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Diversidade


"Criança não liga se você é trans", diz professor atacado por mãe de aluno

Arquivo pessoal
O professor de capoeira, Bruno Santana, foi alvo de mensagem que viralizou Imagem: Arquivo pessoal

Paulo Gratão

Colaboração para Universa

2019-03-22T04:00:00

22/03/2019 04h00

Fundada há pouco menos de um ano, em Salvador (BA), a Escolinha Maria Felipa ganhou notoriedade essa semana, com um post no Facebook. A mensagem apresentava o print de uma conversa de WhatsApp entre o diretor da escola, Ian Cavalcante, e uma mãe que buscava informações sobre a instituição.

No texto, ela perguntava se a escola não temia perder matrículas por manter em seu corpo docente um professor trans, e a resposta de Cavalcante foi: "Quem acha que uma pessoa trans, só por ser trans, não pode educar seu filho, não merece a nossa escola".

A exposição da conversa trouxe muitos comentários de apoio à instituição e, até o momento, quase 5 mil compartilhamentos.

Professor não culpa agressora

Reprodução/Facebook
Escola defendeu professor na rede social Imagem: Reprodução/Facebook

O alvo das mensagens é o professor de capoeira Bruno Santana, 30 anos. Cavalcante elogia o desempenho do colaborador. "É um excelente professor, educado, faz planejamento excelente e tem um trabalho de destaque".

Apesar de atacado, Santana disse que não quis saber a origem da mensagem recebida pela escola, pois "não é culpando o sujeito que reproduz a opressão que irei combatê-la".

O professor acredita que o preconceito com sua identidade de gênero não está nos alunos, mas nos adultos. "As crianças não estão preocupadas se o seu professor é um homem trans. Elas são inteligentes e entendem que a identidade de gênero é apenas mais uma possibilidade de ser e estar no mundo", diz.

Graduação foi notícia

No ano passado, Santana foi notícia por ter sido o primeiro homem trans a se formar em uma universidade pública na Bahia, a Universidade Federal de Feira de Santana (UEFS). Foi durante a graduação que ele passou pelo processo de transição e enfrentou barreiras como adoção do nome social, tanto pela universidade, quanto pelos professores, e o uso do banheiro.

"Muitas vezes, eu fiquei o dia inteiro sem urinar. Eu ficava ali aguentando porque eu não conseguia entrar no banheiro feminino, não me sentia confortável por não me identificar com o gênero feminino. Também não entrava no masculino porque, naquele momento, no meu processo inicial de transição, eu não tinha uma aparência masculina, o que fazia com que as pessoas não me respeitassem como homem", recorda.

Escola promete ensinar respeito ao próximo

Cavalcante e sua companheira, Barbara Carine, adotaram uma criança há cerca de três anos e procuravam por uma educação que trouxesse conhecimentos sobre culturas ancestrais do Brasil, como as africanas, e não somente a europeia.

Reprodução
Imagem: Reprodução

Como professor, ele trabalhava em algumas escolas particulares da capital baiana, mas, de acordo com ele, nenhuma trazia esse conhecimento. O casal também não queria colocar a criança em uma escola pública, pois enxergava que ocuparia uma vaga de quem realmente não tinha condições de pagar pelos estudos, o que não era o caso dos dois. "Entendemos que precisaríamos construir nossa própria escola", comenta.

Com isso, em 2018, nasceu a Escolinha Maria Felipa, que atende crianças de dois a cinco anos, e tem o propósito de ensinar culturas com influência ameríndia e africanas. "Queremos valorizar e respeitar a diversidade, entender que nossos antepassados não vieram da escravidão, não são menos evoluídos que nós enquanto sociedade ocidental. As famílias que estão conosco também compartilham desses valores. Somos uma escola com uma postura política bem definida".

Possibilidade de boicote não assusta

A mensagem apresentada no Facebook falava sobre um potencial boicote que a escola poderia vir a sofrer. O resultado das eleições presidenciais de 2018 deixou Cavalcante e o corpo diretor da escola preocupados. "Ficamos muito apreensivos, mas somos luta, somos resistência e vamos continuar lutando, venha o que vier para cima de nós", diz.