Violência contra a mulher

Como o assassinato de Marielle afeta a atuação dessas mulheres na política

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Imagem: Reprodução/ Instagram

Helena Bertho e Natacha Cortêz

da Universa

16/03/2018 11h14

Desmilitarização da polícia, combate ao racismo e à violência contra a mulher, direitos das pessoas LGBT e maior representatividade na política eram algumas das bandeiras levantadas pela vereadora Marielle Franco (PSOL), 38, assassinada na quarta-feira (15) no Rio de Janeiro. As circunstâncias indicam homicídio premeditado. Marielle havia denunciado ,em suas redes sociais, os abusos do 41º BPM (Batalhão da Polícia Militar) de Acari, no sábado (9), e era declaradamente crítica à intervenção federal na capital fluminense.

Além do mais, a vereadora tinha como marca de seu mandato uma voz combativa pelas pautas nas quais acreditava. Em entrevista à BBC, o deputado federal Chico Alencar (PSOL) disse que Marielle era corajosa e "incomodava pequenas e grandes máfias", sem especificar quais.

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Como Marielle, outras mulheres eleitas mantêm as bandeiras da defesa dos direitos humanos em suas agendas políticas e, muitas vezes, acabam se arriscando por isso. A Universa procurou vereadoras e deputadas para saber como a morte da companheira impacta suas atuações políticas e, ainda, se têm medo de serem silenciadas da mesma forma.

Eduardo Anizelli/Folhapress
Imagem: Eduardo Anizelli/Folhapress

Luiza Erundina (PSOL), 84, deputada federal

"A morte de Marielle pede uma reedição de nossas lutas. A história se repete diante de nossas fuças –e ela é cruel. Tenho mais de 40 anos de luta política e sei que o que vivemos agora é uma continuidade de tempos de repressão. Quando soube da notícia da execução da companheira, foi como se eu estivesse morrendo junto, mas, ao mesmo tempo, sem poder morrer junto. Espero que do sangue derramado de Marielle tiremos uma semente de renovação, para uma luta ainda mais vigorosa, com um número maior de mulheres. Que nosso ‘luto’ seja verbo. Marielle tinha origem popular, era mulher do povo, negra, feminista. É uma perda enorme, sobretudo pela sua militância e a promessa que representava como liderança política. Marielle era luta pela democracia, pelos direitos humanos, contra o preconceito de raça e gênero. Ela foi eliminada, não tenho dúvidas.

Temos que lutar contra a tentação do medo

Se tenho medo? Ele não me toca. Já passei da idade de ter medo. Tive amigos desaparecidos na ditadura que até hoje desconheço o paradeiro dos restos mortais. Temos de lutar contra a tentação do medo. Não podemos ser dobrados por ele nem desistir da luta. Sou uma mulher que tem esperanças. Não vou dar sossego até que cheguem nos verdadeiros criminosos desse assassinato.” 

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Áurea Carolina, 34, vereadora de Belo Horizonte

"Todas nós morremos de certa forma. Coletivamente, nós morremos, porque Marielle encarnava essas muitas formas de estar no mundo erguendo a voz contra a injustiça e a violência. Mas a Marielle permanece em nós, já como uma força ancestral, inspiradora de encorajamento, de jamais retroceder.

Por isso não tenho medo, não tenho mesmo. Sei que a nossa luta nos transcende, nos atravessa, é muito maior do que nós. E nós nos ampararemos umas nas outras. Porque não é possível contar com esse Estado, que é genocida, racista, que lida conosco como alvos e produz todos os dias um massacre sobre nós.

Nós nos ampararemos umas nas outras

Mas ocupar a política institucional significa também pressionar esse Estado para que deixe de ser essa máquina de destruição genocida. É por isso que vou resistir na Câmara Municipal de Belo Horizonte e vou continuar construindo com tantas outras mulheres, para que a gente ocupe os espaços de poder. Sou pré-candidata à deputada federal, porque acredito em uma perspectiva feminista de democracia. A democracia será feminista ou não ser, será antirracista ou não será".

Vinicius Reis/Divulgação
Imagem: Vinicius Reis/Divulgação

Manuela D´Ávila (PCdoB), 36, deputada estadual do Rio Grande do Sul

"Acredito que todas as brasileiras e brasileiros que lutam por justiça sentem o mesmo medo e o mesmo senso de responsabilidade em seguir lutando."

