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Mulheres inspiradoras


Mulheres inspiradoras

1ª bailarina Cecilia Kerche brilha nos 110 anos do Theatro Municipal do RJ

Arquivo Pessoal
Cecilia Kerche é diretora do Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro Imagem: Arquivo Pessoal

Alan de Faria

Colaboração para Universa

2019-07-12T04:00:00

12/07/2019 04h00

O Theatro Municipal do Rio de Janeiro, um dos patrimônios históricos da cidade, comemora 110 anos no próximo dia 14. Diversas atrações têm sido encenadas por causa do aniversário, e a principal delas será a apresentação da ópera "Fausto", que reunirá coro, orquestra e o balé da instituição, nos dias 14, 17, 19, 21, 24, 26 e 28. A ópera, obra-prima de Charles Gounod, está ausente dos palcos cariocas há quase meio século.

Uma das principais comandantes desse show é a diretora artística do Ballet do Theatro, e um dos grandes nomes da dança clássica brasileira, Cecilia Kerche.

À frente do incensado grupo desde 2015 --e, até fevereiro deste ano, dividindo a função com outro pilar da dança clássica nacional, Ana Botafogo -- Cecilia, que dança há 50 anos, é também Embaixatriz da Dança pelo Conselho Brasileiro da Dança e representante oficial do Brasil do Conseil International de La Danse, da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).

A história de Cecilia no Theatro Municipal carioca começou, entretanto, muito antes; mais precisamente, em 1982, quando ela ingressou no corpo de balé da instituição. Três anos depois, foi promovida à primeira bailarina da companhia. Ao longo dessas décadas, protagonizou inúmeras vezes, por exemplo, "O Lago dos Cisnes" e foi reverenciada como uma das principais intérpretes da peça. Por seu apuro técnico, foi convidada a se apresentar na Rússia, terra natal do clássico.

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

"Dançá-lo na terra dos cisnes emblemáticos de várias gerações era, no mínimo, de dar medo. Eu me apresentei em quatro companhias russas. Ter feito isso no fim da década de 1980, e depois, em 1995, em homenagem a Rudolf Nureyev (bailarino e coreógrafo russo) e convidada por Natalia Makarova (bailarina russa) foram marcos de minha carreira", relembra Cecilia.

"Cecilia é a imagem da bailarina clássica pela elegância dos gestos, musicalidade e interpretação. Em 'O Lago dos Cisnes', seus braços se tornam asas e, no ritmo da dança, sentimos toda a beleza e dramaticidade deste grande espetáculo", diz a diretora artística da São Paulo Companhia de Dança, Inês Bogéa, que em 2013 dirigiu a série "Figuras da Dança", que trouxe Kerche como protagonista de um episódio.

Ao longo da vida profissional, Cecilia também dançou em importantes corpos de baile internacionais, como o English National Ballet da Inglaterra, o Balé Estável do Teatro Colón da Argentina e o Balé Nacional de Cuba.

Natural de Lins, cidade do interior de São Paulo, a artista deu os primeiros passos no balé, ainda criancinha, por causa de um acontecimento gracioso. Sua irmã mais nova, Greice, começou a fazer aulas de dança porque um ortopedista garantiu à mãe das meninas que a prática a ajudaria a deixar de "pisar para dentro". Quando viu o collant, a meia e as sapatilhas da irmã, achou tudo "uma gracinha" e pediu para a mãe colocá-la no curso também.

Cecilia (58), Greice (57) e o irmão Luis (54) tornaram-se todos bailarinos profissionais.

"Ver os bailarinos da minha companhia em cena é a continuação da minha dança por meio de seus corpos", diz Cecilia, que se aposentou dos palcos em 2016. "E quando digo 'minha companhia', me refiro a um sentimento de pertencimento, e não de posse. Sei que o BTM (Ballet do Theatro Municipal) vai continuar a minha história e de outros que me antecederam", diz ela. Sua despedida foi apresentando uma coreografia assinada pelo alemão Uwe Scholz (1954-2004) para a "Sétima Sinfonia", de Beethoven.

A relação com Ana Botafogo

Julia Rónai/Divulgação
Cecilia Kerche e Ana Botafogo Imagem: Julia Rónai/Divulgação

Em todas essas décadas de Municipal, além das alegrias da profissão, Cecilia enfrentou também os problemas econômicos que atingiram o estado do Rio de Janeiro e, consequentemente, a programação do Theatro em 2017.

Naquele ano, houve atrasos no pagamento de salários, paralisações de funcionários e uma série de espetáculos tiveram de ser cancelados. "A crise deixou cicatrizes que até hoje marcam muito tristemente a linda história do BTM", lamenta. "Mas esse grupo, apesar das questões difíceis, tem defendido com galhardia o legado e a responsabilidade de ser a terceira companhia mais antiga das Américas", defende a diretora.

