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Violência contra a mulher

"Gota d'água": Liniker, Eliane Dias e lideranças femininas choram Marielle

Ricardo Borges/Folhapress
A cantora Liniker também se posicionou após a morte de Marielle Franco Imagem: Ricardo Borges/Folhapress

Flávia Martinelli, do blog Mulherias*

Colaboração para Universa

17/03/2018 09h27

A morte de Marielle Franco mobilizou artistas, mulheres das periferias, da política, militantes do movimento negro e formadoras de opinião de diferentes áreas e especialidades. "É das poucas vezes que me falta a voz", diz a cantora Elza Soares. Quinze mulheres célebres como Eliane Dias, Liniker, Alcione, Paula Lima e de outras tantas vozes deram depoimentos à Universa que, em uníssono, prometem: "não vão nos calar".

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"Esse assassinato é a gota d'água"

“Esse assassinato é a gota d’água. Há três anos eu há havia falado disso: estão colocando o pé no nosso pescoço! A gente não vai mais aguentar ver negros morrerem a cada 23 minutos no Brasil. Não vamos mais tolerar negras com idade entre 15 e 29 anos com duas vezes mais chances de serem assassinadas que brancas da mesma idade. Não podemos mais ignorar famílias sendo desestruturadas. A mulher negra sem nenhum apoio é a mais abalada porque nós sabemos bem quem é o pilar das famílias.

Venho falando que uma hora essa impunidade e irresponsabilidade para com a maioria da população não vai dar mais pra aguentar! E falo de novo: agora, nesse exato momento, tem um caldeirão esquentando na base e ele vai ferver. Não considero a morte de Marielle política porque é mais que isso: é uma raça que querem exterminar.

Mas Marielle deixou portas abertas para outras mulheres. A gente não vai retroceder porque não tem opção. Gostaríamos de nos dedicar a nossa vida pessoal, ao amor, à carreira, trabalho e filhos mas nossa vida não permite. Temos que ser resilientes e resistentes. Outras Marielles estão ai. Elas chegaram e não vão embora."

Eliane Dias, "militante e mulher negra em primeiro lugar", advogada, coordenadora do programa antirracismo da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, o S.O.S. Racismo e empresária do grupo Racionais MC's

"É das poucas vezes em que me falta a voz"

"É das poucas vezes em que me falta a voz. Chocada. Horrorizada... Toda morte me mata um pouco. Dessa forma me mata mais. Mulher, negra, ativista, defensora dos direitos humanos. Marielle Franco, sua voz ecoará em nós. Gritemos!"

Elza Soares, cantora e "mulher do fim do mundo"

"Foi-se mais uma guerreira"

"Marielle, a sua voz não se calou. Ela ecoará sempre nos ouvidos de quem precisa ouvir os teus gritos de esperança. O céu te aguarda em festa, junto com Mandela e todos aquele que lutaram por nós. Que Deus também dê a conformação para os familiares de Anderson Pedro Gomes, o motorista de Marielle." 

Alcione, cantora

"Marielle abriu um outro precedente por sua capacidade de mobilização nacional. Temos que aplacar nosso medo"

"Falo diretamente da manifestação do MASP em São Paulo no dia 15, onde as pessoas estão se concentrando. O clima é de tristeza, de protesto, luto. Não que outros casos não sejam importantes, mas esse abriu um outro precedente. A gente teve a tragédia com Luana Barbosa, mulher negra e lésbica que foi espancada por policiais até a morte, tivemos tantos outros... Mas acho que esse com Marielle está tendo capacidade de mobilização nacional e mostra que estamos vivendo um Estado de Exceção, um momento delicado do país que a gente tem de se mobilizar como povo.

Temos que aplacar um pouco o medo que um acontecimento como esse incute na gente. O Brasil é nosso, um país que tem um povo maravilhoso e agora temos de lutar para retomar o país para a gente, para o povo, que é a melhor coisa que temos... Sobretudo o povo negro, as mulheres negras que já foram tão vilipendiadas nesses 400 anos de escravidão. Quem está levando tudo isso para a frente são os colonizadores, que continuam no governo, é a herança daqueles que não aceitam perder e vão sucessivamente se alternando no poder neste país. Mas não tem como isso persistir nessa nova era. Nós não vamos deixar."

