menu
Topo

Política

Indígena, Sônia Guajajara quer a copresidência: "Vice é mera composição"

Carine Wallauer/Universa
Pelo PSOL, Sônia Guajajara disputa a vice-presidência em chapa com o coordenador do MTST, Guilherme Boulos Imagem: Carine Wallauer/Universa

Natacha Cortêz

Da Universa

18/04/2018 13h48

Sônia Guajajara é a primeira mulher indígena na história do Brasil a se candidatar ao posto de vice-presidente da República. Ou, como ela acha melhor dizer, “copresidente”. “Vice tem isso de ser uma figura de mera composição. A aliança com Guilherme prima por uma gestão compartilhada”, explica ela, que pelo PSOL forma chapa com Guilherme Boulos, aspirante à presidência.

Tanto Sônia quanto Guilherme são estreantes na política. Ela, liderança no Maranhão dos Guajajaras -- tribo onde nasceu e ficou até os 15, quando foi cursar Ensino Médio em Minas Gerais-- e até dois meses atrás, coordenadora executiva na Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil); ele, coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Tanto Sônia quanto Guilherme lutam por terra. Ela, pela demarcação dos territórios indígenas para 305 povos. Ele, por moradia para mais de 30 mil famílias. “No fim, temos muito em comum”, diz ela.

Veja também

A maranhense, de 43 anos, entrou na vida política filiando-se ao PT no final dos anos 1990 e saiu do partido quando se desencantou com a relação do grupo com a governadora maranhense Roseana Sarney. No PSOL, está há sete anos e, mesmo sem nunca ter tido um cargo eletivo antes, topou a candidatura à vice-presidência, segundo ela, por uma orquestração que envolveu, em particular, a empresária Paula Lavigne

A demarcação de terras indígenas é das pautas principais da chapa Boulos/Guajajara. Esse, aliás, é um assunto que Sônia domina. Por outro lado, nesta entrevista, ela é especialmente vaga no que diz respeito a políticas públicas para mulheres brasileiras e não apresenta um projeto concreto para o problema do aborto no país. 

Sônia pode ser novidade na política, mas não no movimento indígena. Nesse, é quase popstar. Em 2015, em Nova Iorque, representou a Apib no Fórum Permanente para Questões Indígenas da Organização das Nações Unidas (ONU). Um ano depois, carregou a Tocha Olímpica em Imperatriz (MA), cidade onde mais jovem fixou residência, ficou casada por 18 anos e teve três filhos, Luiz, Yaponã e Ywara. No Rock in Rio de 2017, subiu no palco do show de Alicia Keys para discursar em nome do seus. 

Nesta entrevista, a pré-candidata fala das comparações à Marina Silva, "claramente não estamos mais do mesmo lado", de como se deu a aliança com Guilherme Boulos, de suas propostas de governo, PSOL, PT e do machismo que sofreu até chegar aqui: "Dentro do movimento indígena, (...) minha vida inteira fiquei escrevendo ata de reunião. Sempre me olhavam apenas como a secretária".

Universa: Em vez de vice-presidência, você pleiteia o que chama de copresidência. Por quê? 
Sônia: O vice tende a ser uma mera composição. A aliança com Guilherme prima por uma gestão compartilhada.  A diferença é que tomaríamos as decisões juntos. A copresidência não é uma novidade no PSOL. No Rio de Janeiro, na candidatura [para o Governo do Estado] do Marcelo Freixo com a Luciana Boiteux já foi assim. 

Como surgiu a ideia de uma campanha presidencial?
Na verdade, o que nós do movimento indígena estávamos pleiteando era uma candidatura para o Legislativo. Eu sairia como candidata à deputada federal pelo Rio de Janeiro. Só que então, surgiu a ideia do setor ecossocialista do PSOL de lançar a minha pré-candidatura à presidência. Para mim, inicialmente, foi bem surpreendente. Já tinham outros quatro pré-candidatos no partido, Plínio de Arruda Sampaio, Nildo Ouriques, Hamilton Ferreira e o Boulos, que ainda não estava lançado. 

