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Direitos da mulher


Francesas aderem ao movimento "No Bra" e começam a descartar uso de sutiã

RFI
Imagem: RFI

Da RFI

2018-12-21T20:11:13

21/12/2018 20h11

Adeus bojos, alças, armaduras! Libertar-se deste acessório que se tornou uma obrigação às mulheres no mundo inteiro é uma tendência que teve início nos Estados Unidos e que ganha forte apoio na França. O movimento "No Bra" ("Sem Sutiã") ganhou até mesmo uma versão em francês: "Sans Soutif".

Adeus bojos, alças, armaduras!

Nas redes sociais, as hashtags relacionadas aos movimentos ganham a cada dia mais popularidade desde que ícones pop, como a cantora Rihanna ou as atrizes Jennifer Lawrence e Emma Watson, tiveram a iniciativa de posar nos tapetes vermelhos sem sutiã. Da brincadeira #NoBraChallenge (desafio sem sutiã), descartar o acessório centenário por convicções feministas ou por uma questão de saúde conquistou as francesas.

Ironia do destino, foi na França que nasceu o soutien-gorge -- como o acessório é chamado em francês, ganhando também o diminutivo soutif. A designer de espartilhos Herminie Cadolle propôs dividir suas criações em duas partes, com o objetivo de dar mais conforto às mulheres. A peça foi apresentada pela primeira vez na Exposição Universal de Paris, em 1889, sob o nome de Bien-Être (bem-estar).

Mas, longe de ser associada ao bem-estar, em 1904, a criação passou a ser comercializada com o nome de mantien-gorge, que ao pé da letra poderia ser traduzido como "retenção da garganta" em português. No entanto, de acordo com o Dicionário Histórico da Língua Francesa, de autoria de Alain Rey, a palavra gorge (garganta) seria um eufemismo para se referir aos seios.

Décadas de sutiã, décadas de opressão da mulher

Décadas se passaram e a peça se transformou conforme a moda de cada época, sem nunca se adaptar, de fato, ao conforto das mulheres. Ao contrário, o sutiã é frequentemente associado a uma forma de opressão do corpo feminino, sob a justificativa de evitar os efeitos da gravidade sob os seios.

Não foi à toa que o sutiã foi utilizado como ferramenta de um célebre protesto de feministas, em 1968. Ao contrário da lenda, entretanto, as militantes da emblemática manifestação contra o concurso Miss America não queimaram sutiãs -- um falso relato criado pelos jornalistas que cobriram o evento.

Organizado pelo coletivo New York Radical Women, a manifestação oferecia a possibilidade para as mulheres atirarem em uma lixeira objetos e produtos femininos que julgassem desnecessários -- tais como produtos de beleza e lingeries, entre os quais os sutiãs não escaparam.

Não imaginavam as feministas de Nova York que nos anos seguintes, não apenas os concursos de beleza feminina continuariam sendo realizados, como os sutiãs continuariam a apertar seios, ombros e costelas das mulheres, para nutrir ideais de beleza cada vez mais inalcançáveis.

Os bojos ficaram cada vez mais estufados e suportados por moldes de metal ou plástico para dar a impressão de seios arredondados. Não bastasse as espessas camadas de espuma ou silicone -- que viraram praticamente uma regra dos sutiãs nos anos 2000 -- a marca americana Wonderbra popularizou o push-up: mecanismo que promete levantar os seios para criar mais volume.

Um ano sem sutiã

Qual é o problema da sociedade com os seios naturais? Foi essa a questão que a estudante francesa Lyse, de 20 anos, começou a se fazer quando decidiu abolir de vez o uso do sutiã, há quase um ano. Em seu canal no YouTube sobre lifestyle, a garota conta que uma das primeiras reações contrárias veio da própria mãe.

"Um certo dia minha mãe percebeu que eu não estava usando sutiã e me perguntou se eu tinha esquecido dele. Respondi que não, que havia decidido não colocá-lo mais. E aí foi um drama. Para ela, a ideia era inconcebível. A primeira coisa que minha mãe me disse foi que meus seios iriam cair. Para ela, realmente, minha iniciativa não pareceu muito normal", explica a jovem no vídeo.

Em entrevista à RFI, Lyse afirma que decidiu fazer o vídeo ao perceber o quanto o assunto ainda é tabu na sociedade francesa. "Temos a tendência de hipersexualizar os seios e por isso o uso do sutiã se tornou obrigatório -- e não é. Estamos nos dando cada vez mais conta que esse acessório é, na verdade, totalmente supérfluo", avalia.

Prova disto é que a estudante passou a ser procurada por seus followers para ter mais informações sobre a experiência de se libertar do acessório. "Tive muitos bons retornos. Muitas garotas vieram me dizer que elas também tinham vontade de não usar mais sutiã. Outras afirmaram que se engajaram em uma experiência similar à minha e que se sentem realmente melhores depois que pararam de usá-lo", comemora Lyse.    

Sans Soutif ou No Bra

Na internet, multiplicam-se outras iniciativas que tratam do assunto e se integram ao movimento. É o caso do grupo "Sans Soutif / No Bra", no Facebook, idealizado pela artesã francesa Alwina, de 45 anos, e gerenciada por várias moderadoras. O espaço serve para compartilhar informações sobre as vantagens do abandono do sutiã, além de reunir depoimentos e propor discussões com mulheres que resolveram investir na experiência.

