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Política

Ana Amélia mostra os dentes. E um pouquinho do coração

Foto: Sérgio Lima/Folhapress
Senadora Ana Amélia Imagem: Foto: Sérgio Lima/Folhapress

Juliana Linhares

Da Universa, em Brasília

25/04/2018 10h34

A senadora Ana Amélia Lemos, do PP do Rio Grande do Sul é, para a ala petista da política, o que há de mais reacionário no Congresso. Nos últimos dias, a gaúcha de 73 anos deu, se não motivo, gasolina para essa tese. Elogiou ataques violentos contra apoiadores do ex-presidente Lula na região Sul do país e, porque Gleisi Hoffmann, presidente do PT, deu uma entrevista à TV árabe Al Jazeera defendendo Lula, disse: “Que essa exortação não tenha sido para convocar o Exército Islâmico a vir ao Brasil proteger o PT”.

Gleisi e Ana Amélia, aliás, andam se engalfinhando no Senado. “Ela parou de me cumprimentar”, diz Ana, que, de outro modo, informa ter uma boa relação com Lindberg Farias, também senador pelo PT, a quem ela já chamou de “Lindinho”. A PPbista diz que teve o nome cogitado para ser vice nas chapas presidenciais de Geraldo Alckmin e Jair Bolsonaro e que declinou porque quer “modestamente”, se “submeter de novo à apreciação dos meus eleitores do Rio Grande do Sul”, referindo-se à reeleição, em 2019.

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Umas das únicas mulheres do Senado, ela é a favor da punição a mulheres que fazem aborto fora das possibilidades legais previstas na Constituição, fala que só sentiu machismo uma vez no Congresso – “Com Renan Calheiros; e disse que ele era um coronel que queria calar as mulheres no Senado” – e que não usa saia para trabalhar porque, quando era jornalista, na época da ditadura, a calça era proibida. “Quando vou de vestido ao Senado é um happening”.

Ana Amélia é uma mulher bonita. Do rosto, cuida com nada de sol, tudo de cremes e picadinhas regulamentares na dermatologista. No dia desta entrevista, seu café da manhã, almoço e jantar foi suco verde, por causa dos excessos do domingo anterior. A respeito de excessos, acha que não os cometeu, ao ser uma das mais ativas opositoras do governo Dilma. E quanto a Lula? “Gostaria que ele pudesse concorrer às eleições. Para perder nas urnas”.

Universa: Por que continuar em um partido com tantas acusações de corrupção?
Ana Amélia Lemos: Partido político é como uma família. Qual é a família que não tem uma ovelha negra? Quantas famílias têm um menino ou uma menina com problema de droga ou de disfunção comportamental. O nome partido já diz, é uma coisa partida. No Brasil, hoje, não há partido sem problema.

O PP tem muito problema. Quase R$2 bilhões do partido foram bloqueados pela justiça no rastro das investigações da Lava a Jato.
Mas eu preciso dizer algo: O PP no Rio Grande do Sul difere do seu comando nacional. No meu Estado, o PP tem o maior número de prefeitos, vices e vereadores. E, no âmbito do Petrolão e do Mensalão, houve referência a alguns deles, mas todas elas foram arquivadas pela Polícia Federal e pelo Supremo Tribunal Federal. Eu não tenho compromisso com o erro. Cada um tem que pagar pelo que faz. Claro, desde que concedido um amplo direito de defesa. Também vou continuar no PP porque o Rio Grande do Sul tem dificuldade de aceitar quem muda de partido. Quando eu assinei a ficha no partido, sabia com quem estava assinando. A questão é que não estamos tratando de anjos, que são puros, mas de seres humanos.

A senhora deu duas declarações agressivas e, por alguns, consideradas ainda equivocadas, contra o PT, recentemente. "Atirar ovos, levantar o relho, levantar o rebenque para mostrar o Rio Grande”, disse, defendendo as agressões contra opositores do ex-presidente Lula no Sul do país, e “Espero que não seja um pedido para que o exército islâmico venha atuar aqui”, criticando uma entrevista que a presidente do PT Gleisi Hoffmann deu à TV Al Jazeera. Não se arrepende?
Não me arrependo. E não foram agressivas. Veja, é como num estádio de futebol. Nesse ambiente, somos movidos pela emoção. Além disso, quando eu falei sobre as agressões no Sul, eu estava perante a dois mil convencionados do meu partido. E eu precisava dizer pra eles quem é a senadora que eles ajudaram a eleger. E que, de lá, iam sair com a bandeira da minha reeleição. E é preciso lembrar que um empresário que tinha levado uma máquina agrícola para protestar havia sido preso. Ai, quando o Lula foi preso, os apoiadores dele trancaram as estradas. Tinha gente que estava indo fazer quimioterapia e não pode se tratar. E nada aconteceu com eles. 

