Domingo é dia de visita

Quem tem filho preso também vive um tipo de prisão: ela inclui medo, humilhação e longas jornadas até a cadeia

Natália Eiras da Universa, em São Paulo
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Decidi escrever esta reportagem por nunca ter me esquecido da angústia que minha mãe viveu tendo um filho atrás das grades. A primeira vez que meu irmão foi preso, por roubo de carro, ela tinha 39 anos; eu, 9, e ele, 15. Primeiro, ele foi para a Febem --como era chamada a Fundação Casa, até 2006--, de onde entrou e saiu mais de uma vez. Maior de idade, foi parar em uma penitenciária. Sempre pelo mesmo crime.

Domingo, dia de visita, minha mãe acordava às 4h para cozinhar o almoço que levaria para o meu irmão na cadeia. Na revista, agachávamos três vezes com as calcinhas arriadas, para que a agente penitenciária visse se escondíamos algo na vagina. Passar a tarde em um pátio de concreto era rotina. Mas não falávamos disso fora de casa --por vergonha e medo.

O Brasil tem uma população carcerária de mais de 700 mil pessoas. Mas, fora da cadeia, há mais prisioneiras: as mães de encarcerados. Além da tristeza e preocupação constantes, elas perdem a liberdade ao viver uma rotina que inclui conversas com advogados, gastos com mantimentos para os filhos, longas jornadas para vê-los e humilhações durante a revista. É uma punição constante, como se elas fossem criminosas. Aqui, você vai conhecer a jornada de algumas dessas mulheres.

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Prisioneira emocional

São 4h30 e é domingo quando encontramos a faxineira Rosana, 49, na rua da casa dela. Esse não é seu nome verdadeiro, assim como o das outras mães entrevistadas nesta reportagem. O motivo é um só: medo de represálias, contra elas e contra os filhos.

Em domingos alternados, Rosana acorda às 4h para montar o jumbo, que é como mães de presos chamam a sacola onde são carregados os mantimentos que as visitas levam para o presidiário. São cerca de 20 quilos compostos por bolachas, balas, pães, bolos e cigarros, além do almoço que mãe e filho comerão juntos naquele dia.

Às 5h, estamos eu e a fotógrafa com ela em uma esquina escura de uma favela na zona sul de São Paulo (SP), esperando o primeiro ônibus até a Penitenciária I de Franco da Rocha, na zona metropolitana da cidade. Lá, o filho mais velho de Rosana, de 26 anos, está preso há dois por roubo à mão armada. A pena dele é de dez anos de detenção.

Apesar do intervalo de 14 dias entre as visitas, a faxineira diz que a realidade de seu primogênito mantém sua mente em cativeiro o tempo todo. "Eu vivo em função dele", fala. A cabeça está sempre cheia de preocupações, como o que cozinhar para levar no jumbo ou se ele está doente. Com tantos problemas, a própria vida deixa de ser prioridade. "Não tenho vida social. Só falo disso com Deus."

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Há dez anos, a psicóloga Marisa Feffermamn atende mulheres como Rosana na ONG Amparar (Associação de Amigos e Familiares de Presos). De acordo com a especialista, a culpa é a motivação que mães de presidiários encontram para suportar a rotina de ter um filho na cadeia.

"Normalmente, são mulheres pobres que precisam deixar as crianças sozinhas para trabalhar", afirma. "Quantas vezes elas ouviram que o filho está preso porque foi ela quem não soube criá-lo?"

O julgamento pressiona essas mulheres em várias esferas. "Ela não pode falar para o patrão, porque tem medo de perder o emprego. Os conhecidos a condenam como uma criminosa. E, por fim, os agentes penitenciários a tratam como uma presidiária", fala a psicóloga. Calada, a mãe fica presa nessa realidade, sem ter a quem recorrer.

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Roupa de visita

Cada unidade prisional tem suas regras de vestimentas para visitantes. Estas são as que devem ser seguidas para entrar na Penitenciária I de Franco da Rocha (SP):

Camiseta

Camisetas de outras cores que não sejam preto ou branco. Lá, essas são as tonalidades dos uniformes que os presos e os agentes usam.

Calça sem bolsos

A calça não deve ter bolsos, mas pode ser de qualquer cor e material, exceto jeans --o forro pode ser usado como esconderijo de drogas. Shorts e saias não são permitidos.

Chinelo e sutiã sem arame

Calçados fechados e tênis não entram na penitenciária. Os visitantes precisam usar chinelos. O solado também não pode ser muito alto. Nos dias frios, visitantes podem usar meias. Sutiãs não podem ter arame nem enfeites.

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Visitas custam caro

Rosana faz, quinzenalmente, um trajeto que inclui dois ônibus, metrô, trem e mais um ônibus intermunicipal para chegar até a cadeia. São três horas de jornada cansativa que custa R$ 34,80, ida e volta. Para montar o jumbo, são gastos, em média, R$ 800. Para as mães cujos filhos estão em unidades distantes, ainda entram na conta os gastos com a viagem e a hospedagem --normalmente, uma pensão.

