Um mês sem plástico

Jornalista conta como é ficar 30 dias sem comprar produtos embalados com o material. Spoiler: é possível!

Luciana Bugni Da Universa

"Vamos fazer uma pauta de como é ficar um mês sem comprar nada embalado em plástico?"

Mal ouvi a pergunta na redação e saí logo levantando a mão: eu faço! Estava animada porque havia visto alguns posts nas redes sociais de amigas que deram dicas de como diminuir o consumo do material e fizeram parecer possível. É uma tendência mundial. E, naquele momento, estava especialmente incomodada por ter comprado um bolo que vinha dentro de uma embalagem de plástico, envolto em um saquinho plástico amarrado com uma fitinha de plástico acompanhado de um garfinho de plástico. Estava uma delícia, mas eu pensei que o lixo que a minha gula estava gerando não era certo.

Mas como aplicar um mês assim na minha vida trabalhando fora, acumulando empregos, cuidando de um bebê de dois anos, morando com dois adolescentes e uma gata? Como fazer isso dar certo enquanto revezo com meu marido as coisas da vida real, como deixar almoço pronto, tirar o lixo, trocar as fraldas? Antes de dizer que não conseguia enfiar uma rotina mais ecológica na minha maluca não-rotina, decidi criar algumas regras e pensar até que ponto eu conseguiria ir.

Afinal, dizer que é impossível não facilita nada, não é?

Eu sabia que teria que abrir mão do bolo de chocolate no pote na hora do lanche -- ou poderia, quem sabe, fazer meu próprio bolo e levar para o trabalho.

Mas teria que criar algumas saídas para as situações incontornáveis, que não partiam de mim. A primeira conclusão foi: não vou conseguir convencer dois adolescentes a abandonar tudo o que consomem por um mês assim, de supetão. Ou a matéria que você está lendo seria: como transformei minha casa num inferno por 30 dias.

Então decidi tirar os três menores dessa. A exclusão do bebê me daria um alívio na história das fraldas. Mas a fralda de pano é possível e viável -- hoje eu vejo que poderia ter embarcado nessa com facilidade.

O que eu me impus foi: eu não vou comprar para mim nada que venha embalado em plástico de único uso, como o do potinho de bolo. Nem de comida, nem de cosmético, nem de roupa, nem de nada. Segui usando o que já tinha do material na casa até acabar. Queria entender em que ponto do mês a história ficaria emergencial -- se é que ficaria.

E principalmente: afinal, quanto é possível tirar essas embalagens da nossa vida sem ir morar numa cabana nas montanhas vivendo daquilo que planta. Eis o que descobri:

Primeiro, para saber que não está comprando plástico, você precisa saber ler as embalagens. Tem chocolate que parece embrulhado no papel alumínio e eu pensava: "Oba, esse pode". Que nada, é uma mistura de plástico com outros materiais. E tem outras guloseimas que vem no celofane (esse sim, parece plástico), mas é feito de celulose - ou seja, se decompõe bem rápido.

Conversei com os professores Yoshio Kawano e Denise Petri, do departamento de Química da USP. Eles fazem trabalhos de pesquisas variadas com polímeros (o jeito acadêmico de chamar plástico) e me contaram algumas coisas:

Essa tabela abaixo diz se existe polímero nas embalagens. Foi bem assim que descobri que, sendo bem dramática, não podia comprar mais nada. Depois aceitei sem tanto drama e descobri um jeito bem legal -- e saudável -- de fazer compras.

Isopor é poliestireno, portanto é um polímero sintético. Ele é leve porque tem bolhas de ar no interior. Portanto, vetado. Adeus, bandejas de filé de peixe que já estão prontas no mercado (e são cobertas por plástico, aliás).

Mas dá para olhar e ver se é plástico ou celofane? "Só olhando é difícil. Tem que fazer alguns ensaios físico-químicos para diferenciar", diz Denise Petri. Ou seja: melhor evitar.

