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Conheça a brasileira que ajuda mulheres do mundo todo a abortar

Carine Wallauer/ UOL
Letícia Zenevich, advogada brasileira que trabalha para ONG holandesa que ajuda mulheres do mundo todo a realizarem abortos seguros Imagem: Carine Wallauer/ UOL

Helena Bertho

do UOL

11/12/2017 04h00

"Eu estou salvando a vida de mulheres". É como a advogada brasileira Letícia Zenevich, 28, define o que faz. Ela trabalha para as ONGs Women  on  Waves (Mulheres nas Ondas), que faz campanhas de barco para levar aborto a países onde ele é proibido, e a Women on Web (Mulheres na Rede), que fornece informações e medicamentos para mulheres que querem abortar.

Talvez a mais conhecida atividade da ONG seja o aborto no mar: em águas internacionais, vale a lei do país de origem da embarcação. Como na Holanda o aborto é legal, membros da organização recolhem a mulher que quer abortar em seu país de origem e é impedida, a leva para águas internacionais, interrompe a gestação e a leva de volta para casa.

Formada em direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e com pós-graduação em direito internacional na França, ela começou nas ONGs há quase quatro anos, inicialmente, respondendo e-mails de mulheres. Agora, ela vive na Holanda. Ainda responde e-mails, mas ajuda a planejar e realizar campanhas, faz articulações internacionais e acompanha as viagens de barco. Em entrevista ao UOL, ela conta sobre como as ONGs atendem mulheres do mundo todo, e como o Brasil se encaixa nesse cenário. Letícia conversou com a reportagem no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, no dia 6 de dezembro. Leia a entrevista. 

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UOL: Como você conheceu o Women on Web e o Women on Waves?

Letícia Zenevich: No meu primeiro ano da faculdade, achei que estava grávida. Eu estava há dois dias chorando e não tinha solução no Brasil. Aí, encontrei esse site. E essas mulheres, que eu não sabia quem eram, podiam me ajudar. No fim, eu não estava grávida, mas fiquei fascinada por essa ajuda. Alguns anos depois, quando estava para ir para Paris, consegui começar a trabalhar com elas, respondendo e-mails e dando informações.

Como foi começar esse trabalho?

Até então eu já tinha trabalhado com várias outras questões de gênero (ela atuou com refugiados LGBT em Nova York, para o governo americano, e em Paris, para a ONU), mas aborto, não. Aí a caixa de Pandora se abriu. Quando a gente começa a receber as mensagens dessas mulheres, é muito intenso. São do mundo inteiro. Nós trabalhamos em 17 idiomas. A gente está vendo as experiências de meninas começando a vida sexual, de mulheres que já têm filhos, de mulheres que querem ter filhos, mas não é o momento, até questões bem graves de violência sexual. Eu respondo entre 50 e 60 e-mails por dia, então, são muitas histórias. Quando terminei a pós, em 2016, a diretora da ONG estava pensando em retomar as campanhas de barco e precisava de mais gente, assim surgiu a oportunidade de eu me dedicar integralmente à ONG, e fui para Amsterdam.

Em média, quantas mulheres procuram vocês? Quantos abortos vocês já ajudaram a fazer?

Por mês, entre 10 e 12 mil e-mails. A gente não divulga os números exatos de aborto, para os governos não localizarem. Mas, até hoje, já ajudamos 60 mil mulheres.

Vocês enviam o medicamento para quantos países?

Ele é enviado por uma ONG parceira, que está na Índia, para o mundo inteiro.

Mesmo para onde é legal?

Depende do acesso efetivo. A gente sempre quer que a mulher tenha o melhor tratamento possível. Em alguns países, isso significa o medicamento, em outros, ir a uma clínica. Por exemplo, na Turquia, o aborto é legal, mas só um hospital oferece, então a gente envia ajuda. Já na França tem o planejamento familiar, então encaminhamos as mulheres para fazê-lo.

E para o Brasil?

Desde meados de 2012, a Anvisa começou a reter nossos pacotes de maneira sistemática. Isso é uma violação. As mulheres têm direito de receber esses medicamentos, que estão na lista de medicamentos essenciais da Organização Mundial da Saúde (OMS). A mulher receber o remédio, com uma prescrição, para uso individual. É completamente legal. Depois, se ela colocar na boca e se estiver grávida, ela pode ou não estar cometendo um crime. Mas isso já não é com a ONG.