Um presidiário custa cerca de R$ 2.400 por mês aos cofres públicos. Mas Rosana reclama: "Eles falam isso, mas quem os sustentam são os familiares. Tudo o que eles usam lá dentro, sabonete, pasta de dente, somos nós que levamos". Ela conta que, todo último fim de semana do mês, ela precisa levar uma calça de moletom e uma camiseta para a cadeia. "Eles dividem entre os presos, mas não nos devolvem nem quando eles são libertados."

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A auxiliar de limpeza Laura*, 55, de Franco da Rocha (SP), tem dois filhos presos: um na cidade onde vive e outro em Lavínia, no interior de São Paulo. O mais velho já cumpriu dez dos 28 anos que pegou por homicídio. "Como é longe, não vou sempre. Mando R$ 200 por mês para ele comprar os itens de higiene", fala. O dinheiro é recebido por vale postal pela instituição, que adquire os itens solicitados pelo preso. Quando vai visitá-lo, a mãe gasta R$ 160 de passagem de ônibus, além da estadia.

Para quem não precisa viajar, o maior gasto é com os maços de cigarro. Dentro da cadeia, o fumo é moeda de troca e cada unidade prisional tem a sua marca de preferência. "E só pode entrar original", fala Rosana, enquanto acende um cigarro paraguaio para ela.

As famílias também têm um gasto considerável com advogados. Laura diz que o filho mais velho é inocente, mas não consegue lutar pela diminuição da pena por falta de dinheiro. Rosana, por sua vez, gastou em um ano cerca de R$ 8 mil com o representante legal. "Mas vou entrar na Defensoria Pública para conseguir um advogado gratuito", afirma.

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Almoço de domingo

Cardápio

Teoricamente, as mães podem levar qualquer prato para o almoço, menos receitas recheadas, que podem esconder itens ilícitos. O frango precisa estar sem osso. No dia que acompanhamos Rosana, ela levou macarrão com molho de tomate e calabresa picada, salada, bolo industrializado e mousse de morango.

Potes transparentes

As mães levam todos os itens em potes transparentes com travas. "No caso da salada, o molho vai separado em uma garrafa, também transparente. O agente pede, na revista, que a gente derrame o molho na frente dele", explica a faxineira. Casos em que os funcionários implicam com os pratos são comuns, de acordo com as entrevistadas.

Água congelada e sombrinha

Como enfrentam percursos longos até o presídio, há macetes para que a comida chegue em boas condições. A água vai congelada, assim como sucos e refrigerantes, para que cheguem ainda gelados. Elas também usam sombrinhas para proteger os jumbos do sol, que são descartadas ou escondidas no matagal ao redor da cadeia, antes de elas entrarem.

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Amizade na fila

Para Rosana, a fila é a pior parte do dia de visita. "A gente tem que esperar embaixo de chuva e de sol. Não tem onde se abrigar". De fato, a entrada da penitenciária é rodeada por asfalto, mato, fezes de cachorro, lixo e muitas moscas.

Há 12 anos, quando seu filho estava preso, Sônia, 52, começou a trabalhar para a Amparar e, desde então, frequenta a porta de cadeia para falar com os familiares. A ONG dá consultoria legal e orienta as visitantes de primeira viagem sobre vestimentas e forma de transportar os alimentos. "As mães costumam se ajudar bastante. Na fila, você percebe que não é a única a passar por isso e começa a se solidarizar", diz.

Ainda assim, o clima é tenso. A fila é majoritariamente composta por mulheres. No dia em que a Universa esteve lá, havia cerca de 400 pessoas --só dez eram homens. O ambiente parece uma extensão da prisão, repetindo a mesma dinâmica: os agentes não confiam nos visitantes, que, por sua vez, não confiam nos funcionários nem em outras visitas.

"Uma pessoa aprisionada costuma aumentar a dimensão do que ouve. Imagine, então, o medo que as pessoas têm de ser mal interpretadas", fala a psicóloga Marisa Feffermamn. "Uma frase errada pode gerar um grande problema."

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A atuação do PCC

De acordo com a SAP (Secretaria da Administração Penitenciária), a Penitenciária I de Franco da Rocha recebe cerca de 1.860 visitantes por mês. A atual gestão da unidade prisional proibiu que familiares dormissem na porta da cadeia --faziam isso para serem os primeiros a entrar. Por isso foi organizado um grupo no aplicativo de mensagens Telegram, onde as mães sorteiam números referentes à posição em que cada uma ficará na fila.

A SAP afirma que não é responsável pela organização na porta da cadeia. "Na parte interna das unidades prisionais, as filas são organizadas pelos servidores, de acordo com a ordem de chegada e respeitando as limitações legais quanto às filas preferenciais", disse, em comunicado, a assessoria de imprensa da secretaria.