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Maria do Rosário (PT), 51, deputada federal

"Todas as mulheres e pessoas que atuam com direitos humanos têm medo sim, não tem como dizer que não. A questão é que também não se tem escolha, porque tem uma consciência gritando que é preciso seguir. Provavelmente, ela também tinha medo. E fico pensando: o que essa mulher faria se fosse qualquer uma de nós? E vejo que ela seguiria. Tenho certeza de que ela seguiria lutando.

O que aconteceu matou um pouco a esperança na política

O que eu lamento é que uma jovem que poderia ocupar a cena pública nacional de forma muito representativa e faria total diferença, morreu. Por toda sua luta, por ser da favela, negra, mulher, ela representava uma ação política muito renovada, muito corajosa. Isso que aconteceu matou um pouco a esperança na política e é isso que precisamos reverter. Agora é a política pela dignidade humana e pela paz, ou a barbárie". 

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Sâmia Bomfim (PSOL), 28, vereadora de São Paulo, SP

"Esse assassinato impacta minha atuação política e meu mandato de muitas formas. Primeiro porque aumenta a minha responsabilidade com boa parte das bandeiras que Marielle levantava, e que também são minhas: justiça social, direitos das mulheres, combate ao genocídio da população preta, desmilitarização da polícia e  participação popular, por exemplo.

Sua perda aumenta a responsabilidade de fortalecermos mais mulheres, especialmente as negras

Penso que temos de fortalecer cada vez mais essas pautas em memória e respeito a ela. Não podemos esquecer que justamente por defender essas causas é que ela foi assassinada. A sua perda ainda aumenta a responsabilidade de fortalecermos mais mulheres, especialmente as negras. Falar que elas são as que mais morrem e sofrem com os ataques da polícia e do governo não é uma abstração. A execução de Marielle é prova disso. O principal recado dos executores de Marielle é: 'Calem-se, abaixem suas vozes'. Sim, dá medo, mas o medo não pode nos paralisar." 

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Fernanda Miranda (PSOL), 36, vereadora de Pelotas, RS

"Quando entrei como vereadora, sabia que tentariam me impedir de falar e atuar. Isso é um fato para todos nós que militamos e, principalmente, para as mulheres. Óbvio que a morte da Marielle é a tentativa final de calar, como se fosse dito 'aquilo que incomoda, vai morrer'. A gente acredita que foi uma execução. É claro que tenho medo, todas nós temos. Não é fácil colocar tua vida e tua história em risco. Mas a gente não pode deixar que esse medo nos cale. A Marielle morreu, mas os ideais dela continuam vivos e vão se multiplicar. A tentativa de nos calar vai ter o efeito contrário".

A tentativa de nos calar vai ter o efeito contrário. 

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Natália Bonavides (PT), 29, vereadora de Natal, RN 

“A militância vai ter de subir de patamar, temos que nos dedicar ainda mais e sermos ainda mais combativas para honrar a história de Marielle. Não podemos deixar de dizer que sua execução é um recado explícito para quem se posiciona na linha de frente contra o extermínio da juventude negra; para quem se posiciona contra a intervenção militar no Rio de Janeiro e consequentemente contra o governo Temer e o golpe que teve início com a retirada de Dilma; para quem se posiciona em defesa dos direitos humanos.

É um recado explícito para quem se posiciona

O único medo de que eu poderia falar agora é de que esse episódio leve ao afastamento da política de pessoas que querem lutar por um mundo melhor. Mas acredito que não, que com o exemplo de vida de Marielle nos fortaleceremos. Temos de sair mais fortes, contar e fazer valer sua história. Medo de lutar, nunca!”.

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Fernanda Melchionna (PSOL), 34, vereadora de Porto Alegre, RS

"Nós temos uma dupla responsabilidade agora. A primeira é exigir a identificação e a prisão dos executores e mandantes de crimes contra ela. A segunda é redobrar nossa capacidade de luta e resistência. Se acharam que ao matar Marielle iam calar as denúncias contra as violações, nós faremos as denúncias com mais força ainda. Nosso desafio é ecoar cada vez mais forte a voz da Marielle, fazendo com que a vida e a luta dela não tenham sido em vão. E eu não tenho medo, inclusive, acho que não é a hora de ter medo". 

Não é a hora de ter medo

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