Carine Wallauer/Universa
Imagem: Carine Wallauer/Universa

Com Guilherme Boulos sendo o escolhido, como aconteceu a formação da chapa? Teve um convite a você?
As pessoas já estavam comentando muito sobre essa possibilidade. Então, fui consultá-lo e ele falou: ‘você topa? Porque se você topar, eu topo’. Temos muito em comum: ele, liderança que vem da luta por moradia urbana, e eu, liderança que vem da luta por território. 

Qual foi o papel da empresária Paula Lavigne na concepção da chapa?
Ela entrou com muita força na construção da aliança, articulando, conversando. A Paula é a ativista das ativistas. 

Ela colocou dinheiro na campanha?
Não. 

Paula [Lavigne] é a ativista das ativistas.

A empresa da Paula produziu um evento da pré-candidatura de vocês. O Caetano Veloso tocou na ocasião. Isso não é colocar dinheiro?
Não, é apoio. Não é de hoje que o movimento indígena vem avançando na construção de alianças. Há algum tempo a gente entendeu que a nossa luta não pode ser isolada. E isso inclui artistas, intelectuais, ambientalistas e ativistas de direitos humanos. Começamos uma relação com a Paula, na campanha #342Amazônia, em 2017, quando o Congresso tentou votar a extinção da Renca [Reserva Nacional de Cobre e seus Associados], reserva mineral no Pará. Ela atuava junto com os coletivos de jornalismo e cultura, Mídia Ninja e Fora do Eixo. 

Qual são as principais metas da sua copresidência? 
A demarcação das terras indígenas é pauta prioritária. A outra é o modelo de desenvolvimento econômico e ambiental que é muito agressivo e depredador. O combate aos efeitos das mudanças climáticas é historicamente uma pauta indígena e também é uma proposta da chapa. Os territórios, quando demarcados, contribuem para atenuar esses efeitos. 

 Somos hoje 305 povos e 264 línguas, mas é muito comum a gente ser tratado como 'os índios do Brasil'. 

Ao jornal Folha de S.Paulo, em fevereiro, você disse que nem o PSOL dá a devida importância para os indígenas. Isso tem mudado com sua candidatura?
Se não fosse a nossa presença na chapa presidencial, a causa indígena ainda seria secundária para o partido. Por mais que o PSOL tenha essa aproximação com a diversidade, quase ninguém no Brasil, seja partido ou órgão público, tem o conhecimento devido sobre a pauta indígena. Somos hoje 305 povos e 264 línguas, mas é muito comum a gente ser tratado como 'os índios do Brasil'. 

No que diz respeito às mulheres brasileiras, qual é a principal pauta da chapa?
Tu falas as brasileiras como um todo?

Sim.
O combate à violência contra as mulheres. Ela é geral, e está crescente o número de mulheres sendo mortas por violência doméstica. 

Você não citou a descriminalização do aborto. Essa também é uma pauta?
Certeza, né? Não tem como fugir mais desses temas que são polêmicos. Não que seja uma posição de ser a favor ou contra, mas uma posição de resolver um fato que já é real. O aborto existe e quem mais sofre ou morre com a ilegalidade são as mulheres pobres. 

Pessoalmente, você é a favor da descriminalização?
Acho que é uma necessidade. 

Marina Silva, quando perguntada como resolver o problema de saúde pública do aborto, sai pela tangente e diz que faria um plebiscito com a população. O que você acha desse posicionamento?
Pode até ser uma forma de resolver... 

Carine Wallauer/Universa
Imagem: Carine Wallauer/Universa

Como mulher indígena: o que te falta do Estado brasileiro? Onde ele mais falha com as mulheres indígenas?
A não-demarcação dos territórios é um desrespeito enorme porque não reconhece os diversos modos de vida. As mulheres são as que mais sofrem com a falta de território, porque é com ele que elas podem garantir a vida de seus filhos. Na aldeia, as mulheres são as principais responsáveis pelas crianças. Se não chega política pública para os povos indígenas, imagina para as mulheres.

Assim como nas cidades, as mulheres indígenas também sofrem com o machismo?
Como assim mulher sofre?

