Aula de swing

O que aprendi no curso teórico e prático sobre troca de casais

Laura Reif Colaboração para Universa
Larissa Zaidan/Universa

Em um sábado de manhã, fui a um hotel em São Paulo, na região do Brooklin Paulista. Acompanhada do meu namorado, caminhei até a sala de reuniões em que encontrei cinco casais, entre 30 e 40 e poucos anos, sentados atrás de mesas. Sérios e bem arrumados, eles aguardavam a apresentação de Power Point que teria início em poucos minutos. Apesar do clima corporativo, o tema da discussão, que duraria das 9h às 17h, provoca risinhos desconfortáveis nas rodas de conversas fora dali. Passaríamos a tarde discutindo e aprendendo mais sobre a arte do swing, prática conhecida como troca de casais. 

Uma mulher loira, alta e magra me cumprimentou e agradeceu a presença do casal de repórteres que foi participar do workshop ministrado por ela e pelo marido. Eles são Marina e Marcio (nome que usam nas casas do ramo), casal conhecido na cena swinger de São Paulo, e do Brasil, por vários motivos. Um deles é o pioneirismo em criar a aula teórica para casais que querem entender melhor como funciona uma casa de swing antes de se aventurararem no mundo chamado de "liberal".

Confesso que tive um pouco de medo em me colocar numa sala com outros casais com a promessa de aprender sobre swing. Por uns instantes rolou aquele pensamento "eita, oito horas com um pessoal que está ali para transar??" e fiquei apostando comigo mesma em quanto tempo aquilo viraria um bacanal e eu e meu namorado teríamos que sair correndo. Mas não, troca de casais é coisa séria. É uma prática pensada que você leva para dentro de um relacionamento, não é (só) brincadeira.

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Donos de um blog em que contam aventuras eróticas e particularidades do universo liberal, Marina Marcio são procurados por muita gente que tem curiosidade e dúvidas. A ideia então foi reunir todo mundo em uma sala, fazer uma apresentação de slides e conversar sobre o assunto (além de, claro, ganhar dinheiro com isso). As aulas são oferecidas periodicamente a cada dois ou três meses e custam R$ 330 por casal. O preço inclui também almoço, café da manhã e da tarde e a entrada para uma boate liberal no bairro paulistano de Moema, São Paulo, a Hot Bar.

Ela é psicóloga e musicista e ele é profissional de T.I. Os dois passam o tempo livre entre a rotina em família e a vida nas casas liberais pelo Brasil. Os parentes e filhos não fazem ideia da identidade secreta deles. Casados há 19 anos, fazem troca de casais há uma década.

Na tal sala de reuniões, sentei ao lado de meu namorado. Pegamos um café e um pão de queijo e aguardamos o início da aula em silêncio. Em minhas anotações, descrevi meus colegas do swing como "tímidos", "calados" e vestindo "roupas até que discretas". Na aula todos os casais eram heterosseuxais, mas Marina garantiu que já participaram do curso casais LGBT.

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Bacanal é cultura

Em aula, passamos pela história das orgias. Os professores explicam como na Roma Antiga já era hábito realizar sexo grupal e como a igreja católica ajudou a impor uma série de preconceitos sobre esse tipo de prática ao decorrer dos anos. Marcio falou com naturalidade sobre Sodoma e Gomorra, cidades que, segundo a Bíblia, foram destruídas por Deus devido à prática de atos imorais. "Até em Sodoma e Gomorra tínhamos troca de casais", disse, de maneira casual.

"Agora quero que cada um olhe para seu parceiro nos olhos. Digam que se amam. Homens, dêem um abraço nas suas parceiras", ordenou Marcio. Recebi um abraço e aguardei as próximas instruções. "Mulheres. Agora façam um boquete no parceiro de vocês", continuou o professor. Depois de um momento de hesitação, ele riu e explicou que o pedido foi um quebra-gelo. Contou então que o remédio mais eficaz para qualquer problema é uma boa sessão de sexo oral. Os alunos riram e começaram a se soltar e a participar mais.