À RFI, Alwina contou que resolveu criar o grupo em 2016, antes mesmo que o movimento "No Bra" conquistasse as redes. "Foi logo depois que eu abandonei o sutiã. Na época, me dei conta que ninguém falava publicamente sobre os inconvenientes e o sofrimento relacionados ao sutiã: hoje sabemos que ele é inútil? Pensei que talvez, criando um grupo, poderíamos discutir o assunto, permitindo àquelas que não o utilizam mais se sintam menos isoladas, e aquelas que hesitam em aderir à ideia e que têm medo, podem encontrar testemunhos e conselhos para dar esse passo adiante", afirma.

Um passo adiante que a artesã realizou em 2012, ao perceber o quanto o acessório não fazia diferença em sua vida. "Tenho 45 anos, três filhos e seios muitos grandes que caíram com o tempo, apesar do uso do sutiã, que foi deixado de lado por acaso. Certo dia, estava acampando em um evento medieval. De manhã, me vesti rapidamente e esqueci de colocar sutiã. Só quando estava do lado de fora da barraca, me dei conta. Perguntei a meu marido se dava para notar que estava sem sutiã e ele me disse que não. Então comecei a me perguntar porque eu me incomodava com as alças que caem todo o tempo, os elásticos que apertam, os bojos que nunca têm o bom tamanho, todo o dinheiro gasto? e nunca mais usei sutiã."

Para Flora, uma das moderadoras do grupo "Sans Soutif / No Bra", as mulheres não chegam a se questionar sobre a finalidade do acessório. Observando sua experiência própria e as das integrantes da página, ela diz perceber que é a sociedade que impõe o uso do acessório.

"Sou uma mulher e me colocaram um sutiã me dizendo que, se você tem seios, tem que usar sutiã. Mesmo que seja desconfortável, todos afirmam que usá-lo é o mais correto. É o peso da sociedade que nos obriga a manter esse 'colete de força'. Penso que você pode gostar de lingerie para ser sexy, para se divertir, para seduzir, mas ninguém pode obrigar as mulheres a usar algo que as indispõe, incomoda e oprime", salienta.

Pesquisador afirma que sutiã é prejudicial aos seios

O médico do esporte Jean-Denis Rouillon, professor emérito da Universidade de Franche-Comté, no leste da França, é um dos raros pesquisadores a estudar o impacto do uso do sutiã para a saúde das mulheres. Em mais de 25 anos de trabalho e o acompanhamento dos seios de mais de 300 voluntárias - mulheres de 18 a 40 anos - o especialista chegou à conclusão de que o sutiã não tem nenhum poder de evitar os efeitos da gravidade. Além disso, pode prejudicar os seios.

"Tive a surpresa de constatar que em mulheres que não usavam sutiã há muito tempo, os seios não caíram, como tanto se ouve. Ao contrário, eles até melhoraram depois que elas deixaram de usar esse acessório", explicou à RFI.

Nos vários critérios morfológicos analisados por Rouillon --como elevação, flacidez, tamanho, presença de estrias, qualidade dos músculos peitorais, circulação do sangue -, "tudo melhorou nos seios das mulheres que deixaram de usar sutiã. Em algumas das voluntárias, os peitos chegaram a subir até sete milímetros", ressalta o especialista. "Esses resultados estão em contradição com o que todo mundo pensa: que uma mulher que deixa de usar sutiã vai ter seios caídos. Na verdade, não apenas eles não caem, como eles melhoram", diz.

O professor defende ainda que o uso de sutiã prejudica os tecidos e os ligamentos peitorais. "O sutiã coloca os seios em estado de repouso. E, como em todas as partes do corpo que são colocadas nestas circunstâncias, os elementos anatômicos de suspensão dos seios - constituídos por tecidos conjuntivos ? se degeneram porque deixam de trabalhar".

Outro fator avaliado pelo especialista em suas pesquisas é o quanto o sutiã prejudica a circulação do sangue. "Os push-ups, principalmente, comprimem o sangue e impedem a oxigenação. Esse tipo de pressão é catastrófica para a saúde dos tecidos", salienta, lembrando que muitas mulheres notam a melhora de sua postura e até mesmo da respiração ao descartar o uso do acessório.

Para finalizar, outro fator jamais considerado é a interferência na temperatura dos seios, que, segundo Rouillon, é de 33°C. "O sutiã - sobretudo se é estufado - tem armaduras de metal ou plástico, tem diferentes tecidos e matérias, e isso aumenta a temperatura natural dos seios. Desta forma, a pele se degenera mais rapidamente do que o normal", afirma.

Segundo o médico, o que realmente ajuda a lutar contra os efeitos da gravidade nos seios são os exercícios físicos. Em quase três décadas de pesquisa, o especialista é categórico ao afirmar que a prática de esportes é implacável para a saúde e o aspecto físico dos seios, especialmente as atividades que fazem os seios se mexerem, como a corrida, por exemplo.

"A mulher mais velha a participar de meus estudos, com 62 anos, percebeu que seus peitos se ergueram com a prática de exercícios físicos. Eu mesmo pude constatar essas mudanças registrando suas medidas antes e depois. Ou seja, o fato de, mesmo aos 62 anos, essa voluntária ter parado de usar sutiã e de ter intensificado as atividades físicas, melhorou a aparência e a saúde de seus seios", garante