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Mulheres protagonizam um mundo em evolução

Elza Soares critica "país cretino" e diz que tem "dedo podre" para homem

Natacha Cortêz

Da Universa, em São Paulo

17/05/2018 14h50

Em uma das duas suítes presidenciais do Hotel Fasano, em São Paulo, Elza Soares está acomodada em uma cadeira de couro e veste branco dos pés ao pescoço. O traje, cuidadosamente escolhido para um dia intenso de 12 entrevistas, simboliza o atual momento da cantora. Depois do premiado “A Mulher do Fim do Mundo” (2015), “a gente quer luz", ela conta. A proposta com “Deus é mulher”, seu 33º disco, é “iluminar, com sol, o que se cala”.

E isso, o álbum faz da primeira à última canção. “Deus é mulher” é marcado por frases de protesto que ora dialogam com questões urgentes ora remetem à própria vida da cantora, marcada por renascimentos. Do alto de seus 87 anos, Elza canta contra o racismo, exige a liberdade sexual e do gozo e fala de feminismo - sem nunca, sequer, dizer essa palavra. "Eu sou feminina. Não, feminista", diz a artista, em entrevista à Universa. 

O disco da “cantora do milênio”, como Elza foi chamada certa vez pela BBC, fala de mulher, tem mulher assinando música (Tulipa Ruiz e Alice Coutinho, entre outras) e mulher na percussão (o grupo instrumental Ilú Obá de Min, formado todo por mulheres, participa de duas das onze faixas). Para a filósofa Djamila Ribeiro, que analisou a obra, “Deus é mulher” é, antes de mais nada, uma obra política”.

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Universa: Deus é mulher?
Elza Soares: Acho que é. Mas Elza não é moda. Eu já nasci gritando que Deus é mulher. Quem está gritando isso agora está me imitando; imitando o meu pedido de socorro. 

Carine Wallauer
Imagem: Carine Wallauer

Você se considera feminista?
Eu sou feminina. Não feminista.

Não gosta que te chamem de feminista?
Eu gosto que me chamem de mulher. De feminina mulher.

Qual é a diferença?
A diferença é que usando "feminista", você está gritando muito. Na minha época, ninguém usava essa palavra. A gente não sabia o que era feminista, mas eu já era uma. Pelas minhas cobranças, e por tudo que eu tinha que responder e respondia.

A faixa "Eu quero comer você", fala de uma mulher que não tem tabus com o sexo. Qual o papel do sexo, hoje, na sua vida? 
Já fui uma mulher de muito sexo, de muita vontade, de muita vida. Hoje, estou apaixonada por mim. Meu tempo agora é para cuidar da arte e da família. Não quero mais me dividir. Não quero mais ser dividida.

Você está namorando? 
Estou me namorando. Não preciso estar com alguém para ser a Elza Soares. Tinha que ser uma coisa muito séria pra eu namorar. O problema, ironicamente, é que se for 'muito séria', eu não vou gostar. Tenho dedo podre pra isso.

Dedo podre para homem? 
Isso mesmo. Não consigo escolher coisa boa.

Como a morte da vereadora Marielle Franco bateu em você? Sei que você ficou de repouso e cancelou entrevistas naquele dia.
O assassinato dela mexeu muito comigo. Ela era uma mulher que estava na frente, gritando pelas mulheres, pela negritude, pela homofobia. E, de repente, essa mulher tão forte, entoando um grito tão aberto, é assassinada. Qualquer um sensível a situação do país e sensível a situação das mulheres e dos negros ficaria mal

E sobre o momento político pelo qual o Brasil passa, como vê ele? 
Eu vejo tudo muito embolado, muito embaraçado. As pessoas estão em dúvida, com medo, sofrendo, sem chão. Eu mesma já passei por uma ditadura terrível. Entendeu? Isso me amedronta um pouco. A gente não sabe para que lado a coisa vai. A gente não tem certeza de nada. As esquinas estão ao contrário.

Você pretende votar nas próximas eleições? Faz questão de ir até sua seção e exercer o voto?
Sim, mas pretendo votar, mas com muita segurança. Analisar muito bem antes de sair de casa para votar. Agora, se você me perguntar se tenho candidato, não tenho nem ideia. Tá bem difícil definir isso.

Carine Wallauer
Imagem: Carine Wallauer

Ainda falando de feminismo e de ser mulher no Brasil: uma mulher que aborta deveria ser presa? Você gosta da lei de aborto que temos, que compreende estupro, risco de vida à mãe e anencefalia?
Não adianta a gente discutir se a lei é boa, se eu gosto ou não dela. A questão principal é que estamos num país que não dá as suas mulheres segurança nenhuma, assistência nenhuma. É muito triste.

Você fez algum aborto?
Já fiz aborto; eu devia ter 15, 16 anos. Era muito muito criança, cara. E muito pobre. Botar no mundo filho miserável é terrível. Você não tem como educar, como cuidar dele, você não tem assistência nenhuma. Para que botar mais um miserável na Terra? Era assim que eu pensava.

Você se casou pela primeira vez aos 12 anos. Como aconteceu esse casamento? Você ao menos gostava dele quando se casaram?
Éramos duas crianças. Eu tinha 12 e ele, uns 18. Era alguém ali da região. Eu tive que casar. Não gostava dele. Criança não ama. Criança não sabe nada. Criança se empolga.

Durante as gravações do seu penúltimo disco, "Mulher do Fim do Mundo" você perdeu um filho. Mesmo em luto, produziu o álbum. A morte de um filho não te fez parar. O que te faria parar?
Perder a voz. Só assim. 

Você pensa na sua morte? 
Olha, não sei nem se tenho tempo de ter medo de morte, sabe? Ela existe, né, então, medo é besteira.

Carine Wallauer
Imagem: Carine Wallauer

Sente racismo, ainda hoje?
O racismo brasileiro é o pior. Eu, Elza Soares, ainda luto por trabalho por causa de racismo. Quando botam uma branca trabalhando, pagam milhões, quando é Elza Soares, ah, aí fica difícil. Brigam porque vou botar no meu show um telão cheio de denúncias contra racismo, machismo e homofobia. Se eu fosse uma branquinha maravilhosa, não teria esse problema. Meu show é de protesto. Eu quero gritar! Por favor, não me proíbam!

Tem orgulho de ser brasileira?
O que tenho orgulho é de ser a mulher que sou. De ter chegado aonde cheguei. Eu precisava ter nascido no Brasil. Acho que apontaram pra mim e disseram: 'você que vai ter que gritar pela sua dor. É você que vai ter que gritar pela sua liberdade. É aqui, neste país racista, cretino, que você vai ter que gritar. 

Por que veio dar entrevista toda de branco? 
Porque é isso que faço o tempo todo no disco: iluminar, com sol, o que se cala.

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