Sem paciência para babaca

Karol Conka fala sobre sexo, amor, machismo e o fato de nunca chorar. Bem... quase nunca

Luiza Souto e Luciana Bugni
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O macacão camuflado denuncia que ela está preparada para a guerra. Ou caça, como anuncia na letra de "Kaça", no álbum recém-lançado "Ambulante". Ela não vai mudar, nem se rotular, avisa.

Karol é menor do que parece na TV, mas seu 1,65m fica gigante quando ela chega, com uma caixinha de som, liga uma playlist de soul e incendeia o estúdio com respostas ácidas e rápidas: "o racismo queima, mas nunca vão me ver chorar por causa disso", diz, olhando fixamente para a câmera. E sobe num salto plataforma de cerca de 25 cm. Gigante, mesmo.

Precisa falar de tudo?

Seguindo a letra da música, ela realmente criou a própria lei quando o assunto é assédio: "Já parti para a agressão física", diz. E quando é solidão, também: "Não acredito em monogamia ou que um dia vá encontrar um grande amor".

Aos 32 anos, metade deles em cima dos palcos e há dois apresentando o "Superbonita", no GNT, cuja nova temporada estreia no sábado (16), ainda é capaz de assustar a mãe quando desembesta a falar: "Ela sempre fica com frio na barriga quando dou entrevista". E leva puxão de orelha do filho adolescente de 13 anos: "Ele diz: 'Não precisa mais falar isso, né?'", ela cai na risada. Precisa, sim.

Sem nunca gaguejar, com gestos que podem ser ensaiados, mas parecem espontâneos, e olhar penetrante, nada mesmo deve abalar suas estruturas. Isto é, até falar de um caso de estupro cuja vítima era criança. Aí ela não consegue conter as lágrimas. "Falei que não ia chorar e chorei". Acontece.

Veja melhores momentos da entrevista com Karol Conka no canal de Universa no Youtube

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Se é para chegar lá, cheguei

Foi com 16 anos que a curitibana do Boqueirão, um dos bairros mais violentos da capital paranaense, que a ainda Karoline dos Santos Oliveira subiu ao palco pela primeira vez para cantar rap.

Mas desde os seis anos de idade ela já estava se preparando para ter plateia, com aulas de dança contemporânea. Sua primeira aparição artística foi num festival de dança... com axé. Ela ri ao pensar na guinada de carreira, mas logo fica séria ao fazer um balanço.

"Desde pequena planejei tudo isso que estou vivendo. Então, não é muita surpresa quando sou convidada para fazer grandes eventos, porque já estou esperando aquilo. É como se eu jogasse para o universo e ele só tivesse que fazer o papel de me devolver". Grandes eventos, para Karol, é coisa grande mesmo, como abertura da Olímpiada -- no caso dela, não dá para reclamar do universo.

Sucesso "desceu" da cabeça

"Ambulante" veio cinco anos após a estreia, "Batuk Freak". Nesse hiato, ganhou prêmios, viu o hit "Tombei" na abertura de "Chapa Quente" e a música "Bate a Poeira" em "Malhação", ambos da Globo. Se apresentou na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos, no Maracanã, em 2016, e virou apresentadora de TV. Mas com todo esse sucesso, veio a depressão.

"Ninguém ficou sabendo. Meus amigos que me alertaram sobre isso, porque eu não percebi, de tanto trabalhar. Acho que a fama acabou descendo mais na cabeça do que subindo. Parecia que eu não me sentia merecedora de tanto sucesso. Conversei com outros artistas que passaram pelo mesmo problema que eu, e me senti mais aliviada. Era uma questão de analisar onde estava e o que fazia".

Ela reflete que, ao ficar famosa, tudo é muito fabuloso. "E é aí que está o perigo. Às vezes, o deslumbre vem de pessoas que trabalham em volta dos artistas. Eu ando com amigas de infância, pessoas muito bem selecionadas", diz.

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Meu medo é perder minha sanidade, e não ter paz. Mas eu tenho tudo isso até agora.

Karol Conka

"O que eu tenho para falar não agride ninguém"

Num post no Twitter, Karol avisa: "gente, eu sou de Capricórnio ascendente em Áries". O que isso significa? Momentos intensos, gênio forte e trabalho árduo. Melhor não tentar limitá-la.

"Quando você fica famosa, parece que nada pode. Eu achei muito chato quando tive que podar meu riso, minha fala, tudo. Não pode beber tal coisa em tal lugar, não pode falar tal coisa. O que eu tenho para falar não agride ninguém".

Mas ela garante que nada a censura. Antes de entregar:

"Eu não falo da minha vida materna. Não tem porque expor meu filho. Não quero causar nenhuma confusão na cabecinha dele. E as pessoas também confundem a realidade do artista com a intimidade. Então, tomo muito cuidado", ela diz.

