menu
Topo

Política


Jean Wyllys conta planos na Europa após abandonar cargo: "Não posso voltar"

Reprodução/Instagram
Jean Wyllys deve ficar na Europa por algum tempo Imagem: Reprodução/Instagram

Nina Lemos

Colaboração para Universa

18/02/2019 16h38

No dia 24 de janeiro, quando a notícia de que Jean Wyllys abandonaria seu mandato no Brasil foi divulgada pela Folha de S.Paulo e logo se espalhou causando comoção no país, Jean estava em um quarto de um hostel em Madri, na Espanha. David Miranda, seu suplente, assumiu o mandato. 

"Eu estava completamente sozinho. Menina, mas como eu chorava! O meu telefone não parava. A quantidade de mensagens que eu recebi! Foram tantas que ainda não consegui responder nem a metade. Tinham pessoas me questionando, sim. Mas a maioria eram lindas mensagens de apoio. Era uma coisa que nunca poderia esperar! Eu chorava sem parar e não tinha um amigo na cidade."

Jean chorava não só de emoção. Mas também por entender, segundo ele, o peso da decisão que havia tomado.

"Chorei compulsivamente. Ali percebi o que aquilo significava, que iria começar uma nova vida, que iria começar do zero. E também porque eu não tenho grana. Agora tenho que descolar um novo trabalho, dentro da área em que atuo, como jornalista ou como professor, com literatura."

Quase um mês depois, seus olhos ainda se enchem de lágrimas ao se lembrar desse dia. 

Vida nova em Berlim

Estamos na frente da Fundação Rosa Luxemburgo, em Berlim, onde Jean concedeu uma entrevista coletiva para jornalistas brasileiros e alemães sobre o Brasil, a mudança de vida e as ameaças de morte que ele e sua família sofreram (motivo que o fez sair do país).

Sentado ao sol de inverno, entre um compromisso e outro (na mesma noite, Jean falaria em um evento sobre a situação do Brasil e no dia anterior tinha dado entrevista para uma TV portuguesa) ele conta como tomou a decisão que mudaria sua vida. 

"Tomei a decisão quando terminou o recesso parlamentar. Comuniquei pessoalmente a minha família, que entendeu que eu faria aquilo por causa das ameaças que aconteciam contra mim e contra eles, e para uma amiga. E só. Meus assessores só souberam depois que dei a entrevista, para que eles não ficassem sabendo pela imprensa."

A ideia inicial de Jean era se recolher. "Naquele dia em que saiu a notícia de que eu abdicaria do meu cargo, vi que teria que mudar meus planos. Minha ideia inicial era sair da vida pública total, levar uma vida acadêmica, anônima, pelo menos por um tempo, para me recompor. Mas vendo a repercussão, percebi que não posso me recolher totalmente. Aquela rede de solidariedade que se formou foi muito grande. Recebi de apoio de pessoas de todos os campos. A Marina Silva foi maravilhosa. Até o Renan Calheiros se manifestou.! Aquilo me mostrou que tenho uma voz que precisa ser usada. Tem pessoas que precisam de mim. E se tenho voz, sou ouvido, tenho que falar em um momento tão especial e grave do Brasil", diz ele que andava escoltado no Brasil

Sem pretensão de ser símbolo

Jean hoje sabe que virou um símbolo. "Uma coisa que eu nunca imaginei ou tive pretensão em toda minha vida." 

"A metade democrática do mundo se comoveu com o fato de um deputado, eleito, legítimo, a favor de causas nobres, ser impedido de cumprir seu mandato por causa de ameaças de morte e difamação, enquanto outros deputados vão trabalhar usando tornozeleira eletrônica saindo da Papuda! Como pode uma coisa dessas?"

Ele conta que o processo eleitoral para ele foi um inferno. "Eu estava no meio da minha agenda, por exemplo, indo para um evento na zona oeste do Rio e tive que voltar porque a escolta recebeu aviso de que eu poderia sofrer um atentado. E que a escolta não estava preparada para lidar com isso."
 
Temos que descobrir como as Fake News afetam as democracias no geral. As pessoas não acreditam mais em fatos. Não acreditam que existiu ditadura no Brasil

Os motivos da saída 

"Foi uma decisão necessária. Dolorosa e necessária. Eu não continuaria vivo. As causas que eu defendi não precisam de um mártir. Já temos uma mártir: Marielle Franco", ele diz. A sua saída, entretanto, não fez as ameaças acabarem. "Agora, são ameaças contra a minha família. Comunicamos a Polícia Federal e disseram que estava tudo bem, que tinham prendido o Marcelo. Tenho ameaças de haters homofóbicos, de psicóticos, como um que assassinou um travesti e tirou o coração dela. Eu represento essa comunidade", ele conta.