Vocês são discriminadas por serem mulheres? Pode dar um dar um exemplo --se é que isso ocorre?
A gente precisou superar o rompimento da barreira para a participação da mulher indígena nos espaços de decisão. Eu não participava de reuniões ou tentava concorrer a esses espaços porque achava que eles eram dos homens. Como consolo, nos presenteavam com a vaga de secretária. Sempre olharam pra gente como a mulher que vai escrever, registrar, fazer as atas e tal. Minha vida inteira fiquei escrevendo ata de reunião. 

Eu não participava de reuniões ou tentava concorrer a esses espaços [de poder] porque achava que eles eram dos homens.

Você tem sentido preconceito por ser uma indígena pleiteando uma vaga na presidência?
Claro! Nas redes sociais é muito comum eu ser atacada das formas mais agressivas possíveis. Prefiro nem dizer os xingamentos, para não ecoá-los.

E entre os outros candidatos?
Eles se encantam, se mostram surpresos, alguns acham exótico. Mas isso também é preconceito. Quando me reduzem à índia folclórica da escola, se recusam a ver que eu também sou uma política, como eles.

O que acha de ser chamada de “A nova Marina”? 
[Risos] Não concordo nem gosto. Cada uma tem sua história. Essa comparação é bem desnecessária. Mas isso não me impede de reconhecer todo processo de luta da Marina, toda a sua defesa ao meio ambiente. O complicado é comparar neste momento, inclusive pelas novas alianças que ela vem travando. A partir de um momento, parece que ela escolheu um lado. O lado do agronegócio, o lado da aliança com Aécio Neves. Hoje, eu e Marina claramente não estamos mais do mesmo lado.

Parece que ela escolheu um lado. O lado do agronegócio, da aliança com Aécio Neves. Hoje, eu e Marina claramente não estamos mais do mesmo lado.

Você votou nela em eleições anteriores?
Sinceramente, eu não me lembro se já votei na Marina.

Acredita que os eleitores dela podem mudar de ideia e votar na sua chapa?
É possível. Se não todos, uma boa parte. 

Antes de se filiar ao PSOL, em 2011, você era do PT. O que a fez sair do partido? 
Saí junto com muita gente que estava insatisfeita com a gestão do partido. No Maranhão, especialmente, foi formada uma aliança com o grupo Sarney. A gente não tinha uma relação boa com a Roseana [Sarney], nunca teve. Ela apoia os ruralistas e isso é inconciliável com a causa indígena. 

Como uma ex-filiada do PT, por que você estava ao lado do ex-presidente Lula, na ocasião da sua prisão em SBC?
Porque o Lula não poder se candidatar é enterrar de vez o resto de democracia que ainda existe. Acho que é a defesa de todos nós que lutamos por uma democracia de verdade.

Você já sofreu ameaça por denunciar crimes ambientais?
Não, nunca fui ameaçada, de forma alguma.

Nem teve medo?
Apenas um medinho, pela conjuntura política em que a gente está. Existe um ataque contra as pessoas que estão fazendo a luta por justiça e direitos humanos. A execução da Marielle não pode ser considerada apenas violência. Foi um crime político e um recado para todos nós que estamos nesse front.

Carine Wallauer/Universa
Imagem: Carine Wallauer/Universa

O que afasta os indígenas da política?
Tem três coisas ajudam nessa resposta. O coeficiente eleitoral: são poucos os estados que têm votos indígenas suficientes para eleger um deputado. Depois, a falta de oportunidades dentro dos partidos. Eles não acolhem as candidaturas indígenas como prioridade. Por último: as campanhas são muito caras e os votos são todos comprados. A bancada ruralista tem essa prática. Isso explica o crescimento dela no Congresso.

Você colocou um cocar em Caetano Veloso, durante o evento em que a chapa Boulos/Guajajara foi lançada. Qual é a diferença dele cantar com o cocar e eu usá-lo, por exemplo, no Carnaval? Quando seria apropriação cultural?
Tudo bem a pessoa usar um cocar para apoiar uma causa. Agora, usar como uma mera fantasia, sem nem saber o sentido daquele cocar, isso sim é apropriação; e desrespeito.

Se eleita, pretende usar o cocar em exercício?
Sempre que eu achar preciso.

Quando seria preciso, por exemplo?
Na posse. Um cocar grande, bem lindo. 

Facebook Messenger

Receba seu horóscopo diário da Universa. É grátis!