Ela é dona do jogo

Renata Fan sabe como dominar a bola: "Não quero só inspirar mulheres. Quero inspirar homens também"

Débora Miranda Colaboração para Universa, em São Paulo
Marcus Steinmeyer/UOL

Renata Fan está à frente do "Jogo Aberto", na Band, desde a estreia do programa, há 12 anos. Hoje referência quando se fala de comentarista de futebol, ela, que já foi Miss Brasil, enfrentou o que chama de "desconfiança" do mundo da bola quando estreou na TV --inicialmente ao lado de Milton Neves, no "Terceiro Tempo" (Record).

A primeira entrevista que deu, após deixar a vaga de assistente de Milton para ser apresentadora principal da atração da Band, acabou virando um quiz sobre futebol. "Saí feliz, porque eu tinha ido bem, mas completamente transtornada e revoltada porque aquilo nunca seria feito com o Datena, com o Milton Neves ou com o Flávio Prado", conta, referindo-se aos figurões do jornalismo esportivo.

Elogios dos homens

Se o mercado de trabalho ainda pode ser bastante machista, o mundo do futebol é ainda menos amistoso para as mulheres. Renata, hoje com 41 anos, é considerada uma das precursoras em sua área e conquistou o respeito dos colegas do sexo masculino.

O polêmico Leão -- famoso por seu comportamento muitas vezes agressivo com mulheres profissionais do esporte -- é um dos que já elogiaram Renata. "Ele me disse: 'Você me convenceu. Você é boa no que faz, é inteligente e criteriosa. Você trata com respeito as pessoas e é respeitada por isso'", lembra a apresentadora. "Considerei aquilo uma vitória. E acho que quando ele olha para o que já fez no passado, vê que não era o melhor caminho."

Outro que elogiou Renata foi o ex-goleiro corintiano Ronaldo Giovaneli. Ao criticar a comentarista Ana Thaís Matos, do SporTV, ele afirmou: "Renata Fan só tem uma". A atitude de diminuir uma mulher para enaltecer outra foi imediatamente criticada. E a própria Ana Thaís argumentou: "É típico do machismo rivalizar mulheres. Só que esse aí caiu do cavalo. Renata é minha amiga, incentivadora e grande referência. Em 2012, quando eu trabalhava na chefia de reportagem da Band, a Renata Fan me estimulou a buscar meus sonhos. Por isso ela é o que é. E por isso é tão difícil uma mulher construir uma carreira".

A torcedora do Internacional rebate: "Eu só vou gostar de ser mulher no futebol quando me tratarem igual aos homens".

Veja seu relato à Universa.

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Futebol: uma história de amor que começou aos 6 anos

"O esporte, principalmente o futebol, transformou totalmente a minha vida. Eu sempre fui fanática por esporte, gosto de vôlei, de tênis, de basquete... E o futebol sempre foi a minha paixão, desde os 6 anos de idade. Eu faço parte da população brasileira que é alucinada por isso, que destina muito tempo a isso. Era a minha história pessoal e virou a minha história profissional.

Comecei a acompanhar futebol no rádio AM. O meu pai sempre foi alucinado pelo Inter e, se eu quisesse pedir alguma coisa, falar com ele, trocar uma ideia, eu tinha que esperar o jogo acabar. Eu o admiro demais e ele me deu todos os valores prioritários na vida. E eu admirava (a relação dele com o futebol) porque eu via que aquilo o transtornava, era algo presente demais o tempo inteiro. E isso acabou mexendo comigo, porque se era uma coisa importante para quem eu admirava, também teria que ser para mim. Aí comecei a fazer perguntas sobre os jogadores, a tentar entender. Eu era uma criança, mas comecei a acompanhar o Inter. Quando passava jogo na TV, a gente ficava duas horas antes já na espera, conversando. Eu, meu pai e meu irmão mais novo. Isso criou a minha conexão com o esporte, que foi decisiva. Hoje, olho para o passado e vejo como fui afortunada de ter essa trajetória."

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O convívio que tive com meu pai na infância foi importante porque me ajuda todos os dias. Acho que estava fadada a ser uma mulher do futebol

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O que uma Miss tem a acrescentar?

"Santo Ângelo, a cidade em que eu nasci no Rio Grande do Sul, fica a mais ou menos 40 km de Horizontina, que é a cidade da Gisele Bündchen. Então, lá, todo o mundo acha que se você for bonita tem que ser modelo. E para mim era nem pensar! Quando surgiu a primeira oportunidade de participar de um concurso de beleza, eu realmente não levava isso a sério. Mas, quando venci, gostei, porque ganhei carro, joias, dinheiro. Vi naquilo a minha independência. Daí fui para o concurso de miss. Mas não tinha muita expectativa, não tinha ilusões. E tudo foi transformado numa velocidade muito grande na minha vida. Fui eleita Miss Rio Grande do Sul, depois Miss Brasil e disputei o Miss Universo. Fui fazendo uma carreira ligada à estética, que não era o meu plano, e adiando um pouco a faculdade de direito --que foi a primeira que eu concluí, antes do jornalismo.

