica a líder, que no passado precisou lidar com prejulgamentos sociais no ambiente corporativo.

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Durante um ano e meio em que trabalhou em uma agência de publicidade, ofensas relacionadas ao seu local de nascimento e sua moradia eram rotineiras.

"Meu chefe me proibia de dizer que era moradora da comunidade, pedia para eu dizer que morava no Morumbi caso alguém perguntasse. Além disso, insinuava que eu não era educada, duvidava da minha capacidade, do meu conhecimento. Tinha muito deboche e diferenciação por parte dele e de algumas outras pessoas da empresa. Toda vez que tinha um evento da empresa, era chamada de lado e diziam como deveria me comportar. Como se não soubesse. Por isso digo que as lutas por igualdade não são somente minhas, mas de todas as mulheres. Hoje, as pessoas acreditam no meu trabalho, me veem como uma pessoa capaz de ajudar e solucionar problemas comuns da comunidade, que muitas vezes são ignorados pelos governantes”, afirma.

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Zuleide, uma das alunas do curso de gastronomia "Mãos de Maria" e hoje funcionária do bistrô Imagem: Carine Wallauer/UOL
“O objetivo não é só gerar renda, mas criar oportunidades de trabalho. Acreditamos na independência financeira como um instrumento libertador da mulher em casos de violência. Se a mulher sofre com abusos, mas depende do seu agressor, dificilmente ela sairá desse ciclo de agressividade. Elas não têm dinheiro para alugar um novo espaço ou sustentar os filhos. A partir do momento em que recuperam a autoestima e se profissionalizam, percebem que a vida é muito mais vasta do que aquela do convívio familiar abusivo. E assim, o basta ocorre”, afirma Eli. Mesmo com toda a consciência sobre o tema, a ativista também viveu um relacionamento abusivo por sete anos.

Tida como a maior favela da cidade de São Paulo e a oitava maior do país, Paraisópolis está localizada na Zona Sul e possui 100 mil habitantes, 58% são mulheres (segundo dados de lideranças locais). Casos de violência contra a mulher são comuns por ali. Por mês, Elizandra recebe cerca de 10 a 15 relatos. “Histórias de tiros, facadas são corriqueiras. Já perdemos comerciante, adolescente. Acho que minha história não é nada diante dos relatos que ouço. E eu nunca me sentirei plena se a minha vizinha também não estiver. Vivemos em uma sociedade doente, machista e precisamos ser a cura”, profetiza ela, que abaixo relata seu drama pessoal.

Uma lei para o Morumbi, outra para Paraisópolis

“Conheci meu primeiro namorado na escola e comecei a namorar ele aos 15 anos. Assim que ingressei no grêmio estudantil, ele passou a ter crises de ciúmes e por diversas vezes pediu para eu sair. Eu vivia me humilhando para ter o apoio dele nos projetos que conduzia, para participar dos eventos.

Dizia que eu não era ‘mulher de respeito’, pois cumprimentava os meus amigos com um beijo no rosto, acredita? Chegou a intimidar um colega meu na rua. Nenhum dos meus amigos gostava dele. Mesmo com a pressão psicológica que sofria, ficamos noivos. Ele piorou. Passou a me desvalorizar, dizia que era ruim sair comigo, gritava, me tratava como uma propriedade. O fato de eu ter entrado na faculdade de marketing também era um problema.

Logo depois, descobri que ele tinha uma amante. Fiquei desesperada e, mesmo humilhada, eu sugeri perdoá-lo. Ele sumiu e entrei em depressão. Quando estava reconstruindo minha vida novamente, ele reapareceu e sugeriu morarmos juntos. Pediu perdão e alugamos uma casa.

Mas as traições não cessaram e as agressões começaram: apanhei cinco vezes, uma delas em público. Já possuía engajamento, mas tinha vergonha de contar para as pessoas. Conhecia o julgamento social aquele de ‘apanha porque gosta’.