As latas de refrigerante são feitas de alumínio, mas o forro interno é um material feito de filme de polímero. Sem cerveja, sem chá gelado e sem Coca-cola -- e sem água mineral também. Bebida em restaurante, só se viesse em garrafa de vidro ou suco natural. Se parecer exagero, pense que nos Estados Unidos são usadas 2 milhões de garrafas plásticas a cada 5 minutos. Quando você acabar de ler essa matéria, provavelmente haverá 4 milhões de novas garrafas no lixo daquele país. E você não vai sentir culpa de jogar mais uma no lixo?

Surpresa! Os copos de refri dos fast food agora podem ser feitos de papel. Vale pesquisar. Aí é só recusar a tampa e o canudo. Quem disse que para viver ecologicamente você precisa só comer mato? Lógico que essas lanchonetes usam toneladas de plástico na elaboração do sanduíche produzido em série. Mas minha proposta era não jogar nada que não fosse de papel no lixo da praça de alimentação do shopping -- só tive de evitar o molho barbecue.

O glitter que usamos no carnaval é vetado -- não sofri com isso, porque não era fevereiro. Mas há uma conscientização por parte da indústria de usar uma mistura com corantes naturais extraídas de beterraba, urucum ou cúrcuma na confecção. Aí é preciso buscar com atenção e confiar no fabricante.

    Depois de aprender tudo isso, era hora de ir ao mercado. Mas uma das questões é que não dá para fazer compras sem certo preparo. É nessa hora que a gente quer desistir -- e a correria do dia a dia de fato pode fazer esquecer até de comprar a mistura, imagina comprar sem embalagens "proibidas".

    Não basta a ecobag. Se você não estiver armado de potes, não consegue comprar carne, por exemplo. Arroz, feijão e outros alimentos desse tipo tem de ser comprados em lojas a granel. Você pode levar saquinhos de tecido muito fino (tem muitas marcas vendendo isso na internet já mirando nesse público) para pesar e, chegando em casa, coloca nos seus potes.

    Há queijos embrulhados em papel ou alumínio. Os vegetais e frutas podem ir direto para a sacola de tecido. Era o que eu mais temia, mas fazer compras foi até bem parecido com o que era antes.

    Quem saiu perdendo foi a indústria de guloseimas e, por consequência, os dois adolescentes aqui de casa. Nada de salgadinhos, bolachas, chocolates (apenas umas duas marcas são embrulhadas em papel ou papel alumínio -- e são caras), sucos de caixinha, refrigerantes de garrafa... na verdade, foi a saúde do pessoal que ganhou.

    Iogurte foi o que pessoalmente eu senti falta, mas poderia ter usado uma iogurteira para fazer meu próprio alimento. Não fiz por preguiça, e garanto que não morri.

    Mas que tem um momento do mês em que o que você mais quer é jogar tudo para o alto e encher a cara de besteira, ah, isso tem. Segurei, entretanto.

    Para não derrapar nos lanches no trabalho, tive que levar todos os dias pão, comprado na padaria, com requeijão -- de pote de vidro, claro. Frutas quebram um galho. Nos dias em que não levei, passei fome, ou andei até um posto de gasolina onde havia salgados que não eram embrulhados em isopor ou mil plásticos, apenas um saquinho branco de papel. Deu para resolver bem e, olhando agora, até que foi bem fácil.

    Tanto que nunca mais tive coragem de comprar o tal bolo da caixinha transparente que está no começo da matéria. O crime nem compensa tanto assim.

    Na limpeza da casa, o bicarbonato é nosso rei

    Por incrível que pareça, a faxina foi a parte que menos doeu. Limpo vidros com uma mistura que faço de sabão em pó, bicarbonato e água. Tudo pode ser comprado em caixas de papelão ou a granel. O piso laminado, não tem jeito: vassoura e pano com água até o pano sair limpo. Se quiser colocar um cheirinho, essência borrifada (vem em embalagem de vidro).

    Não uso amaciante e o sabão em pó para a máquina vem na caixa de papelão. Na cozinha, bucha vegetal, que se deteriora organicamente, e sabão de coco em
    barra -- dá para comprar no caminhão que passa na rua. Acredite, é uma questão de hábito. Quando começar a lavar louça assim, nem vai lembrar que existia detergente que, além de gerar lixo, detona suas mãos.