Há análises de que a senhora está radicalizando suas falas, e num sentido de extrema direita, como faz por exemplo Jair Bolsonaro, para amealhar votos para sua reeleição. Isso é real?
Seria irresponsável fazer isso. Não preciso disso. Eu estou apenas reagindo a provocações. Como se diz no Rio Grande: “Não pisa no meu poncho”.

Existe uma disputa pessoal, talvez, inclusive, no âmbito feminino, com a senadora Gleisi Hoffman?
Não. Tivemos outros embates, é verdade, mas não na seara pessoal. No ano passado, ela disse que o Senado não tinha condição moral de julgar Dilma Rousseff. Eu respondi, falando que não admitia esse tipo de acusação. Que eu não tinha a polícia nem a Justiça atrás de mim. Ela também afirmou que nós, que apoiávamos a PEC dos Gastos, iríamos lesar os mais pobres. Ora, quem lesou os mais pobres foi a gestão irresponsável e perdulária do partido que deixou o governo. (Na ocasião, Gleisi defendeu que os senadores reduzissem suas despesas em 10%. Na tribuna, Ana Amélia, utilizando-se de informações do Senado, disse ter gasto em 2015 R$ 146 mil, a petista, por sua vez, R$ 369 mil, e o PT, em média, R$ 350 mil). A partir daí ela parou de me cumprimentar. Ontem, falando com uma pessoa sobre esses eventos com a Gleisi, ela disse: “Olha, esse é o nome que o PT vai ter para a presidência da República”. Faz sentido, né?

Houve também desentendimentos seus com o senador Lindberg Farias, a quem já chamou de “Lindinho”. 
Com ele é diferente, nós conversamos, temos uma forma de respeito. Às vezes, ele diz: “Ah, senadora, a senhora votou no Aécio”. E eu respondo: “É verdade, mas você estava com o Temer em 2010”. E, sobre o Aécio, é o seguinte: votei nele, todo mundo sabe, mas, fui a primeira senadora a subir na tribuna para dizer que a decisão do Supremo de afastar o Aécio do Senado devia ser preservada. A régua moral é a mesma pra Dilma, pro Aécio e pro Lula. Agora, não me chamem de golpista e queiram que eu fique quietinha, como uma figura de presépio.

A senhora é de direita; correto?
O mundo não tem mais essa divisão de direita e esquerda. Ele se divide entre rápidos e lerdos. Parar no tempo e querer a utopia, ninguém vai conseguir. Até a Coreia do Norte hoje já está falando com os Estados Unidos e nós ficamos aqui num discurso atrasado.  Eu não sou de lado nenhum, sou Ana Amélia, que defende a constituição, os direitos, a democracia e transito nesses meios.

É contra o aborto?
Sou a favor do aborto nas três situações previstas na Constituição, quando há risco para a mãe, se o bebê é anencéfilo e se houve estupro. Em outros, não.

O que deve acontecer às mulheres que fazem aborto, na sua visão?
Não acho que seja o caso de prisão, mas é um crime, é um assassinato. Elas devem ter um outro grau de penalidade. Deveriam ter de fazer trabalho social com outras grávidas para a prevenção do aborto.  Deveria tentar demover outras grávidas de fazer o que ela fez.

A senhora já fez um aborto?
Não. Tomei a decisão com o meu marido de não ter filhos. Eu trabalhava com muita intensidade e ele tinha três filhas do primeiro casamento. Fui a filha mais velha de nove irmãos e exerci a maternidade, com eles, desde os nove anos.

A discussão atual sobre o feminicídio tem, na sua opinião, um tamanho adequado? 
Precisamos da grande discussão que esse assunto tem suscitado. Mas deixamos desguarnecidos, por exemplo, os deficientes e outras pessoas indefesas que são sequestradas e abusadas. A mulher é, geralmente, uma adulta. O Brasil é um país muito violento com as mulheres. Por isso, inclusive, que foi criada a Lei Maria da Penha. Estamos com um projeto na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, para aprimorar as medidas protetivas previstas nessa lei. Por ela, o “delegado de polícia” pode instituir de emergência medidas restritivas de aproximação do agressor à vítima. Nossa sugestão é a substituição por a “autoridade policial”. Pode ser uma policial militar a executar aquela medida, por exemplo.