Em um momento, Marina, vestindo um look que poderia ser usado por uma executiva de qualquer empresa, fez uma pergunta: "Me descrevam com um adjetivo". Alguns a chamaram de séria, de intelectual. Um homem a chamou de "gostosa". Ele e a companheira vieram de Barretos para a aula. Com sotaque típico do interior de São Paulo, ele disse que a esposa era "toda recatadinha", mas na casa de swing virava uma "biscate mesmo". "Assim que é bom!", brincou Marina em resposta.

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A professora, então, rapidamente se despiu, exibindo o corpo escultural. Nua na frente de todos e mostrando estar muito segura em relação a isso, colocou um vestido justo, curtíssimo, e completou o visual com sapatos de salto alto superchamativos, chutando para longe os scarpins nude que estava usando antes. Ela refez a pergunta. "Safada" e "mais gostosa" foram as novas características atribuídas a Marina por seus pupilos. Com isso, ela ensinou que podemos ser sérios, intelectuais e também explorar a sexualidade livremente. Por que não?

Fizemos até atividades escritas, dinâmicas de grupo e respondemos a um questionário sobre o dicionário do swing, que possui vocabulário específico. Além disso, pediram para que eu e meu namorado escolhêssemos um "nick", nosso nome de casal. Optamos por Equipe Rocket.

Um ponto importante que Marina e Marcio trouxeram, foi a questão do diálogo. Eles deram conselhos que valem para todos os aspectos da vida de um casal, não só na hora de experimentar a tal da "vida liberal". Um dos mais importantes foi sobre não se submeter a uma situação que não seja vontade dos dois (ou três, se for um trisal, formação que eles também explicaram na aula). "Não adianta você ir pro swing porque seu marido está afim se você não está curtindo", explicou Marina aos estudantes. Parece óbvio, mas quantas vezes não escutei das minhas amigas que elas fizeram alguma coisa (e nem estou falando de sexo) que não queriam nem um pouco só para agradar o boy?

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Swing é evolução

O casal-professor pediu que os alunos delineassem a personalidade de cada um. Para isso, é preciso responder perguntas como alguém é tímido? Qual é o estilo de sexo do casal: "amorzinho", "performático" ou "fodeção"? Também é preciso definir objetivos. O casal que fazer o full swap, que é a troca total de casais, ou só observar? Como funcionam os ambientes em uma balada liberal? Por exemplo, bar, pista de dança, cabines privativas, quartos com janelas de vidro para os exibicionistas, espaços comuns onde todos transam em um mesmo local?

Até quem não se interessa pelo assunto swing deveria passar pela orientação de Marina e Marcio sobre IST?s [Infecções sexualmente transmissíveis], sobre ética, assédio e cuidado com o consumo de drogas e bebidas. "Swing é evolução, como tudo na vida", bradou Marcio.

Recentemente, aliás, o casal postou em seu perfil nas redes sociais que realizaram os exames de saúde anuais, se certificando que os cuidados contra ISTs estão surtindo efeito. Marcio explicou a importância de cobrar o uso de preservativos antes da transa e que ele sempre fica de olho no homem que está se relacionando com a esposa durante o ato, para evitar que role um possível stealth [prática de retirar a camisinha no meio da relação sem avisar a parceira ou o parceiro].

Ele brincou com a situação, imitando como seria esse diálogo olhando para a genitália de um cara que está "ocupado" com sua esposa: "Ei, cara, deixa eu ver aqui? Sim, beleza, tudo certo, pode continuar". Mas Marina retomou o tom sério e disse que, pela vida sexual mega ativa deles, se não fosse pela camisinha, já teriam morrido. Achei pesado, mas pensei com quantas pessoas eles se envolveram em 10 anos de swing e concluí que é uma conta que não consigo nem fazer. Jovens, escutem o conselho do casal experiente e usem camisinha, por favor. E cuidado com a bebida! "Ninguém quer transar com uma pessoa caindo de bêbada, né? Pior, não tem como transar se você dormiu", brincou Marina sobre o pessoal que abusa das bebidas e não consegue curtir a noite. Anotei para não esquecer disso no próximo carnaval.