Eu entrava nos EUA, mostrava a faixa de Miss Brasil e ninguém me fazia uma pergunta. Beleza realmente abre portas. Por esse aspecto é ótimo. Além disso, eu convivia com políticos, com empresários, com pessoas ligadas a causas sociais e assistenciais.

Quando eu fui para o universo do futebol, a beleza me ajudou, porque eu era assistente de palco do Milton Neves (no "Terceiro Tempo", da Record). Mas, ao mesmo tempo, dificultava muito, porque as pessoas pensavam: "O que uma mulher que vem do Miss Brasil tem para acrescentar? Que diferença ela pode fazer? Quem é ela? O que está fazendo aqui? É mais uma?". E aí entrou a minha persistência. A cada dia eu ia dando uma opinião aqui, outra ali. Tem pouco tempo para falar em televisão, então é importante falar o correto, o que é pertinente ao que está sendo discutido. Fui trilhando esse caminho aos poucos."

De maquiagem e salto fino até em casa

"Sempre fui uma mulher vaidosa. Eu sou alta, gigante, tenho mão grande, pé grande, perna comprida. Eu sou uma mulher over. Então, eu apareço. O meu estilo é cabelão, maquiagem, salto fino. Eu gosto disso! Pode ser um domingo de manhã, eu não estou trabalhando, não vou aparecer para ninguém, mas estou assim. Então, não podia tirar isso da televisão, não podia mudar meu estilo. Agora vou aparecer de tênis, camisa polo e jeans? Nada contra, mas o meu estilo não é esse. Nunca segui um padrão ou copiei alguém para tentar vencer na televisão. Acho que cada um tem a sua personalidade, tem a sua maneira de trabalhar. É importante ser fiel ao que é verdadeiro.

Mas sempre fui resistente -- não para ser do contra, mas para ser revolucionária. Para ser autêntica. Jogadores, treinadores, enfim, o mundo da bola me olhando e questionando: quem é essa mulher? O que ela tem a dizer? E é tão legal depois de 15 anos de carreira perceber que foi uma fase de desconfiança natural. As pessoas têm o direito de questionar o meu papel. E a primeira resposta veio com o convite da Band, feito por uma mulher muito revolucionária, que foi a Elisabetta Zenatti, minha diretora artística na época. Ela é italiana e via nas TVs de lá mulheres comandando programas de esporte. Aqui no Brasil, isso ainda não existia."

Tinha aquela coisa da sociedade que enxerga o homem como produto principal do futebol. Mas ela [Elisabetta Zenatti, diretora artística] achava que uma mulher, se fosse a mulher certa, com personalidade e capacidade para enfrentar os desafios, poderia funcionar. Era meu destino.

Renata Fan

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O machismo está nos detalhes

"A primeira entrevista que dei quando fui contratada pela Band foi para a Folha de S.Paulo e seria feita por uma jornalista mulher. Quando cheguei, além da jornalista, o editor de esportes também estava lá. Eles não tinham me avisado nada, sentaram e falaram: 'Vamos fazer um quiz'. Era para ser uma entrevista, não um quiz.

Lembro que eles me perguntaram se eu sabia que estádio brasileiro tem o nome de Mário Filho e quem era Carlos Bledorn Verri. Eu sabia, claro, era o Dunga, do Inter, meu ídolo e técnico da seleção brasileira naquele momento. Eu saí da entrevista feliz, porque eu tinha ido bem, mas completamente transtornada e revoltada porque aquilo nunca seria feito com o Datena, com o Milton Neves, com o Flávio Prado. Com ninguém. E, se eu tivesse ido mal no quiz, você sabe qual teria sido a manchete.

Então, ao mesmo tempo em que eu me senti naquele dia ultrajada, eu tentei amenizar isso. Eu falei: 'Peraí, eles querem saber que mulher é essa. Será que a Band escolheu alguém aleatoriamente? Ou será que foi uma escolha criteriosa?'. E eu acho que depois de 12 anos, a resposta já foi dada. Mas foi um momento em que eu pensei: 'Preciso me preparar mais, preciso me antecipar às pessoas, preciso mostrar o que eu sei e não me sentir desprotegida ou desgovernada em uma situação dessas'. Aquele foi o meu primeiro teste, mas eu tive muitos outros."

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Competência não tem a ver com gênero

"É muito legal quando você vê mulheres crescendo, ganhando espaço, confiança e conquistando territórios. Hoje, as mulheres que se destacam vivem essa rotina esportiva, são persistentes, atentas, observam quem já está na área. E, para mim, competência não tem nada a ver com sexo masculino ou feminino, tem a ver com o profissional, com a maneira como ele se prepara, como ele trabalha, como ele estuda, como vive o dia a dia. Eu só vou gostar de ser mulher no futebol ou no esporte quando me tratarem igual aos homens.