    Os banheiros sentiram falta de cândida, é verdade. Mas a mistura de bicarbonato com água fervendo deixou as privadas bem limpas, assim como o box (aliás, mais limpos). O que me faz crer que tudo é questão de tentar. Deu bem certo. Se não abrir mão, pode ir ao caminhão da limpeza com seus próprios potes e garrafas de vidro e fazer a festa. Mas não há quase nada que o bicarbonato não resolva, como você pode ver no quadro abaixo.

    No caso dos cosméticos, resolvi adiar meu problema. Usei o xampu até acabar -- o que aconteceu mais ou menos uma semana depois de o mês começar. Aí troquei por um sabonete que eu já sabia que faz muito bem para o meu cabelo e vem em embalagem de papel. Existem outros xampus em barra desse tipo.

    O condicionador eu compro potes bem grandes, que duram muito tempo e depois até aproveito embalagens para plantar ervas em casa. Tem também alguns em embalagens de alumínio (um pouco mais caros, mas ótimos). Acabei com todos os restinhos de cosmético que tinha no armário e fiquei assustada com a quantidade de plástico que gerei sem comprar nada, só botando ordem na zona. Todas as embalagens estão reunidas na foto que encerra essa matéria.

    Sabonete foi fácil, a maioria vem em papel. Hidratatante para o corpo pode vir em embalagem de vidro. Creme para pentear foi um desafio, mas usei linhaça comprada a granel (2 colheres de sopa) e fervida com água (1 xícara). É só coar antes de esfriar e guardar na geladeira. Vira um gel potente que ativa meus cachos. Tudo certo.

    Existe creme para o rosto em lata de alumínio. Há desodorantes em pedra que duram mais de um ano (o bicarbonato também quebra esse galho). Maquiagem em não uso muito, só batom e máscara, e eles duram um ano mais ou menos -- então não entraram nesse cálculo. O coletor menstrual resolve o absorvente para sempre e você não vai querer outra vida.

    O difícil mesmo foi a pasta de dente. Quando acabou e eu não podia comprar outra... tentei o método Bela Gil de escovar com o bicarbonato, mas aquilo me incomodava. Já havia tirado o enxaguante bucal que tinha acabado e não daria conta de passar o resto do mês assim. Acabei comprando outro tubo no dia seguinte, na minha primeira e única contravenção de plástico do mês. Não aceitei sacolinha na farmácia, escondi meu delito na bolsa e fui para casa escovar o dente como eu merecia. Glória!

    Além da pasta de dente contrabandeada, um dia ganhei um pacote de pastilhas coloridas do meu marido. Era um domingo, 10 minutos antes de entrar no plantão e ele comprou para "alegrar meu dia". Em vez de lembrá-lo da "dieta do plástico" apenas aceitei o doce, agradeci e coloquei na bolsa. Metade por educação, metade porque era uma senhora oportunidade de agir na ilegalidade.

    Dez minutos depois eu estava enfiando todas as balas na boca de uma vez e guardando a embalagem, que você também vê nessas fotos. As balas estavam uma delícia, mas tive dor de cabeça depois de um tempo. Aparentemente, meu corpo curtiu ficar tanto tempo sem corantes.

    Outro dia, curtindo uma bela ressaca, dei de cara com um suco de beterraba, cenoura e laranja, que vem numa garrafinha de plástico, fresquinho, recém chegado do hortifruti. Peguei a garrafa sem titubear e guardei a embalagem para lembrar de contar a história. Podia ter evitado, mas também não me arrependo.

    Mais uma: a escola de meu filho pediu que mandássemos uma camiseta branca para que ele fizesse um "trabalho de artes". Fui ao shopping comprar, passei por um stand de sorvetes artesanais, me ofereceram um de pistache de degustação. Meu estômago pensou mais rápido que meu cérebro e lá estava eu andando com uma colherzinha de plástico na mão. Desnecessário.

    Chegando na loja, comprei a camiseta, não aceitei a sacola e só percebi que a camiseta veio embalada em plástico quando estava de volta ao trabalho. Quando você faz as coisas com pressa, não pensa direito e erra. Fiquei chateada.

    E o lixo orgânico?