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Colocando o aprendizado em prática

Um dos lemas da vida liberal é "Yes Swing, No Traição". A ideia é compartilhar as experiências sem esconder nada do outro. "Nossa principal regra é: sempre juntos", afirmou o Casal Catena, que participou do workshop, mas é experiente na área e tem amizade com Marina e Marcio há tempos.

Uma balada liberal é como outra qualquer, mas nos fundos da casa há dois andares com cômodos para transar. A pista de dança possui mastros para pole dance e logo Marina já se encontrava nua, dançando no palco, ao lado de outras mulheres com calcinhas fio dental.

Os casais da aula foram chegando e explorando o lugar. Um deles veio de Minas Gerais só para fazer o curso -- umas das pessoas mais tímidas que já conheci. Eles haviam estado em um swing uma vez, mas reclamaram que em Belo Horizonte é difícil encontrar baladas liberais. Até onde observei, eles não ficaram com ninguém e preferiram não posar para nossas fotos.

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Outro casal, que se intitula Casal Coelho, aceitou aparecer nas fotos. O Marido, T., 33, contador, acariciou as pernas de C., 34, médica, e permitiu uns cliques, mas só do pescoço para baixo. A identidade de quase todos é sigilosa, por conta de trabalho e família. Eles foram embora lá pelas 3h da manhã sem transar. 

O Casal TP, que também estava no workshop, já pratica swing há dois anos, mas nunca fez o "full swap". Em pouco tempo, eles desapareceram nos corredores escuros da Hot Bar. Não foi aquele dia que realizaram a fantasia do full swap, revelaram no fim da noite. Mas pelo sorriso que exibiam, haviam se divertido bastante.

Mulheres vestidas de coelhinhas passavam saltitando aqui e ali e houve um momento no qual um homem vestido de robô -- um robô brilhante com luzes verdes de led -- brilhava no meio da pista dançando. A exibição faraônica é um retrato do estilo de vida liberal. Sem medo de ser extravagante.

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Uma dupla que não fez parte da aula, o casal bissexual Milky e Red Velvet, quis participar da reportagem. A menina, de 19 anos, em pouco tempo andava só de calcinha e o namorado de 24 anos reclamava do excesso de roupas: "Quero ficar pelado!" Respondi automaticamente um simplório "Fica, ué". Ele tirou a camiseta e os dois posaram para foto. E, começou a performance.

Antes, eles contaram que se conheceram em uma outra casa de swing há cerca de um ano. Foi impressionante ver a liberdade que o casal tem e como eles curtem sexo com uma vontade tão natural. Acho que a idade deles me chocou, pois contrastavam muito no meio dos swingers, que aparentavam ter uns 30 anos. Ela vestia (por um curto período) uma calça de couro vermelha, diferente dos vestidos tubinhos que decoravam os corpos curvilíneos das mulheres da balada. Devo pontuar que, com a devida comunicação e respeitando os limites do outro, os casais swingers parecem mais conectados do que muitos casais PB ["Preto e Branco", aqueles que não fazem parte do mundo colorido do swing] que vemos por aí.

Algo que notei no swing foi a falta de assédio. As mulheres podem andar com pouca ou nenhuma roupa, mas ninguém as toca sem que haja uma aproximação clara. Nenhuma pessoa ali tem medo de se expor e não é só por uma questão de exibicionismo, é por conta de segurança.

Todos ali têm empregos, família, filhos e amigos. Marina e Marcio explicaram que é comum os swingers manterem essa identidade em segredo, mas não só por conta do preconceito das pessoas "de fora". O lance é ter um segredinho íntimo. O Casal TP resumiu a vida swinger: "A melhor coisa é quando a gente sai daqui conversando sobre a noite, para no McDonald's, vai dormir e acorda com tesão." Parceria é isso mesmo, né?

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