A mulher tem que batalhar pelo seu espaço, sim, mas ela tem que fazer também a manutenção desse espaço. E ela tem que fazer isso sendo melhor, se superando. A gente sabe que é assim! Não adianta ficar todo dia chorando. Vamos lá, vamos trabalhar. E tem mulheres fazendo isso, que me orgulham muito. Os homens também entenderam que elas conhecem esporte, que são detalhistas, observadoras, que elas têm uma gana muito grande de fazer algo diferente, algo inovador. Eu sei que as injustiças acontecem, já me aliei a muitos movimentos, porque acho que eles são todos importantes para que a gente se fortaleça, mas acho também que a pessoa tem que superar as barreiras e levantar a cabeça. Quero ser uma grande profissional? A iniciativa é minha. É assim que eu penso."

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Minha cabeça é sempre assim: eu não sei se eu tenho médico, se eu tenho academia, mas eu sei que tenho jogo. A agenda do futebol está sempre na minha cabeça, até para selecionar o que é mais importante. É trabalho? É trabalho, mas não só. Vejo por semana uma média de 16 a 18 jogos, desde 2003. E eu adoro isso! 

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Cantadas recusadas e um namoro firme

"Eu já recebi cantadas indiretas. De alguém vir me falar: 'Renata, fulano de tal acha você linda, inteligente. Tem alguma chance?'. Não tem. Faz dez anos que eu namoro, as pessoas sabem que eu sou comprometida [com o piloto de stock car Átila Abreu]. Então, como não dou abertura, ninguém nem chega até mim dessa maneira. Lá no passado já rolou, mas nunca diretamente. Eu percebia e pensava: 'Será que eu imponho respeito? Que bom né!'.

Conheço jornalistas que se relacionaram no meio do futebol e que não expuseram isso porque tiveram medo de ser taxadas de Maria Chuteira e tantos apelidos que existem. Acho injusto. Se eu me apaixonasse por um jogador de futebol e a gente pudesse falar disso o dia inteiro, seria uma maravilha. Não aconteceu, escolhi um piloto. Mas eu também gosto de automobilismo."

Assumir o time que torce

"Antes de eu estrear, o meu diretor da época me chamou e sugeriu que eu adotasse um time de São Paulo. Isso foi no meio da semana. No domingo, a primeira pergunta do Milton Neves no "Terceiro Tempo" (Record) foi: 'Para que time você torce?'. Eu respondi Internacional. O meu diretor gritava tanto no meu ponto eletrônico que eu não tenho nem coragem de reproduzir agora [risos]. Pensei que fosse ser demitida logo no primeiro dia, mas, quando o programa terminou, ele apareceu e disse que tinha sido bom, tinha dado audiência e nunca mais tocou nesse assunto. Acho que foi melhor, porque eu nunca precisei esconder nada."

Aprendendo a descontrair

"Na verdade, eu aprimorei algumas ideias ao longo do tempo. A minha preocupação maior durante os meus primeiros cinco anos de carreira era justamente mostrar para as pessoas que eu tinha conhecimento de futebol e podia opinar sobre. Queria mostrar que uma mulher podia estar ali com legitimidade. Depois disso, passei a me preocupar em ser mais natural, mais espontânea. E quem me ajudou muito foi a equipe, principalmente o Denilson [parceiro dela na apresentação do programa]. Ele sempre teve essa característica solta, leve? Como a gente ia engessar o Denilson? E fiquei mais leve. Nunca me senti mal com as brincadeiras."

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"Quando o Inter perde, tenho problemas de concentração e humor. Eles viram isso e começaram a usar no programa. E eu perco a cabeça. Quando mexem com o Inter, me tiram do sério. O resto eu lido numa boa, mas falar mal do meu time me desgoverna. E eu sei que tem muita gente que é igual e se identifica comigo, homens e mulheres."

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Inspiração para outras mulheres

"Exemplo, inspiração, não sei se posso usar esses termos, mas eu certamente encorajei mulheres a persistirem no jornalismo esportivo. A acreditarem em longevidade, a construírem uma identidade. Mulheres que estavam realmente imbuídas de fazer algo com paixão, com amor, com devoção, de enfrentar o dia a dia, de enfrentar as desconfianças e qualquer coisa negativa que por ventura surgisse no caminho.

Nunca trabalhei para ser premiada, eu nunca trabalhei para referência de ninguém. Sempre trabalhei para ser feliz. Sou muito feliz no que eu faço. Hoje, eu não quero só inspirar mulheres. Quero inspirar homens também. Espero que os homens olhem para o meu trabalho e digam que é algo digno, merece destaque e realmente produz efeito nas pessoas. Trabalho muito, viajo pouco, todos os feriados estou ao vivo na TV.

Mas foi o que escolhi, ninguém me obrigou a nada. Eu tenho a chance e o privilégio de ser feliz trabalhando com esporte e futebol. Gente! Que vida eu poderia querer? Na próxima eu quero tudo isso igual! E quero ser colorada de novo, viu?"

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