    O lixo da casa era outra questão: apesar de eu não estar gerando nada, todo mundo estava e o plástico que aparecia no lixo reciclável de casa começou a me incomodar bastante. Não tem muito jeito: não é de um dia para o outro que você muda os hábitos de uma vida, especialmente se a vida não é a sua.

    A consciência a respeito da questão do lixo e de repensar os hábitos de consumo é recente. Viemos de décadas de compras por impulso associadas ao poder e status. Virou costume e praticidade. O que pode ser feito é um trabalho de formiguinha. Quer convencer a galera na sua casa? Tente mostrar imagens de animais com os canudinhos vilões na barriga nos oceanos. Costuma funcionar. Ninguém se importa? Diga que um dia seus filhos vão achar um canudinho mastigado dentro do sushi. Verdade.

    O que fiz para diminuir a quantidade de lixo foi aproveitar cascas de legumes para caldos e só então colocar na composteira (não tenho em casa, mas minha mãe tem e é superfácil guardar os restos num pote na geladeira e levar para a casa dela nos fins de semana). Acha bizarro guardar lixo na geladeira? Pense que é só por alguns dias e que um pote fechado com cascas de fruta e arroz não vai fazer mal a ninguém. Reduz muito os resíduos que vão para o lixo (carnes e cítricos não podem ir para a composteira e devem ser descartados mesmo).

    Também é fácil montar uma dessas em casa (veja no quadro abaixo). Não custa nada, não ocupa espaço e o adubo que ela gera ainda melhora a qualidade de sua própria horta -- o que diminui ainda mais as compras, como um ciclo vicioso do bem. Basta cobrir muito bem os resíduos nas caixas com serragem para evitar moscas (tem uma explicação detalhada de tudo o que fazer no quadro abaixo).

    Mas era desesperador comparar a quantidade mínima de lixo que eu estava gerando todos os dias com o que quem não pensa em reduzir esse consumo produz. Tenho
    certeza que você, depois de ler isso, vai começar a reparar no seu e se incomodar também.

    Eu diria que o maior desafio nem foi a vontade de comer guloseimas, nem o trabalho que dá repensar sua rotina. O problema mesmo é a pressa.

    É a correria que faz a gente comprar o que é mais prático, que invariavelmente está embrulhado em plástico. O simples fato de parar e pensar faz com a gente não aceite o canudo no restaurante, por exemplo. Ou a tampa do copo de refri no fast food. Mas quem para e pensa quando está cheio de coisa na cabeça, com a cara enfiada no celular?

    Há um supermercado holandês que já separa o que não é embalado com o material em corredores "plastic free". Mão na roda. O mundo todo está embarcando nessa. Por aqui, por enquanto, depende de nosso esforço individual, mas também é importante cobrar autoridades e fabricantes para que mudem um pouco esse sistema. Aí sim, a coisa muda de verdade.

    Passar esse mês tomando esse cuidado me alertou para quanto de plástico inútil a gente usa todos os dias. Tem coisa que é inevitável -- eu não vou abrir mão da minha pasta de dente, está decidido -- mas a maioria dá para resolver. Se tomássemos essa consciência, a vida seria um pouco mais organizada, teria mais pausas e a alimentação acabaria sendo mais saudável. Vale tentar.

    Para quem ainda acha que não tem nada a ver com o assunto, é bom assistir o TED de Charles Moore sobre poluição dos oceanos. É impossível não se sensibilizar com as imagens aterrorizantes das ilhas de plástico no Pacífico. A artista visual Diana Cohen afirma que hoje, há pelo menos cinco ilhas como essa em cinco oceanos diferentes.

    Ela também fala sobre isso no TED "Duras verdades sobre a poluição do plástico", quando diz que há um passo anterior à reciclagem: recusar o material de único uso. Mike Biddle traz ainda informações sobre reciclagem: apenas 5% de tudo que é produzido com plástico no mundo é reciclado, pela dificuldade de separar e recuperar.

    Tem muita gente no mundo recusando canudinhos, levando sua própria caneca, lavando louça para evitar descartáveis. O que você está fazendo?

    Carina Wallauer/UOL

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