Roberta Estrela D'Alva, atriz, MC, diretora musical, ativista, pesquisadora, apresentadora e slammer brasileira

"Estamos em guerra. Foi um divisor de águas pois escancara a nossa impotência frente a todo o racismo"

"Estamos em guerra. E precisamos ter clareza disso. Tem uma estratégia invisível, construída, de extermínio mesmo, institucionalizada pelo poder. Tudo arquitetado para nos aniquilar e quanto mais a população negra ascende e é vista, mais o racismo aparece, e mais o poder deles é colocado na mesa para controlar e cercear o nosso próprio poder.

A morte da Marielle é muito séria, vejo como um momento de transição que vai impactar nas futuras gerações. Neste momento não dá mais para recuar e nem colocar debaixo do tapete e amenizar, com a sensação de que está tudo bem. Morrem negros, pessoas inocentes todos os dias, mas morte da Marielle é um divisor de águas, pois declara, escancara a nossa impotência frente a todo o racismo estrutural e institucional que nos aprisiona.

Tenho a sensação de que ela sabia dos riscos que corria ao fazer as denúncias. Mas colocou a sua vida à prova para reverberar o genocídio dos negros. E não vamos nos calar, vamos dar a continuidade ao que ela começou. Em poucas horas a mobilização foi geral, todo mundo engajado em reverberar essa atrocidade. Uma pena que para que tudo isso acontecesse fosse preciso de uma vida, a vida de uma mulher negra, mãe, que tinha o sonho da liberdade, da igualdade de direitos. A morte dela é um marco histórico deixa evidente que essa luta não é só dos negros. É de todos nós."

Adriana Barbosa, fundadora da Feira Preta, uma dos 51 negros mais influentes do mundo com menos de 40 anos da lista do Mipad (Most Influencial People of African Descent)

"Eu também fui assassinada naquele carro"

"Me sinto assassinada com ela. Só de pensar meus olhos marejam e meu coração acelera. Sou eu a vereadora Marielle, que ousou o pleito de vereança. Ela foi e eu fiquei. Sou eu Preta, sou eu periferia, sou eu como ela. Sou eu trêmula neste momento e inerte. Sou eu encarcerada sem as grades de ferro. Sou eu como ela, militante de causas. Isso foi um recado pra mim, pra ela, pra nós, pra todas nós: 'não ousem sair do quarto de despejo', como escreveu a poeta Carolina Maria de Jesus.

Essa baixa quer determinar qual deve ser nosso lugar e diz, exatamente, 'não tente ousar'. Ela foi silenciada para sempre e agora mais que entendo por que sou silenciada. E e o fomos no Fórum Social Mundial também. A conjuntura política do país nos levou ao declínio, ao abismo, a meio-fio das trevas. Como sempre digo, a luta é contínua, por ela, por mim, por nós, por todas nós.

Sharylaine, rapper, compositora, precursora na cena feminina do hip hop, integrante da Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop (FNMH2)

"Dói muito, arde o coração, a boca fica seca, mas eu não deito, Marielle não deitaria"

"Eu estou aqui hoje, por uma corrente maior de conexão e ancestralidade, unida com com o meu asé e com a certeza de que nós não abaixaremos as nossas cabeças e não nos silenciaremos.

Dói muito, arde o coração, a boca fica seca, mas eu não deito, Marielle não deitaria.

Explosões, execuções, genocídio, machismo, silenciamento.

Não diminuirão o barulho de nossos pés sobre a terra,

não quebrarão a corrente que fazemos com nossas mãos.

Nós estamos aqui, eu estou aqui, Marielle está aqui!"

Liniker, cantora e compositora

"Marielle virou multidão"

"No dia 15 de março, ao anoitecer, fui ao vão do MASP em São Paulo para me juntar a todos que prestavam homenagem a Marielle e Anderson, executados no dia anterior, em plena luz do dia. A morte dos dois é a morte para o silêncio. Quiseram calar a voz desta mulher negra, gay, nascida na favela da Maré, liderança popular, que tinha um lado na luta.

Marielle lutava contra a intervenção militar do Rio de Janeiro pois sabia que geraria mais violência; que os mais vulneráveis, os jovens negros, moradores das favelas, já vítimas do genocídio, é que ficariam com esta conta, que pagam com a vida, com a dor e com a humilhação. Lutava contra as retiradas de direitos. Lutava e sabia que as mulheres negras são as mais estupradas e ao mesmo tempo as que são mais encarceradas. A execução de Marielle é a morte para que se cale.

Marielle não só se movimentava. Ela dava um baile a cada dia, nas favelas desta cidade maravilhosa, tamanha sua energia. Nas mesmas favelas onde a violência chega também pelas mãos do Judiciário. Ou alguém acha que ela esqueceu dos mandados de busca e apreensão coletivos expedidos para a favela da Maré?