Carine Wallauer/ UOL
"As mulheres brasileiras estão desesperadas. Só em 2017 a gente trocou 30 mil e-mails com brasileiras". Imagem: Carine Wallauer/ UOL

Então, desde 2012 vocês não conseguem mais fazer chegar os remédios aqui no Brasil?

Não. E as mulheres brasileiras estão desesperadas. Só em 2017, a gente trocou 30 mil e-mails com brasileiras. São 40 mil mulheres do país acessando nossos sites por semana. É uma demanda muito forte e as mulheres estão cada vez mais desesperadas. Tanto que nós temos um protocolo de atendimento de suicídio criado especialmente para o Brasil. Todas dizem que vão se matar.

Qual o perfil da brasileira que procura vocês?

É o segundo país em número de solicitação de informações para a WoW. Elas são mulheres de todo tipo. Tem de todas as religiões. 16% das consultas foram feitas por crianças e adolescentes, dos 13 aos 17 anos. 60% por jovens adultas, de 18 a 25 anos. 14% entre 26 e 39 anos e só 1% acima disso.

Tem vítimas de abuso, que, teoricamente, têm direito a aborto seguro, entre elas?

É um número difícil, porque elas não revelam imediatamente. Mas a gente tem muitos casos de mulheres que falam que foram abusadas. Só que elas não sabem que têm direito, o Ministério da Saúde não divulga quais hospitais fazem o aborto legal.

E sobre o trabalho com o barco, você já foi alguma vez?

Em fevereiro, a gente foi para a Guatemala. Lá, fomos paradas por ordem do presidente, pelo exército. Não pudemos falar e a tripulação foi presa no píer do porto, sem nenhum mandato. Mesmo assim, foi um sucesso. As ativistas de lá já tinham nos dito que não se podia falar a palavra aborto, e a campanha realmente estourou. Em todos os canais de TV, jornais, as pessoas estavam discutindo a nossa chegada. Um país onde nunca tinha se falado sobre aborto, de repente os jornalistas perguntavam na rua o que as mulheres achavam disso, e muitas diziam que deveriam descriminalizá-lo. 

Divulgação
Na Guatemala, a tripulação do barco da Women on Waves ficou detida no pier Imagem: Divulgação

De lá vocês foram para onde?

Par ao México. Lá o aborto é legal na Cidade do México, mas não nos outros estados. Então fomos direto para Guerreiro, um estado marcado pelo narcotráfico. Nossa estratégia foi diferente. Antes de qualquer anúncio, fizemos contato com ONGs parceiras e navegamos para águas internacionais com mulheres que fizeram o aborto. Então nosso primeiro comunicado para a imprensa foi: o barco está aqui, já navegou e vai navegar de novo.

Vocês fizeram quantos abortos lá?

Não podemos divulgar, mas foram poucos, um número simbólico. As campanhas da Women on Waves são mais para chamar atenção para as consequências de um aborto inseguro e lembrar as mulheres que, se a lei está violando seus direitos, elas também podem violar essa lei. 

Você tem questões éticas em relação ao seu trabalho?

Estou muito segura de que estou salvando vidas de mulheres. É o que elas dizem nos e-mails de agradecimento. O que as pesquisas mostram é: se uma mulher que quer fazer um aborto, ela faz. O Estado pode assegurar que ele seja seguro ou inseguro. Independentemente da religião, as mulheres sabem decidir por elas mesmas, e poder ajudar nessa decisão de uma maneira segura e autônoma me realiza muito.

Qual é a importância do trabalho das ONGs, na sua opinião?

É um trabalho de vida ou morte, que está salvando a vida de muitas mulheres, às vezes com remédios, às vezes só com informação. A informação é crucial. E as duas ONGs têm trabalhos bem complementares: uma está lidando com o aspecto de direitos humanos do aborto, que deve ser legalizado, e a outra está lidando com a urgência médica. Se o Congresso não faz nada, vai ser a mulher que vai fazer, e é melhor que seja seguro. Aqui, no Brasil, a gente vê a importância disso. Enquanto estão rifando os direitos das mulheres no Congresso, é bom saber que elas podem se organizar. E, qualquer que seja a legislação, as mulheres darão um jeito de fazer com que os direitos humanos delas sejam cumpridos. A gente está lá para ajudar nisso. O processo de descriminalização tende a acontecer. Em qualquer país democrático, já aconteceu. E tem que ser efetivo e acessível.

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