Uma vez, ele me arrastou nua, do banheiro até o chão do quarto, e tentou me sufocar. Naquele dia, achei que ia morrer. Depois desse episódio, cheguei a ferver água para jogar nele, como na música ‘Mulher Traída’, do grupo Revelação. Esperei ele dormir, fui até à beira da cama com o caneco e prometi para mim mesma que ele nunca mais iria bater em mim nem em ninguém. Quando ele abriu o olho, me viu com a panela na mão. Com todos esses episódios, se continuássemos ali, a tendência seria a morte para nós dois.

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"O objetivo não é só gerar renda, mas criar oportunidades de trabalho", diz Elizandra Imagem: Carine Wallauer/UOL
 Chamei a polícia algumas vezes, e nunca adiantou nada. A lei das autoridades para o Morumbi é diferente da lei para Paraisópolis. As pessoas continuam julgando as outras por causa do valor socioeconômico e não pela índole ou caráter. A violência doméstica existe independentemente de classes sociais, mas a forma de lidar com cada vítima é diferente.

Quando a Luiza Brunet denunciou o namorado por agressão, o que acho importantíssimo, assim como o ativismo dela, a repercussão foi enorme. Mas quando uma mulher da periferia, uma anônima passa por isso, existe a omissão do Estado. Em uma das vezes em que chamei a polícia para o meu ex-marido, o policial disse que não podia fazer nada, pois não tinha visto ele me agredindo, e que, portanto, ele não entraria na casa para retirá-lo. Se isso acontece no Morumbi, a resposta provavelmente seria outra.

Ser mulher não é fácil. Temos que enfrentar não só a desigualdade, como também os preconceitos, os estereótipos... E se você é mulher, da periferia, negra é pior.  Não importa se você tem informação ou não, todas as mulheres estão sujeitas a serem vítimas de violência, seja ela física, sexual, moral ou psicológica. A cultura do machismo precisa ser exterminada. Mesmo diante de todas as discussões de empoderamento, em pleno século 21, ainda disparamos discursos machistas, homens e mulheres. Todos precisam ser solidários à causa”.

Hoje, Elizandra reconstruiu sua vida e está casada há 5 anos com um companheiro de luta e de trabalho, como ela define.

Machismo

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Daniel é o único homem da equipe "Mãos de Maria" e trabalha ao lado da chef Claudia di Silvério e da ajudante Zuleide Imagem: Carine Wallauer/UOL

No primeiro semestre de 2016, o Ligue 180, conhecido como Central de Atendimento à Mulher, recebeu cerca de 58 mil relatos de agressões. O número representa um aumento de 133% em comparação ao mesmo período do ano anterior. Os números só confirmam o que Eli vê na prática. 

“Na Associação, temos mulheres que são vítimas de agressão. Como presidente, procuro conversar, incentivo a participar das atividades sociais em prol da luta feminina, passeatas, debates, além dos cursos de capacitação profissional. Os cursos são os maiores responsáveis por empoderarem essas mulheres. É a partir deles que o olhar delas muda, elas passam a ter um papel social relevante. Passam a enxergar que podem ir além, sonhar e concluir seus objetivos. Muita gente fala sobre a violência física, mas esquece que tudo começa com a psicológica. Até a mulher ser agredida de fato, a autoestima, os desejos de ser um indivíduo capaz e feliz são destruídos”, alerta a ativista.

No passado, com contatos com agências de empregos, Eli chegou a encaminhar cerca de 3 mil mulheres para oportunidades de trabalho. “Além de capacitar profissionalmente mulheres, a ideia do bistrô é que todas adquiram prática e, assim, sejam inseridas no mercado de trabalho e alcancem independência financeira. É um ciclo. O lugar de mulher é onde ela quiser que seja. Temos que ocupar todos os espaços. Precisamos ter voz e para isso precisamos ser donas de nossas vidas”, afirma ela, que não esmoreceu nem mesmo com a discriminação social por causa de seu local de origem.

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