Quiseram calar Marielle, mas até em sua morte ela consegue transformar o nosso luto em luta. Entidades de todos os cantos do país, das mais diversas, expediram notas e manifestos. Homenagens se espalharam pelas redes sociais. Atos em tantas cidades, com seu nome , com sua voz. Marielle virou multidão, como li em algum lugar.

Marielle, seguiremos sua luta. Não deixaremos que a morte de uma defensora de direitos humanos acabe em algum escaninho. Exigimos que o Estado brasileiro preste contas da barbárie. Seguimos a multidão em sua luta. Marielle, presente!"

Kenarik Boujikian, desembargadora do Tribunal de Justiça de São Paulo, cofundadora da Associação Juízes para a Democracia

"Calam uma, milhares surgem"

"Marielle Franco,

O país está mais triste. Uma mulher, negra, mãe, lutadora, que construiu uma história de luta na periferia do Rio de Janeiro foi executada por não se calar. A violência mata nossas mulheres, nossas pretas, nossas irmãs. Nos querem invisíveis e caladas. Não nos querem nos espaços de representatividade e de poder. Nossa pele, nossos traços, nossa voz incomoda. 

Mas insistimos. Calam uma, milhares surgem. É uma caminho sem volta, nos fortalecemos, curamos nossas feridas e seguimos em frente. O Brasil grita por mudanças. Marielles, Dandaras, Luizas, Marias estão surgindo nas periferias, nos grandes centros, nas regiões longínquas, líderes, guerreiras, que lutam por país mais justo. Marielle sua morte não foi em vão." 

Elizabete Leite Scheibmayr, advogada e líder do Comitê de Igualdade Racial do Grupo de Mulheres do Brasil

"Resiliência e superação fazem parte da nossa constituição. Marielle sabia disto"

"Apagamento, silenciamento, exclusão, genocídio e extermínio são palavras que infelizmente sempre atravessaram a vivência de pessoas negras em diversas esferas. Marielle sabia disto com excelência, tanto que, dentre diversos adjetivos que a descrevem, intelectual negra e acadêmica é um deles.

Parte significativa da sua inspiração e atuação política estavam fundamentadas em sua dissertação de mestrado, sobre políticas públicas em comunidades. Porém, mesmo nesse âmbito ainda impera o chamado 'epistemicídio', um racismo acadêmico que aniquila simbolicamente intelectuais negras e negros e suas produções. No entanto, quando esse aniquilamento concretiza-se, atinge a todas e todos nós — como no caso do extermínio da Marielle. Somos lançadas e lançados a diversos questionamentos em diversos âmbitos pela figura que ela inspira: 'de que maneira seguir? De qual maneira prosseguir? Como se manter saudável e vicejar num entorno tão hostil?'

A sabedoria popular é incrível, particularmente, gosto muito da metáfora da semente [um grito de guerra conhecido entre mulheres negras sobre tentativas de enterrá-las sem saber que elas são sementes]. Porque resiliência e superação, definitivamente, fazem parte da nossa constituição. Desde sempre. E Marielle também sabia disto."

Reimy Solange Chagas, psicóloga clínica e social, professora universitária, mestre em Psiquiatria Transcultural pela Universidade Sorbonne e Doutora em Psicologia Social pela PUC-SP

"Ela foi a mulher da favela que o Brasil não quer ver"

Estive dia 15 em frente à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e vi brasileiros chorando, gritando indignados e exigindo resposta! Eu não vi só negros, só favelados, só mulheres, só brancos. O Brasil estava lá! Marielle conseguiu fazer isso! E isso incomodou, isso incomoda o Brasil.

E de que Brasil que se incomoda com a voz de uma mulher negra lésbica da favela estou falando? Até onde a favela pode ir? O que a favela pode chegar e ser nesse país de 'todos os brasileiros'? Acho que agora o Brasil sabe de quantos 'Brasis' estamos falando, né?

Falo de um Brasil que não suporta mais morrer e de um país que aprendeu a matar com recorte racial! Falo de um país que se nega a sair do seu estado colonial, separatista, onde todos sabem no final do dia onde a maioria dos negros, principalmente os de 14 a 29 anos, vão estar. Falo de um país que aprendeu as técnicas de um apartheid com maestria e que consegue excluir, por meio da ideologia racista, mais da metade da sua população. Isso tem adoecido nosso país.