"Havia dias em que apareciam 20 bailarinos e, outros, só cinco. Mas eu e a Cecilia, como diretoras artísticas e responsáveis pela companhia, íamos todos os dias, estávamos sempre lá para ajudá-los e ensaiá-los. Bailarinos precisam de um piso adequado, de uma sala grande e de trabalhar em conjunto", diz Ana Botafogo.

Cecilia e Ana são contemporâneas. "Antes de ela entrar para a companhia (no Theatro Municipal), lembro-me de tê-la visto dançando em São Paulo, em uma montagem de 'Giselle'. Sua técnica me chamou bastante a atenção. Ela já era uma artista promissora e bastante talentosa. Era o que todos diziam", conta Ana, 62, que se tornou primeira bailarina do corpo de baile carioca antes de Cecilia, em 1981.

A saber: o balé tem mais de uma primeira bailarina porque, na eventualidade de uma ter de se apresentar fora do país, outra assume o papel em uma temporada no Brasil, por exemplo. Quando Cecilia se tornou primeira solista do Municipal havia outras no posto, que permaneceram na posição: Ana Botafogo, Aurea Hammerli, Nora Esteves, Cristina Martinelli, Alice Colino e Heliana Pantoja.

Cecilia e Ana participaram de várias montagens juntas. Rivais? Elas garantem que não. "Éramos escaladas para os mesmos papéis", fala Kerche. "Cada diretor artístico e coreógrafo escolhia com quem trabalhar, não necessariamente a primeira solista da companhia", completa Botafogo.

Determinação

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Imagem: Arquivo Pessoal

Como é do DNA das grandes bailarinas, a obstinação fez parte da formação de Cecilia. "Fazia aulas e ensaios todos os dias; só tinha folga de domingo", relembra a artista, que, jovenzinha, prometeu a si mesma se tornar primeira bailarina do Theatro Municipal carioca até os 25 anos. "Precisava manter a promessa para mim, para meu marido (o também bailarino Pedro Kraszczuk) e para os meus pais, os maiores apoiadores nesta jornada", diz ela.

Quando tinha 16 anos, Cecilia rompeu os ligamentos de um dos tornozelos e alguns médicos disseram que ela não poderia mais dançar na ponta do pé. "Fiquei engessada quase um ano na tentativa de fazer com que os ligamentos se religassem. Fiz também fisioterapia na água", relembra Kerche, que, em sua trajetória, ainda enfrentou intervenções médicas nos dois joelhos, dois pés e no quadril.

Até aposentar as sapatilhas, a ainda primeira bailarina do grupo (o cargo nunca deixa de ser delas), Cecilia chegava com três horas de antecedência ao teatro e seguia um ritual: tomava café, maquiava-se devagar, se aquecia, preparava as sapatilhas, ia para coxia e, até entrar em cena, caminhava de um lado para o outro. E depois? "Revia a apresentação, de preferência em câmera lenta, para analisar os erros, muito claramente".

O marido, também bailarino

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Imagem: Arquivo Pessoal

Pedro Kraszczuk teve papel fundamental na formação de Cecilia. "Eu o conheci em 1973, quando fui à fábrica do qual ele era dono para encomendar sapatilhas de pontas sob medida", relembra a bailarina. Algum tempo depois, Kraszczuk, que já era bailarino profissional, passaria a dividir o palco e também a vida com ela -- os dois se casaram em 1980 e dançaram juntos por sete anos.

"Alcei voos internacionais por ele ter cuidado da minha carreira. Depois que parou de dançar, em 1983, devido a uma cirurgia malsucedida no joelho, ele se tornou um professor com raras qualidades", diz Cecilia. O marido viajou por vários países para adquirir bagagem e se dedicar à docência. Ele se tornou uma espécie de treinador pessoal da esposa.

"Depois das exaustivas horas de ensaio no Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, eu ainda ensaiava com ele na Escola Maria Olenewa", diz Cecilia. O casal não teve filhos. Hoje, quando não estão assistindo a balés e concertos, os dois gostam de ficar em casa, no bairro Maracanã, no Rio de Janeiro, vendo filmes e lendo, ao lado de seus dois cachorros e dois gatos.

Herança

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Imagem: Arquivo Pessoal

Iara Biderman, jornalista especialista em dança, descreve assim o papel de Kerche para a dança brasileira: "A herança do balé clássico de repertório é mantida por quem dançou estas obras e continua ensinando as coreografias para as gerações posteriores, como Kerche tem feito à frente do corpo de baile onde passou boa parte de sua carreira", afirma.

"Mesmo convidada para dançar em grandes companhias internacionais, e apesar das dificuldades da carreira, voltou e insistiu em ser uma representante da companhia carioca e do clássico do país. Com este reconhecimento, ela poderia ser a principal bailarina em qualquer lugar do mundo, mas resolveu ficar por aqui, batalhando pela dança clássica brasileira", completa a jornalista.