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Em ocupação gerida por duas mulheres, bem-estar de 26 crianças é prioridade

Reprodução/ Alexandre Maciel
Moradores e apoiadores da Ocupação Independente Aqualtune Imagem: Reprodução/ Alexandre Maciel

Helena Bertho

da Universa, em São Paulo

12/05/2018 04h00

Sentados em carteiras de plástico, com cadernos em mãos, oito adolescentes e duas adultas debatem com a professora os possíveis temas da redação do ENEM deste ano. "Direito à moradia pode ser um deles", diz ela. E completa: "E daí vocês têm muitas chances, porque isso faz parte da vivência daqui, né?".

A aula acontece no topo do desativado Colégio Butantã, na zona oeste de São Paulo, um prédio de quatro andares que, em 2016, foi ocupado por 30 famílias. Elas fundaram ali a Ocupação Independente Aqualtune. Segundo a tradição, esse era o nome da avó materna de Zumbi dos Palmares, uma princesa africana.

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As antigas salas de aula viraram casas, mas o último piso guarda a atmosfera de uma escola. Acontecem ali, além de um cursinho pré-vestibular popular, atividades psicopedagógicas, aulas de teatro e reforço para as 26 crianças que vivem ali.

UOL
Aline e Karina são as coordenadoras da ocupação Imagem: UOL

"Meus filhos nunca foram ao cinema; a maioria aqui nunca foi. Então, a gente tenta ajudar a melhorar a vida deles com outras atividades", diz Aline da Silva, cuidadora de idosos que, ao lado da amiga Karina Holanda, porteira, lidera a ocupação. Aline tem sete filhos, Karina, nenhum, e ambas são solteiras. Os adultos que trabalham no prédio são todos voluntários. 

Mãe de sete 

Quatros dos filhos de Aline ainda moram na ocupação. Um deles, do par de gêmeos de 16 anos, tem esquizofrenia e autismo (o outro irmão, cujo quadro de saúde é mais delicado, mora com os avós). Com a mãe, vivem ainda duas meninas de 11 e 14 anos. O pai deles todos faleceu. 

A família de Aline vive em ocupações há seis anos. "Morava no Centro de São Paulo, mas não consegui mais pagar o aluguel. Era ele ou a comida. Daí, uma amiga disse que ia ocupar um prédio. Peguei minhas coisas, uma filha no colo e fui", conta. Desde então, calcula em nove o número de reintegração de posses e mudanças pelas quais já passou. Entre as muitas dificuldades que essa dinâmica acarreta, as que pesam nas crianças são as mais doídas para ela.

"Às vezes eu fico pensando: 'caramba, por que eu tive tantos filhos?'. Minha preocupação não é tanto onde eu moro, mas a incerteza de um dia estar aqui e outro não. Isso faz com que as crianças tenham que mudar de escola com frequência".

Preconceito na escola

A maior parte das crianças da ocupação estuda na mesma escola pública, perto de casa. Elas costumam relatar aos pais e às coordenadoras da "ocupa" situações de preconceito.

"Têm colegas que não quererem brincar com eles, porque dizem que eles têm piolho. Também já chamaram minha filha de 'neguinha do Borel'. Dia desses, uma das mães daqui pegou o filho cortando o cabelo, porque faziam piada, dizendo que era "cabelo de Miojo", conta Aline.

Coordenadoras e mães já foram reclamar na escola, mas, dizem, nenhuma mudança aconteceu. Elas atribuem o descaso ao fato de morarem numa ocupação.

Teatro, excursão e vestibular

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Aula no cursinho popular da ocupação Imagem: UOL

As crianças recebem visitas de voluntários para brincar, assistem, de vez em quando, peças da companhia de teatro Cia. de Galochas, e fazem passeios e excursões. Em datas especiais, as líderes fazem um "corre" para armar festinhas e comprar presentes. 

Esse ano, começou também a operar ali um cursinho popular. Ele é aberto para outros jovens e adultos da região. Karina e Aline frequentam as aulas. Karina, que cuida da portaria da ocupação, quer fazer Ciências Sociais. Já Aline, pretender prestar vestibular para Direito. Ela frequenta ainda um curso técnico de cuidador. 

Reintegração de posse e negociações

Os moradores da Aqualtune estão na expectativa de que uma defensora pública e duas advogadas voluntárias consigam reverter a reintegração de posse autorizada pela justiça no início do ano. Paralelamente, tentam negociar com a Secretaria de Habitação a permanência definitiva no prédio.

"Essa espera é angustiante. As pessoas não olham pra gente. E as crianças são as maiores vítimas", diz Aline.

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