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Mulheres inspiradoras

Mulheres radicais: ignoram o medo da morte e desafiam os limites no esporte

Beatriz dos Santos e Rita Trevisan

Colaboração para Universa

24/05/2018 04h00

Competindo em esportes que envolvem grandes riscos, elas põem à prova não só a resistência física, precisam ter nervos de aço para superar limites a cada treino. Mesmo diante de acidentes graves, persistem em seus objetivos, ignoram o medo da morte e conquistam um lugar de destaque, abrindo caminho para outras mulheres em práticas como o Motocross e o Base Jump. 

“Já fraturei duas vértebras e ainda sinto dores na coluna com as pancadas da moto. Mas não deixo de pilotar” 

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

"Ganhei minha primeira moto aos cinco anos e rapidinho aprendi a andar. Toda a minha família é apaixonada por motos, meu pai é mecânico de motos e tem uma loja de peças, tenho dois irmãos que também andam, minha irmã até compete comigo no velocross. A minha família é a minha motivação maior para seguir em frente, porque os desafios são imensos. A começar pela dificuldade de conciliar o meu trabalho com o esporte.

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Durante a semana, não consigo praticar, só cuido da alimentação e faço exercícios, com o objetivo de ganhar resistência e força. Aí, aos finais de semana, fico o máximo de tempo possível na moto. As competições acontecem sempre na terra e, quando chove, vira barro. Além disso, tem muito buraco, geralmente em chegada de curva, em pontos em que precisa frear. Em pistas maiores, com retas grandes, descidas, a gente chega a atingir a 120 km/h, sempre com motos off road.

Há três anos, sofri um acidente grave treinando motocross, tive duas fraturas em uma vértebra e, por algumas horas, não senti as pernas e nem os braços. Por conta desse acontecimento, ainda sinto dores de vez em quando na coluna, porque é muita pancada mesmo durante as competições. Mas eu não deixo de pilotar, a moto é a minha vida. Quando estou em cima da moto, não penso em nada, mesmo sabendo que algo ruim pode acontecer.

Acredito que tudo tem sua hora, não adianta temer ou querer evitar. Na moto, meu foco é aproveitar o momento, a chance que eu tenho de viver essa experiência incrível!”. (Daiane Lobchenko, 23 anos, engenheira civil e praticante de velocross e freestyle motocross)

“Já saltei de quase 1.000 metros na Suíça, mas quase morri em um salto de 70, aqui em São Paulo”

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

“Comecei a praticar paraquedismo por convite de um amigo, há uns oito anos atrás, fizemos salto duplo e me apaixonei pela prática. Comecei um curso, me formei paraquedista e, na sequência, já me interessei e quis saltar de Base Jump. Salto há sete anos e não consigo mais parar.

Na Suíça, saltei de uma distância de quase 1.000 metros. Meu pior momento foi aqui mesmo, em São Paulo, durante um salto de 70 metros. O pouso era muito restrito e estava ventando bastante e, mesmo assim, eu decidi saltar. Foi um erro meu e eu reconheço isso. Não tinha como pousar por causa do vento, então, choquei com uma parede de concreto, quebrei minha perna, com fratura exposta e tudo. Os bombeiros me tiraram de onde eu estava e, depois disso, fiquei um ano e meio para voltar a saltar, foram oito meses sem colocar o pé no chão.

Achei que não conseguiria mais voltar, aquelas cenas do acidente ficavam na minha mente o tempo todo. Mas, com o tempo, a vontade de reviver aquela sensação de saltar falou mais alto. O Base me proporciona conhecer lugares maravilhosos e pessoas que são muito intensas dentro desse esporte. Além da adrenalina, tem aquela sensação de sentir o corpo todo no ar, em que quatro segundos parecem uma eternidade.

A cada salto eu tenho medo de ter um acidente fatal e, por isso, eu tento dizer ‘não’ nos momentos que tenho que dizer ‘não’, às vezes tenho que voltar a trilha inteira a pé, mas eu entendi que é o melhor a fazer para não me arriscar mais. Hoje eu sei que é a imprudência que traz o risco e não o esporte em si.” (Rita Birindelli, 34 anos, paraquedista e praticante de Base Jump)

“Fiz 860 km correndo entre as montanhas, em 10 dias, dormindo em albergues, como uma peregrina”

Marcelo Maragni/Red Bull Content Pool
Imagem: Marcelo Maragni/Red Bull Content Pool

“Faz 12 anos que eu corro e me especializei em ultramaratonas nas montanhas, na neve, não sou tão boa no asfalto. Sou profissional e, desde 2008, faço pódio nas principais competições, sempre top 5 em todos os circuitos mundiais que disputo.