O assunto drogas, por exemplo, é um deles. Apesar de já ter assumido usar maconha anteriormente, evita o tema: "Não precisa, né?"

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Me lambe lá?

Preocupada em não mostrar os seios ou deixar a calcinha aparecer durante as fotos para este ensaio, Karol se despe do pudor ao falar de sexo. Suas músicas mais recentes estão recheadas de sensualidade -- o que, segundo ela, foi uma necessidade a partir do fim do último namoro, em 2017.

Daquele ano saiu também a provocante "Lalá". No clipe, com mais de 7 milhões de views, pede: "dê uma lambida lá". Ela está falando do clitóris. A música explica livremente como um homem deve fazer sexo oral em uma mulher.

"Minha mãe falou: 'Mas que baixaria!'. E aí eu respondi: 'Baixaria é não saber fazer. É quando o sexo é malfalado e malfeito". Eu ajudei muitos caras com essa música, gente. Muitos homens me escreveram agradecendo", reflete satisfeita.

Na pré-adolescência, um dos passatempos de Karol era pegar as revistas que a mãe lia -- e escondia debaixo da cama. O conteúdo sexual vinha numa sessão lacrada, mas nada a impedia de acessá-lo.

"Com 15 anos, eu falei: 'Mãe, estou interessada em sexo e quero transar'. E marquei o ginecologista. Tomei anticoncepcional, eu mesma botava a camisinha. E, com 19, engravidei. Aí minha mãe disse: 'Ué, mas não sabia tudo?'. Aquela velha história: era para ser..."

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Acho que a sensualidade trabalhada no Brasil é tão padronizada que fico com um pouquinho de preguiça

Karol Conka

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"Não vou ser a princesinha que eles querem, entendeu?"

Karol gargalha quando se dá conta de que está solteira há um ano e meio. E dá de ombros. Diz que não tem tempo para paquerar. Nem paciência.

"Não procuro ninguém e já não acredito em monogamia ou que um dia vá encontrar um grande amor. Eu tive quatro namorados na minha vida, um deles o pai do meu filho. Mas aquele por quem mais fui apaixonada foi o último. Acho que não foi uma paixão, acho que fui obcecada", entrega.

"Eu realmente não sinto falta desse afeto. E eles têm medinho de mulher independente e com atitude. Eles têm fetiche com a gente, mas não querem ficar andando de mão dada. Não vou ser a princesinha que eles querem, entendeu?".

Karol conta que não tem muita paciência para o que define como "caras babacas". Mas recentemente teve uma transa legal em Nova Iorque: "Está vendo? Lá do outro lado do mundo. Não estava procurando ninguém e bateu. Fiquei com o cara, mas nunca mais falei com ele, porque eu não tenho tempo para drama. Não tenho tempo para gente se apaixonando fora de hora".

Mas o que é fora de hora? "É querer ficar com alguém quando você sabe que não vai ter tempo para isso", ela tenta explicar e logo desiste.

"Sou muito feliz, embora não transe muito porque não tenho tempo nem saco para gente babaca", encerra.

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Descobri que sou sapiossexual, que é a pessoa que só sente atração sexual pela pessoa que está na mesma frequência psíquica.

Karol Conka

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"Chorar dá tesão em racistas"

Até quatro horas por dia é o tempo determinado por Karol para navegar na internet. E nada de ficar em qualquer site: no seu browser constam curso de inglês, páginas de músicos e suas redes sociais, onde divulga o trabalho e raramente abre espaço para intimidade. Só o Instagram tem 1,3 milhão de seguidores.

Perder tempo com ataques não rola, avisa ela.

"Gente, a internet está enlouquecendo todo mundo. Parece que todo mundo encachaçou e saiu falando. Todo mundo te filma o tempo inteiro, tira toda a sua liberdade, edita tudo que você fala. É o tipo de coisa que me limita. Eu não vou a várias festas. Eu não vou a quase lugar nenhum. Eu só trabalho, porque, na verdade, eu só gosto de fazer isso mesmo. A minha dica é: vá para o psiquiatra".

Com bom humor, diz que até já estranhou não ter sido alvo de ataques racistas nas redes, orquestrados contra outras personalidades negras, como a atriz Taís Araújo e a jornalista Maju Coutinho.

"Eu sei que o preconceito dói, eu sei que o racismo arde, ele queima. É uma dor horrível. Só que, se você aparece chorando, você está dando mais tesão para essas pessoas. Está na hora de parar de olhar para o negro e só enxergar o racismo. Olham a mulher negra e falam: 'Ah, solitária. Passou racismo'. Isso é um saco".