Marielle, Elza Soares, Dandara dos Palmares são de uma favela que o Brasil não quer saber e envenena. O esgoto a céu aberto, a ausência do estado, as armas de fogo, a fome não nasceram na favela. Nos envenenaram.

Marielle era uma socióloga, mãe, mulher, defensora dos direitos humanos! Ela tentava curar nossa sociedade. Portanto, ela fazia política para o povo brasileiro. Era para todos, como o Brasil deveria ser.

Escolherem matar uma mulher negra, lésbica, favelada — e para nós, feministas negras, não é espanto. Somos humanas, sentimos dor, estamos sangrando. Fiquei a manhã inteira paralisada, chorando, olhando para minha filha que é uma mulher negra de 19 anos, cheia de sonhos... Sabemos quem está morrendo todos os dias. Somos a base da pirâmide social. O feminicídio negro aumentou no Brasil 54,9%, mesmo com doze anos da lei Maria da Penha, enquanto a violência contra a mulher branca diminuiu quase 12%. É necessário rever o feminicídio no Brasil com recorte racial urgente!

Marielle não permitia ser interrompida. Isso incomoda, tira as coisas do lugar. Ou melhor: coloca as coisas em seu devido lugar. Como diz Angela Davis, 'quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela'. Foi isso que Marielle fez."

Kenia Maria, atriz, escritora e Defensora das Mulheres negras da ONU Mulheres

"Não haverá descanso enquanto não houver justiça, transparente e real. Tentaram calar o 'incalável'"

"Tristeza, dor, angústia, raiva, e tantos outros sentimentos. É inaceitável. Que lugar é esse onde vivemos? 'Pararam' a voz dessa grande guerreira. Singular. A voz ativa pelos direitos humanos, focada 'no que' e 'em quem' realmente importa. Mas sua história escrita, suas causas, lutas e seus muitos e lindos feitos ninguém, de qualquer organização podre, apagará. Marielle era sólida demais, inteligente demais, gente demais. Mulher, negra, ativista, lésbica, da Maré, desafiou todas as estatísticas e hoje se multiplicou, por meio de todos nós. Ela agora empoderou coragem com um condão em cada um de nós.

Sua força servirá como o mais valioso ensinamento: a liberdade não tem medo. A resistência, a luta pelos nossos direitos e a vida do outro, mais do que nunca, farão parte da nossa trajetória também. Essa mulher me representa. Marielle, você estará presente na história desse país e sua voz, que não se calou, agora foi multiplicada, ecoa em cada um de nós. Não haverá descanso enquanto não houver justiça, transparente e real. Tentaram calar o 'incalável'. Gratidão pela sua existência".

Paula Lima, cantora

"Somente juntos e dando as mãos venceremos, hackeando o sistema"

"Confesso para você que estou com medo. Medo porque enquanto escrevo isso, um jovem negro foi assassinado, uma mulher negra sofreu violência e daqui a quatro dias um ativista de direitos humanos não estará mais entre nós. Medo porque tantos ignoraram, como se fosse somente um número ou um fato distante. Sinto medo pela minha mãe, minhas tias, minhas primas, minhas irmãs de cor. Sinto medo porque poderia ser eu... E posso ser a próxima.

Mas o medo não pode nos calar, não pode nos parar, não pode nos estagnar. E é por isso que estou aqui falando com você. Para que não deixemos a morte de mulheres negras virar regra.

Para que possamos dar voz ao povo da Maré, à Luyara que ficou sem mãe, à companheira de Marielle que perdeu um grande amor. 

Somente juntos, indignados, secando as lágrimas uns dos outros e de mãos dadas venceremos. Hackeando o sistema.

Sigamos! Juntos, indignados, pacifistas, incansáveis!"

Lisiane Lemos, ciberativista, integrante da lista da Forbes Under 30, fundadora de uma ONG para ajudar a criar a ponte entre profissionais negros e empresas

"As manifestações não foram só contra a violência brutal mas contra um Estado que vê o povo pobre, negro e periférico como inimigo"

"Nos quase oito anos de mandato na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, ocupei a tribuna diversas vezes para manifestar minha indignação, estarrecimento e tristeza. Mas dessa vez tive que abrir meu coração e expressar a minha dor mais profunda. A vereadora Marielle Franco era uma voz consciente e tinha uma postura firme, que conseguiu ocupar um espaço que poucas mulheres negras ocupam, por que são impedidas por um Estado racista e um sistema político perverso.