A Universa apurou que a organização criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) criou a dinâmica. Além da fila, a facção também fornece os chamados "ônibus da família", transporte clandestino que leva, a preços mais acessíveis, familiares de presidiários até prisões no interior do estado de São Paulo.

"Há famílias que têm um contato próximo com o PCC e outras que os procuram apenas para pedir ajuda. E tem familiares que, mesmo precisando, fazem o possível para se distanciar da facção", fala Marisa.

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Revista íntima

Hoje, com 30 anos, eu não lembro de muita coisa da época em que visitava meu irmão, mas um momento que não esqueço é a revista. Entrávamos em uma sala em grupos de três a cinco mulheres e crianças, abaixávamos a calça e a calcinha e agachávamos três vezes. Um espelho no chão dava às agentes penitenciárias uma visão privilegiada sobre nossas partes íntimas. "Já ouvi um funcionário falando para uma senhora que queria ver o útero dela", conta Vânia.

Nos presídios do estado de São Paulo, esse tipo de revista foi substituída pelo scanner, um aparelho de raio-x que possibilita o funcionário ver se o visitante está com algo inserido em algum orifício, segundo a SAP. Porém, Sônia diz que a tecnologia não impediu que relatos de revista vexatória continuassem a chegar à ONG Amparar. "Como o scanner não diferencia fezes e gases de volumes estranhos, mulheres já tiveram que defecar em uma sacola para provar que não levavam nada no ânus."

Sabrina, 55, trabalha como inspetora penitenciária há 25 anos e prefere não dizer o nome real. Ela percebe que o tratamento dado às visitantes é preconceituoso. "Os funcionários não conseguem diferenciar a pessoa que cometeu um crime da mãe ou da companheira dele", fala. "A culpa não é do agente, é do sistema carcerário. A falta de capacitação faz com que eles deixem de ver o outro como ser humano."

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Medo de rebelião

Entrei em contato com as mães um pouco antes de ser divulgada a notícia de que Marcos Camacho, o Marcola, chefe do PCC, e mais 21 membros da facção seriam transferidos de presídio. O fato causou tensão dentro e fora das prisões, pois havia a chance de estourarem rebeliões em protesto à transferência. Meu WhatsApp logo ficou cheio de mensagens.

Uma delas era a vendedora de seguros Vânia, 60, cujo filho está preso há três anos por tráfico de drogas. "Estou desesperada. Recebi uma mensagem dizendo que a GIR (Grupo de Intervenção Rápida) está dentro da ala do meu filho. Por favor, me ajuda", escreveu pelo aplicativo, claramente nervosa. A fonte de suas informações, segundo ela, foi um grupo de mães.

A falta de notícias alimenta o medo da "cadeia virar", ou seja, entrar em uma rebelião. E ele é constante.

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Outro medo constante é a possibilidade do preso adoecer. A psicóloga Márcia Badaró, que trabalhou por 30 anos no sistema penitenciário do estado do Rio de Janeiro (RJ), afirma que a tuberculose é uma "epidemia" dentro das prisões. O principal motivo é a superlotação. "Há poucos médicos para tratar o tanto de pessoas que temos encarceradas."

Vânia conta que o filho, preso há três anos por tráfico de drogas, entrou para o sistema penitenciário com todos os dentes. "Ele vai sair com três a menos. Estava com dor, mas a prisão não tinha antibióticos nem dentista. Tive que ir até a Defensoria Pública para que eles liberassem a entrada de remédios para o meu filho, mas eles acabaram arrancando esses dentes dele".

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"Eu só espero que um dia acabe"

Deixar a penitenciária é um misto de emoções. As visitantes relaxam, porque saem daquele ambiente, mas ir embora sem o filho é dilacerante. Um dia desses, jantei com a minha mãe e perguntei deste momento enquanto lavava a louça. "Eu me sentia um lixo. Parecia que eu era outra pessoa", ela respondeu, séria.

Mulheres como Rosana, Laura e Vânia não deixam de ir até o presídio, porque levam notícias sobre o mundo externo, comidas gostosas e afeto: tudo o que presos não têm no xadrez. "O que não me deixa desistir é a possibilidade de mudar a vida do meu filho", fala Rosana.

Marisa Feffermamn afirma que as mães de presidiários sentem que carregam uma responsabilidade sufocante. "Se elas abrirem mão dos filhos, eles serão abandonados por toda a sociedade. Elas sentem que podem evitar que o filho se torne um criminoso de carreira ou tire a própria vida lá dentro", fala a psicóloga. "É uma tortura psicológica. Olha o que essa mulher passa", diz Sônia.

"Eu só espero que um dia acabe", fala Rosana, olhando pela janela do trem. "Meu sonho é ouvir que saiu o alvará de soltura. Liberdade nunca foi uma palavra tão bonita".

Minha mãe sentiu esse alívio quando meu irmão foi solto pela última vez, em 2008, depois de passar seis anos consecutivos em uma penitenciária. Recuperado e empregado, ele morreu um ano depois, em um acidente de moto, um dia antes de prestar vestibular.

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