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Como funciona uma ocupação de mulheres no centro de São Paulo

Carine Wallauer/UOL
A vista da varanda do nono andar do Ouvidor 63, no centro de São Paulo Imagem: Carine Wallauer/UOL

Bárbara Tavares e Helena Bertho

da Universa, em São Paulo

06/05/2018 04h00

Na entrada do prédio de número 63 da Rua do Ouvidor, no centro de São Paulo, há sempre alguém de sentinela. O edifício de 13 andares, todo ocupado por artistas, abriga no nono andar um espaço ainda mais peculiar: um coletivo de sete mulheres, também artistas, que, além de produzir obras de arte, ainda institui no prédio diretrizes femininas e feministas.

O cuidado na portaria, portanto, tem explicação: "É para nossa segurança", diz uma das artistas que mora no prédio. Ela acompanhou a reportagem de Universa numa visita ao local. Esse é o jeito que visitantes e curiosos podem entrar ali. 

O edifício, que no papel pertence ao Governo do Estado de São Paulo, abriga cerca de 110 pessoas, entre músicos, pintores, escultores, tatuadores, circenses, e seus familiares. Os moradores ocupam o local há quatro anos e se organizam de maneira independente, dizem eles, sem liderança nem cobranças. “Decidimos tudo que é de interesse comum em assembleias gerais”, diz um dos residentes. No mais, cada andar é gerido à maneira de seus ocupantes.

Nelson Almeida/AFP
A fachada do Ouvidor 63 com intervenções artísticas Imagem: Nelson Almeida/AFP

A ocupação das sete mulheres 

O nono andar tem uma sala grande, de cerca de 50 metros quadrados, cozinha, três quartos, banheiro e varanda com vista para o Centro - que causaria inveja em muitas varandas gourmet. A mobília - sofás, cadeiras, um pufe grande que faz as vezes de cama, mesa, geladeira e fogão - é simples, tudo fruto de doações. Um gato preto dorme tranquilo no encosto de um dos sofás. Na sala, uma das paredes é coberta por um mural com obras de arte, outra, por tecidos estampados, e o resto permanece em branco, aguardando mais intervenções artísticas.

Uma lousa aponta a agenda da semana, com reuniões e oficinas, cartazes exibem frases de ordem como "Nossa luta é na rua" e, na varanda, há uma horta comunitária com tomates, manjericão, boldo e outras hortaliças.

Todo esse espaço é ocupado e gerido por três mulheres. Funciona como moradia e também como área de oficinas e diálogos. Ali rolam aulas de alongamento, dança, canto, de produção de brinquedos sexuais (feitos de material reciclado), workshops de autoexame ginecológico, projeções de filmes e muita conversa sobre empoderamento feminino.

O trabalho no andar começa no acolhimento. As portas estão abertas principalmente para mulheres trans e viajantes. São três moradoras fixas, entre elas, a colombiana Erika, de 34 anos, e as outras quatro vagas são rotativas. Essas moradoras podem ficar até um mês ali. A ideia é oferecer abrigo temporário. 

"Temos uma cozinha coletiva. Duas vezes por semana, nos organizamos para recolher e reciclar alimentos que seriam jogados fora pelos mercados locais. Quando falta alguma coisa, a gente faz uma intera para comprar", conta Erika. 

Às terças-feiras, as sete moradoras se reúnem para trocar experiências, e abrem espaço para que outras moradoras do prédio participem das conversas.

"Somos mulheres independentes econômica e intelectualmente. Então, quando chega uma que não é autônoma, vendo nosso trabalho, ela aprende muito e começa um processo de questionar uma série de coisas".

Combate ao assédio na ocupação

As mulheres do nono andar se tornaram referência para as outras. Em casos de assédio na ocupação, por exemplo, são a elas que as vítimas recorrem. “Antes de chegarmos aqui, não acontecia nada com o homem que abusava ou assediava. Agora, ele é expulso", diz Erika.

Homem que assedia mulher é expulso

Ela explica que, depois de uma denúncia, é feita uma reunião com todos os moradores do prédio. Lá, as duas versões são escutadas: a do assediador, “porque ele também tem direito a falar”, e a da vítima. Então, a assembleia decide qual medida será tomada. 

Um homem foi expulso por tocar uma mulher enquanto ela dormia com a filha, há um mês. “Já vimos homens casados e solteiros fazendo isso".

Há nove anos Erika mora em ocupações e pensões na Argentina, no Uruguai, na Venezuela e no Equador. Diz ter sofrido assédio diversas vezes. “Sou uma mulher que viaja, então muitos homens pensam que, por isso, passo necessidade, que sou vulnerável. E não é assim. Eu trabalho pelo meu, sou independente".

"Tem casa demais sem gente e gente demais sem casa"

Carine Wallauer/UOL
Erika, moradora do nono andar do Ouvidor 63 Imagem: Carine Wallauer/UOL

"Lamentavelmente, estamos num mundo muito desigual. Como se diz, há muita casa sem gente e muita gente se casa", diz Erika, misturando palavras em português e espanhol.

Em junho de 2014, um mês depois da ocupação, o Ouvidor 63 recebeu uma notificação de reintegração de posse. De lá pra cá, o Governo do Estado, que não utiliza o edifício desde a década de 1980, tentou leiloá-lo três vezes. Não conseguiu por falta de interessados.

Por causa do trauma pelo desabamento do prédio no Paissandu, os moradores acreditam que, passando por melhorias e manutenções, o Ouvidor poderia ser cedido a seus ocupantes. Eles estão esperançosos.

Pinturas, desenhos e intervenções fazem do prédio uma espécie de supergaleria de arte. Além das paredes, as portas dos elevadores (que não funcionam), os degraus das escadas e as janelas também servem de telas para obras. “Aqui se faz arte, se vive e se sobrevive dela”, diz Erika. 

A ocupa das sete mulheres é uma história em construção.

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