Marielle morreu porque teve a audácia de se candidatar e ser a quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro nas últimas eleições. Teve a coragem de denunciar arbitrariedades e autoritarismo.

Hoje vivemos o luto de mais uma mulher negra assassinada pelo machismo, pelo racismo e por um Estado conivente com a injustiça e a desigualdade, que falhou e tem falhado em defender e proteger os cidadãos e seus direitos.

Senti ao ler as matérias sobre o assassinato de Marielle, que muita coisa parece que morreu em nós, pois a morte dessa mulher admirável e combativa foi, também, uma tentativa de assassinar luta de outras mulheres negras que, diariamente, combatem o genocídio de seus filhos e filhas.,

Mas, o nosso luto não vai nos paralisar. Cidades em todo o país realizam manifestações para protestar, não apenas contra essa violência brutal que tirou a vida de Marielle, mas também por todas nós que, como ela, somos ameaçadas por um Estado que vê o povo pobre, negro e periférico como inimigo.

Marielle, minha irmã, que Orum te receba em festa!"

Leci Brandão, deputada estadual na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo 

"Senti o frio do medo de quem sabe o que é ser alvo. Mas não caminhamos sós"

"Os nove tiros disparados contra Marielle, não atingiram apenas um corpo, mas o corpo de 46 mil dos seus eleitores e das mais de 36 milhões de mulheres negras brasileiras. Aquelas quatro balas tornaram o dia mais amargo, mais duro e o caminho mais perigoso.

Reprodução
Maitê Freitas Imagem: Reprodução

Eu, mulher. Eu, mulher preta de origem periférica. Eu, mulher preta senti no meu corpo a dor dessa morte, senti o frio do medo de quem sabe o que é ser alvo, ser ativista e lutar pelo direito à vida, à existência e ao nosso direito de contar nossas histórias.

Quando aqueles quatro projeteis atingiram Marielle, atingiram também os sonhos de mulheres negras que lutam por um futuro possível: aos seus filhos, irmãos, netos e parceiros.

Marielle, eu e todas nós mulheres negras sabemos que o Estado brasileiro tem um único alvo e que temos contra os nossos corpos, os projeteis que marcam e determinam minuto a minuto quem deve viver neste país.

Nossa vida é legado de Nzinga, Aquotirene, Dandara, Luiza Mahin, Luiza Bairros, Carolina Maria de Jesus, Tia Ciata, Marielle Franco e tantas outras. Nossos passos vêm de longe e não caminhamos sós."

Maitê Freitas, jornalista, atriz, mestranda, feminista, negra nascida no Grajaú e colaborada de diversos projetos voltados às mulheres negras e a memória afrobrasileira

"Mulheres negras são a menor minoria entre as minorias nos espaços de poder e mais uma vez nos foi calada a voz"

"Sempre tive Marielle como uma postulante exemplar de mulher negra servidora pública que conseguia representar uma parcela da sociedade, não apenas pela representatividade mas pelo histórico de atuação. 

Foi um silenciamento não só dessa população que nunca foi sonhada e pensada nas políticas públicas, mas de toda a sociedade que acredita na democracia e no respeito do direito à vida.

Uma prioritária, sobretudo, à quem defende direitos humanos. Apesar de sermos a maior parte da população brasileira, mulheres negras são a menor minoria entre as minorias nos espaços de poder e mais uma vez nos foi calada a voz."

Bruna Barros, cofundadora do projeto @GranaPretaVC, de investimentos baseados em diversidade

*Colaborou também Stéfanni Mota.

A morte de Marielle Franco mobilizou artistas, mulheres das periferias, da política, militantes do movimento negro e formadoras de opinião de diferentes áreas e especialidades. \"É das poucas vezes que me falta a vo","image":{"sizes":{"personalizado":"","original":"900x506"},"height":506,"width":900,"crops":"1x1;3x4;4x3;9x16;16x9;16x12;80x80;100x70;128x96;142x100;142x200;300x100;300x200;300x300;300x420;300x500;615x300;564x430;615x470;956x500;1024x768;1920x1080;1920x1280","src":"http://conteudo.imguol.com.br/c/entretenimento/8e/2017/09/22/liniker-canta-no-rock-in-rio-1506126031212_v2_900x506.jpg","type":"","titulo":"A cantora Liniker também se posicionou após a morte de Marielle Franco","credito":"Ricardo Borges/Folhapress"},"date":"19/03/2018 15h52","kicker":"Da Universa"}}' cp-area='{"xs-sm":"49.88px","md-lg":"33.88px"}' config-name="universa/universa">

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