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Mulheres inspiradoras

Com foco em viagem solitária no mar, Tamara Klink relata machismo na vela

Debora Benaim
Tamara Klink Imagem: Debora Benaim

Marcela Paes

Da Universa

21/05/2018 04h00

O sonho de Tamara Klink, 21, tem um custo. Diferentemente da maioria, o objeto de desejo da estudante vale meses sem interação social, poucas horas diárias de sono e trabalho braçal pesado. Como recompensa, vai assistir de camarote a lindos pores do sol, chegará pertíssimo de baleias e vai ver ao vivo algumas das paisagens mais bonitas do mundo: Tamara pretende velejar completamente sozinha até a Antártica, continente mais frio, seco e com mais ventos do planeta.

“Eu já fui sete vezes com a minha família e outras pessoas, mas meu objetivo é ir sozinha. Estou me preparando e é um longo caminho. Não posso colocar uma data, mas vai acontecer! Eu espero.”

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Enquanto isso não acontece, a filha do velejador Amyr Klink posta o processo de aprendizado em seu canal no Youtube. Pouco (ou quase nada) do glamour associado à atividade - sol, praia e drinques de guarda-chuvinha - aparecem nas postagens de Tamara. Lavar um banheiro do chão ao teto duas vezes no mesmo dia, limpar os muitos vidros da embarcação e dividir um espaço diminuto com várias pessoas são algumas das tarefas e desafios frequentes no dia a dia a bordo.

“Eu não sabia nada de redes sociais, mas comecei a fazer os vídeos na primeira viagem em que tinha responsabilidades iguais às dos outros dois tripulantes. Nós trouxemos o barco de Abrolhos (BA) até Paraty (RJ). Era uma forma de manter os diários que eu fazia desde criança na minha primeira viagem com os meus pais e irmãs, mas como não tinha tempo para escrever, resolvi filmar e contar o que acontecia. Aí surgiu a ideia pro canal”, explica.

Com uma audiência composta quase que exclusivamente de homens (96%), o canal de Tamara buscava no início -além de desmistificar o ato de velejar - popularizá-lo no país, principalmente entre o público feminino. “Quando eu comecei, tinha esse objetivo bem forte de trazer mais mulheres. Coloquei uns vídeos com desenhos, letras rosas... Tudo para tentar deixar mais fofo [risos]. Eu me apeguei a esses estereótipos e não consegui mudar nada. No Brasil, até pela situação socioeconômica, pouquíssimas pessoas têm acesso à vela”, diz.

Na opinião de Tamara, o machismo no meio náutico é grande. Não tanto dentro do barco, com os colegas tripulantes “porque as tarefas são divididas e cada um faz a sua parte”, mas principalmente no ambiente de marinas. Ela cansa de ouvir perguntas do tipo “onde está seu namorado?’ ou “cadê o seu pai?”, quando circula por atracadores em que não a conhecem. “O ambiente é machista. Também tem aquele momento em que você está carregando um galão de 20 litros de água e um homem se oferece pra carregar, você diz não e começa aquela briguinha, insistência. Hoje em dia eu deixo carregarem [risos].”

“Na última viagem que eu fiz, com um grupo de pesquisadores, eram 12 homens e só eu de mulher. Você vê, eu sorrio bastante, mas no começo eu tentei ser bem séria para eles saberem que eu não estava lá a passeio. Depois normalizou. Acho que muitas mulheres passam por isso em ambientes muito masculinos.”

Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram

Estudante de arquitetura da FAU, Tamara quer trabalhar, no futuro, com projetos de marinas, portos e barcos. ‘Estou fazendo uma matéria sobre engenharia de barcos na Poli. Na classe sou e mais uma menina no meio de vários garotos e mesmo não entendendo muito das questões mais matemáticas, eu tenho um entendimento do funcionamento de embarcações que me ajuda muito. Meus colegas vêm me mostrar os projetos, pedem opiniões”, diz.

Apesar da inegável influência dos pais, Amyr e Marina Klink, na relação de Tamara com a vela, ela conta que os dois procuram não se envolver muito em seus projetos e atividades. “Meu pai não quer que a vela seja uma coisa de obrigação nem me ensina muito as coisas”, diz. Quando tinha 15 anos, a estudante pediu ao pai que emprestasse seu barco para que ela pudesse ir à Antártica sozinha. Amyr respondeu que se ela quisesse fazer isso, deveria construir a própria embarcação.

“Eu pensei: Ele não vai me ajudar? Não vai emprestar? Mas depois eu entendi que esse é o tipo de processo em que não adianta ter as coisas prontas. Eu tenho que fazer meu próprio caminho.”