É claro que para isso tenho que me dedicar muito, a parte mais difícil, para mim, é ficar ilhada, às vezes mais de um mês, sem contato com a minha família e amigos, apenas estudando a montanha, me conectando com ela, antes de uma corrida. E, muitas vezes, em situações extremas. No mais, o desafio é em relação à minha própria resistência. Até hoje, minha maior superação foi fazer 860 km no caminho de Santiago de Compostela, a partir da França, só correndo entre as montanhas, em 10 dias.

Eu corria cerca de 90km por dia e, à noite, dormia em albergues, como uma peregrina. Recentemente, estava subindo a montanha Horn, uma das mais difíceis ali da Suíça, e a brisa com partículas de neve queimou um pouco da minha retina. Tive que ir para o hospital e só depois de três dias consegui abrir os olhos e recuperar minha visão normal. Tive muito medo de não voltar a enxergar.

Mas faço tudo isso não por causa da adrenalina, ou pela simples superação. Para mim, o esporte é um exercício de autoconhecimento, é maravilhoso poder descobrir meus potenciais a cada dia, tanto energéticos, quanto emocionais e espirituais, vai além do físico mesmo. Isso tudo é muito maior que o medo.” (Fernanda Maciel, 38 anos, advogada ambiental e atleta de ultramaratonas em montanhas)

“Quero que mais mulheres saibam que são capazes de fazer muitas manobras e de crescer no esporte”

Maurício Ramos/Red Bull Content Pool
Imagem: Maurício Ramos/Red Bull Content Pool

“Sempre gostei de surf mas tive um acidente grave ao pegar uma onda grande, em Ilhabela, em que a prancha subiu e cortou toda a minha boca. Com isso, fiquei um tempo afastada do esporte. Mas, logo depois, ao ver aquelas pipas coloridas da janela da sala de aula, quis tentar o Kite.

Precisava voltar a praticar um esporte na água! Treinei e comecei a competir, com 17 anos já estava no Circuito Mundial Feminino de Kitesurf, modalidade freestyle. Hoje, sou profissional e viajo direto para competir, praticamente não tenho tempo para minha vida pessoal ou minha família, mas eu amo muito o que faço, então, faço com prazer.

Gosto de me superar e fui a primeira mulher a conseguir realizar uma manobra bem arriscada, chamada de back side. Foi um processo bem difícil até chegar lá, mas, depois, a sensação foi incrível! Também tive momentos complicados, quando como lesionei o joelho, tive que passar por cirurgia, isso tudo na semifinal do Mundial. Foi uma fase bem crítica na minha vida porque o trauma do joelho acabou desequilibrando o resto dos músculos também, já que o corpo tenta compensar.

Também tem a questão do bloqueio mental, aquele medo de não conseguir voltar ao nível em que estava, esse é o pior medo que tem. A saída que eu encontrei foi viver um dia de cada vez, estabelecer metas menores e, aos poucos, ir olhando o todo, para voltar, gradativamente, a completar meus desafios.

O esporte ensina muito sobre isso e poder passar essa mensagem é algo que me motiva, além da adrenalina. Quando entrei no Kite, o feminino era muito desvalorizado e hoje temos o nosso espaço. Quero que mais mulheres saibam que são capazes de fazer muitas manobras e de crescer no esporte. Para mim, isso não tem preço.” (Bruna Kajiya, 31 anos, atleta de Kitesurf)

“O percurso mais desafiador que eu fiz até hoje tinha 27m de extensão e 185m de altura”

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

“Eu sinto medo todas as vezes que subo no slackline a uma altura considerável. Mas pratico o highline justamente para ter a sensação do medo e de conseguir superá-lo, o que significa também superar os meus próprios limites. E isso acaba refletindo na vida, porque você percebe que é capaz de muito mais do que imagina e que o medo é sempre um fator muito limitante.

Nesse esporte, cada percurso que você faz é uma grande conquista. Na minha prática, além de manter o equilíbrio na fita, a gente tem o desafio de escalar para chegar aos locais mais altos, então, fazemos todo um estudo do trajeto, da trilha para acessar o local, das pedras para fazer a escalada.

Muitas vezes está chovendo e as pedras ficam bem escorregadias. Além disso, o vento pode atrapalhar bastante. Já na fita, o desafio é completar o percurso e, em muitos momentos, é preciso se concentrar, respirar fundo antes de dar o próximo passo. Quando a gente cai, a corda em que ficamos presos naturalmente machuca e aí é preciso se concentrar para voltar.

O percurso mais desafiador que eu fiz até hoje tinha 27m de extensão e 185m de altura. Agora, além de ser praticante, estou trabalhando com o slackline de segunda a sexta-feira e não há prazer maior.” (Isis de Andrade Matos, 29 anos, jornalista, graduanda em Educação Física, instrutora de slackline e praticante de highline)