A democracia no Brasil está tão esgarçada que um deputado não pode continuar o seu mandato porque é ameaçado de morte e não recebe proteção suficiente 

Ele relembra que uma desembargadora do Rio de Janeiro, Marília Castro Neves, propôs sua a execução. "Ela disse que era a favor de uma execução profilática, como se eu fosse uma doença a ser eliminada. E disse que eu não valeria nem a bala nem o sangue no chão."
Falou também sobre o ódio que a família Bolsonaro tem por ele. "Eles me detestam e estão no poder. Um deles empregou no seu gabinete um dos principais suspeitos da morte de Marielle. E, no dia em que o então deputado Jair Bolsonaro fez homenagem ao torturador Brilhante Ustra, que torturou Dilma Roussef, eu cuspi na cara dele. Porque, ademais, ele me fez um insulto homofóbico. Esse ambiente não era seguro."

Eu deixo um mandato para trás. Mas não fui eu que decidi isso, quem fez foi o meu país. 

Agora, ele quer conseguir balancear a militância com algo que não tinha mais: vida e liberdade.

"Quero viver uma vida que junte as duas coisas. Eu quero ter uma vida normal, sair com meus amigos, em uma cidade segura, voltar a frequentar festas. Mas também falar do Brasil e do meu ativismo quando for convidado. Tenho que achar esse meio termo."

 "Sorri e me chamaram de filho da puta"

Jean sentia falta de sair. "Sou uma pessoa aberta, gosto de conhecer as pessoas. Gosto de sorrir para as pessoas. A última vez em que sorri para uma mulher no aeroporto, ela virou para mim e disse: "Você é um filho da puta, inventor do kit gay!" 

As razões para tanto ódio, ele ainda tenta entender. "Eu fui usado de laboratório para testar a eficácia das Fake News", ele diz.

"Como pode um país odiar tanto uma pessoa como eu? Uma pessoa que tinha um mandato legítimo, comprometido com as questões sociais?" Os insultos e as ameaças impediram Jean de fazer tudo o que gostava: "encontrar amigos, frequentar cinema, sair para dançar." Para retomar isso, escolheu Berlim. 

"Não tenho mais nem casa, dependo de favor de amigos. Mas, por enquanto, escolhi ficar em Berlim porque é uma cidade aberta, onde eu não vou ser morto por ser gay. Existem nazistas, sim, mas são casos isolados. Quero sumir na multidão", ele diz.

Revolução das mulheres

Além de ser representante das causas LGBTS, ele foi (e é) também militante das causas das mulheres. E, acredita que isso também foi uma das razões para que sofresse tanta perseguição. "O projeto de legalização do aborto no Brasil é de minha autoria. Isso é outra razão que me faz ser perseguido e ameaçado. Sou odiado por isso."

Agora, ele se preocupa, e muito, com a populacão LGBT em risco ("muitas pessoas gostariam de sair, mas não podem") e também com a situação das mulheres. "Essa loucura agora de quererem proibir o aborto em casos de estupro. O que é isso? Querem que a mulher seja penalizada? Obrigada a ter um filho que ela não quer e que aconteceu por causa de uma terrivel agressão. Isso é um absurdo!" 

Segundo ele, toda a violência do Brasil está caindo em cima dos LGBTs e das mulheres. "Somos a parte mais ameaçada. As pessoas tomaram horror de feministas! Tratam como pessoas perigosas. A Lola Aranovich (do blog Lola Escreva) é ameaçada de morte! Talvez a Manuela Davilla tenha que deixar o país!"
 
Apesar dos problemas, das ameaças e dos retrocessos, Jean acredita que as mulheres são a maior força revolucionária do Brasil. 

"A vanguarda da Resistência ao governo Bolsonaro é das mulheres, sobretudo das mulheres negras. Acredito muito nisso. E tem outra, eu sou um cara místico. Acredito que a morte não é um final. Anote uma coisa que eu vou te dizer: quem vai derrubar Jair Bolsonaro é Marielle Franco."

Durante a coletiva, Wyllys disse também que não pretende pedir asilo político. "A França me ofereceu, mas eu não aceitei. O asilo político é um processo demorado e complicado. E tem muita gente que precisa. Para mim é mais fácil, por enquanto, ficar com visto de estudante, de professor."

Sobre o futuro, ele diz ter recebido propostas de fundações mas ainda não ter nada definido. Por agora, viaja para dar palestras pela Europa. 

Voltar ao Brasil é uma coisa que, por enquanto, ele não faz ideia de quando vai acontecer. "Só posso voltar depois que essas forças assombrosas saírem do poder. Por enquanto, não posso. Não posso nem ir visitar a minha mãe. Isso é o que mais me entristece."

Apesar da dor, Jean está bem. "Só de poder andar em uma cidade em segurança e sem ouvir insultos já é uma sensação maravilhosa", diz.