O machismo infecciona nosso amor próprio. Deixa umas bactérias ali, e a gente já não consegue mais nem olhar umas para as outras e ver tanta força, sem precisar gritar

Karol Conka

Ela nunca chora, só às vezes

A vida ensinou Karol a se defender: a avó era agredida e violentada pelo marido. Uma pessoa conhecida sofreu estupro. Ela foi assediada. Nunca deixou barato.

"Desde novinha, sempre briguei com assediadores. Já parti para a agressão física, porque não tinha outra coisa para fazer. Uma vez, estávamos eu e minha prima e o cara colocou o pênis para fora, chacoalhou. Tinha 17 anos. Juntamos mais cinco pessoas da rua e fomos atrás dele. Ele teve de fugir para a favela".

Ela conta que a saída da avó para a violência do marido foi jogá-lo em uma vala e "pisar no saco dele com um salto". Reagir parece ser de família.

E as lágrimas chegam.

"Conheço um caso muito sério de estupro, do pai que violentou a filha de 3 anos, a de 11 e a de 15. E a mãe delas disse o seguinte: 'Se meu marido sente alguma coisa por você, é porque você está provocando'. Essa mulher casou com três homens e todos abusaram delas. Minha vontade era dar na cara dela. Nem posso contar essas coisas. Eu nunca conto isso", ela diz, limpando o rosto. Logo se recompõe e faz piada, dizendo que nunca chora. "Vou até contar para minha mãe".

Mas, entre frases seguras e certeiras, o mulherão deixa transparecer o maior medo: "É sair sozinha na rua. Não saio. Eu tenho feito meditação guiada, faço exercício, para manter a calma".

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Falar com o filho sobre tudo

Jorge está com 13 anos. E já tem exata noção do que é sexo ou do que é feminismo. É no filho que Karol enxerga esperança na igualdade entre os gêneros.

"As mães de meninos têm uma grande responsabilidade nas mãos, porque a nossa missão é não deixar que eles se tornem os homens decepcionantes de hoje. E eu sempre explico para meu filho que o feminismo não é uma guerra contra os homens. Às vezes, eu finjo que tenho 13 anos e vou assistir o que ele assiste e, dentro das brincadeiras, vou falando sobre o feminismo, sobre pessoas trans, gays... Ele entende tudo".

Foi por causa do pai que Karoline dos Santos Oliveira adotou o "Conka", já que ele fazia questão de alertar para a grafia correta do nome filha. Mas essa é uma das poucas lembranças boas das quais a cantora leva para dentro de sua casa.

"Meu pai era alcoólatra, e minha mãe, depressiva. Prometi para mim mesma que nunca perderia minha lucidez para não decepcionar meu filho. Porque eu vi meu pai, que era meu herói, por várias vezes, em coma alcoólico ou dormindo na rua e fingia que não era ele. Isso é muito doloroso para a criança. Quando estava depressiva, meu filho não ficou sabendo, porque eu sou a única fonte de força que ele tem".

Apesar de ter se tornado uma nova Karol após a maternidade, ela decreta: não vai repetir a dose. "Porque me senti um lixo, tive depressão pós-parto também. Hoje consigo entender tudo que passei, as dores, os sofrimentos".

Do carrinho de botijão de gás ao carrão

Morando num bairro de classe média na zona oeste de São Paulo, com a cachorrinha e o filho, a cantora conta que um dos maiores retornos da carreira foi um carro. E que conforto mesmo é viver no anonimato.

"Há anos, não tinha como levar meu filho para a creche. Sabe carrinho de botijão de gás? Eu botei uma almofada, pegava uma tampa de panela, dava na mão dele e falava: 'É seu volante. Vamos brincar'. Na época, o padrinho dele pagava uma escola particular e eu era a única mãe pobre daquele lugar. Chegava com a criança toda suada e ele feliz, com a tampa da panela na mão. Hoje, eu tenho O carro", enche a boca para falar e se reclina na cadeira, satisfeita.

Karol foi estrela de uma campanha da Mercedes-Benz em 2017, e ganhou um modelo da montadora. Mas não é isso, frisa, que gosta de esbanjar.

"Gente, todo ano eu vou para fora do país com minhas amigas e me divirto. O que mais gosto é quando fico andando assim, na rua, vou ao mercado ou flerto com alguém que não sabe quem sou eu. Isso é mágico! Inclusive, vou voltar para Nova Iorque", decide, antes de fazer um tipo de classificado amoroso, do jeito dela. Porque ela é assim, né?

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Se tiver algum homem ou mulher -- porque aqui é para os dois lados -- sapiossexual e que se identifica comigo, fica aí só me olhando e admirando... A gente nunca vai se encontrar, porque a gente é assim!

Karol Conka

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