Qual é a coisa mais irritante de ser mulher numa Casa em que quase 90% dos senadores são homens?
Não acho nada irritante. Só passei por um episódio de machismo; com o senador Renan Calheiros. Éramos 20 senadores falando na tribuna a favor da prisão em segunda instância. O senador entrou no plenário e nos chamou de “vivandeiras alvoroçadas”. Na minha hora de falar, eu disse que ele tinha feito uma chicana constitucional, em 2016, quando ajudou a manter os direitos políticos de Dilma, depois do impedimento dela. Ele começou a vociferar e me interrompia a toda hora. Então, eu reagi: “Esse coronel quer calar a boca das mulheres no Senado”.

Por que não usa saias para trabalhar? 
Terninhos são elegantes e mais práticos. Há vinte anos, faço os meus com a mesma costureira, a Hildney, aqui de Brasília. Super barato; um blaser são 300 reais. Mas tem outra razão. Fui jornalista por quase 40 anos. No primeiro jornal que trabalhei, o Jornal do Comércio, era proibido mulher usar calça comprida. No regime militar, em várias coberturas que fiz, tinha que ir de saia. Acho que usar calça, agora, é inconscientemente, uma reação a isso. É engraçado, porque às vezes venho trabalhar com um vestido e é “um happening”. Fui para Taiwan há pouco. Comprei pedaços de seda lá e pedi para a Hildney fazer saias deles. Agora, vou aparecer. 

A senhora é uma mulher bonita. O que faz no rosto e no corpo?
A genética ajuda. Minha mãe tinha uma pele boa. Mas eu também não me exponho ao sol. Não durmo sem tirar maquiagem. Fiz botox nas rugas de expressão e tenho dermatologista há 30 mil anos. A cada seis meses vou para um spa. E, hoje, meu café da manhã, almoço e jantar serão suco verde, por causa dos excessos na casa de amigos no fim de semana.

Qual foi a última vez que a senhora chorou?
Foi há poucos dias, porque sonhei com o meu marido. Fui casada por quase 40 anos e ele morreu em 2011; 27 dias depois que eu virei senadora. Nesse tempo todo, eu sonhava com ele, mas não via o rosto dele. Eu comecei a ver o rosto depois que eu me despedi dele. Há uns três anos, tive um começo de depressão. Era muito dolorida a ausência dele. Ele era meu namorado, meu amante, meu marido, meu cúmplice. Uma psicóloga me disse que eu precisava me despedir dele porque eu continuava de luto. Fui então para um bosque, um lugar que ele adorava, e disse: “Desculpa pelas coisas tristes que eu causei... Obrigada pelas alegrias que você me deu...”  (A senadora começa a chorar).

Como foi o dia da morte dele?
De manhã, ele comprou um vinho chamado Amélia para me servir no jantar. Mandou a cozinheira fazer o prato que eu adorava, cordeiro. Quando eu cheguei em casa, ele tinha tido um uma queda de pressão grave caído no banheiro. Fomos para o hospital. Lá, ele teve uma convulsão e precisou colocar um stent. Antes da cirurgia, na UTI, ele pegou minha mão e disse: “Gringa (ele me chamava assim), fica aqui comigo”. Eu fiquei e, um pouco mais tarde, fui pra casa pegar umas roupas. O hospital me ligou dizendo que ele tinha tido um ataque cardíaco e não resistido. Voltei, de madrugada, dirigindo o carro, sozinha... (Ela chora de novo).

No seu gabinete, há fotos da senhora, da época de repórter, entrevistando o Papa João Paulo II e também Fidel Castro; ele, aliás, está com a mão no seu ombro. O que eles disseram?
A melhor história do papa é que eu dei o furo da morte dele. Eu tinha acabado de chegar em Roma, para cobrir a doença dele. Entrei no quarto de hotel, liguei a televisão na RAI, e escutei: “Il Papa è morto”. Na hora, liguei para a RBS (a senadora trabalhou por mais de 30 anos no conglomerado de mídia gaúcho) e entrei no ar com a notícia. Já o Fidel, foi uma entrevista foi difícil. Ele só queria falar do que o interessava. No caso, uma vacinação que acontecia em Cuba. O Fidel era lindo.

A senhora namora?
Não. Mas gostaria. O médico recomendou.

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