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Passamos a noite no aeroporto à espera das meninas da Seleção

Natália Eiras

Da Universa

2019-06-25T08:20:25

25/06/2019 08h20

Quando Poliana viu as cerca de 100 torcedoras esperando a Seleção feminina de futebol, ela travou. Olhou para fora do portão e voltou para dentro. Mas as garotas, que tinham passado a noite desta terça-feira (25) no aeroporto de Guarulhos à espera da equipe, que foi desclassificada da Copa de Futebol Feminino neste domingo (23), já a tinham visto. Elas, acompanhadas da reportagem da Universa, chegaram no portão de embarque por volta da 1h da manhã.

A ativista Andreza Delgado, 23, estava triste com a derrota da equipe brasileira quando publicou, no Twitter, um post sugerindo que torcedoras se mobilizassem para a recepcioná-las. Acordou, nesta segunda-feira (24), com muitas mensagens de pessoas que topariam a ideia. Duas delas eram a produtora e DJ Raquel Lisboa Porto, 24, e a publicitária Aline Lima, 31. "Às 11h50 criamos um grupo com 10 pessoas, por volta das 13h já tinham 150 pessoas se organizando para vir", afirma à Universa. "Não sabia que ia tomar essa proporção", diz, apontando para o grupo que começava a se formar na estação do metrô República, onde elas se encontraram por volta das 23h do mesmo dia.

Jardiel Carvalho/UOL
Imagem: Jardiel Carvalho/UOL

As participantes embarcaram em dois ônibus em direção ao aeroporto por volta da 1h. Uma caixinha de som tocava desde Iza até Raça Negra e grupo Revelação. As conversas se dividiam entre política e discussões para escolher a trilha sonora da jornada. No entanto, a música composta por Cacau Fernandes e Gabi, do time feminino do Corinthians, era uma escolha unânime. "Qual é, qual é, futebol não é para mulher? Eu vou mostrar para você, mané. Joga a bola no meu pé", entoavam. E elas falavam sério.

Bola no pé

Algumas das torcedoras gostam e jogam futebol. Uma delas é a Aline Lima, 32. Ela é publicitária, mas também é uma das fundadoras do time Bola na Trave. Por causa de sua profissão, conseguiu com a agência TB&CO os ônibus para levar parte do pessoal. "Quis fazer esse corre porque as meninas merecem pelo menos o mínimo de apoio da gente. Falei para o pessoal que, se fosse para eu vir sozinha, eu viria. Mas sozinha eu não faria esse barulho, né?", diz, apontando para a cantoria das torcedoras.

Raquel faz coro. "O ser humano sobrevive à base de motivação. Vamos abraçá-las agora para fortalecê-las para as próximas vitórias e derrotas", diz a produtora. Ela, por sinal, anda mancando e está com dois curativos no rosto. "Fiz três microcirurgias hoje para tirar verrugas. Estou toda remendada", brinca. A ex-jogadora de base de futebol diz que havia marcado os procedimentos para segunda-feira (24) porque não contava que o Brasil perderia o jogo contra a França. "Aí tive que vir cheia de esparadrapo, fazer o que? Claro que não deixaria de vir."

Medalhistas por consideração

Ao chegar no aeroporto, as 42 torcedoras que foram de ônibus foram recepcionadas pela equipe de comunicação de um banco, que distribuiu "kits de sobrevivência". "Mimos, garotas!", brincou Andreza. Depois disso, o grupo se "esparramou" no portão de desembarque do terminal 3 para se preparar para fazer cartazes e "medalhas" para entregar para as jogadoras.

A idealizadora das medalhas foi Maria das Neves, 31, diretora nacional da entidade feminista União Brasileira das Mulheres. Uma grande torcedora, ela quis mostrar que, apesar de elas não terem trazido o troféu, as jogadoras eram campeãs para as mulheres. "Queremos dar o reconhecimento para elas sobre a diferença que ela está fazendo", fala.

Jardiel Carvalho/UOL
Imagem: Jardiel Carvalho/UOL

A diferença não é só dentro do campo, mas também em outras áreas da vida da mulher. "Elas estão lutando, principalmente, por equiparidade salarial, que é algo que todas nós passamos", afirma. Por isso, ela não vê problema em chamar as jogadoras de "meninas". "A gente cria uma identificação com as garotas mais novas e cria um novo sentido para esse termo que já foi muito usado em tom condescendente."

O discurso de Marta

Depois da vontade de "consolar" as futebolistas, outra coisa que motivou as torcedoras a passarem a noite no saguão do Terminal 3 foi a fala de Marta na entrevista pós-derrota. "Eu chorei com o que ela disse. Só de lembrar eu fico arrepiada", diz a estudante Lorena Alves, 20. Líder do centro acadêmico da faculdade Cásper Líbero, ela acredita que a fala da jogadora, que se tornou a maior artilheira da história das Copas, vai mudar o futebol feminino. "Ela está mostrando que a mulher está no centro das mudanças. Olha o que fizemos aqui, sabe? Se fosse a seleção masculina, não seria necessário essa comoção", observa.

A entrevista, no entanto, precisou ser interrompida. As torcedoras descobriram que o terminal de desembarque das jogadoras havia mudado. E lá vai o grupo, agora com cerca de 60 pessoas, atravessar o aeroporto até o terminal 2. Isso, é claro, sem perder o rebolado.

Uma mão no coração, outra na consciência

Rebolado e gingado não é o que falta para o professor de fotografia Marcelo Rocha, 21. Um dos poucos homens na comitiva, sempre que o grupo começava a cantar, ele saía a sambar. A brincadeira lhe rendeu o apelido de passista.

Jardiel Carvalho/UOL
Marcelo Rocha, 21 Imagem: Jardiel Carvalho/UOL

A animação não faz jus ao fato de que ele começou a curtir futebol apenas depois de ver as meninas jogarem. "Sempre achei o ambiente do futebol muito tóxico. Aquela masculinidade, agressividade me oprimiam. E eu, como uma pessoa que não está dentro desse padrão de 'macho', acabava me sentindo excluído", conta.

Tudo mudou quando ele assistiu a um jogo de futebol feminino. "Aquilo mexeu muito comigo e fiquei me perguntando porque nunca tinha visto jogo. Coloquei uma mão no coração e outra na consciência. Percebi que gostava de futebol, eu não gostava era do ambiente desse esporte", fala.

"Oh Seleção, eu não dormi só para te ver"

Às vezes, a animação do grupo tinha intervalos em que as pessoas ou estavam no celular ou estavam cochilando pelos cantos. Isso se não acontecia ambos. Até que bateu 4h da manhã.

O primeiro voo do time estava estimado para chegar às 4h58. Mas, quase uma hora antes, a turma, agora de quase 100 pessoas, já estavam colados na grade fazendo festa para as meninas. "Oh Seleção, cadê você? Eu não dormi só para te ver", elas começaram a cantar quando o painel de desembarque informou que o voo do time havia pousado.

A ansiedade virava gritos. Uma das mais nervosas era a adolescente Karen Ferreira, 14. Ela estava esperando o voo que a levaria de volta para Baixo Vandu (ES) quando descobriu que a Seleção chegaria hoje. Jogadora de futebol em um time amador, ela quis acompanhar a festa. "Quero tanto vê-las", lamenta, preocupada com o seu embarque que começaria às 5h30.

Jardiel Carvalho/UOL
Imagem: Jardiel Carvalho/UOL

Outra que não passou a noite, mas estava animada com a possibilidade de ver as jogadoras era a advogada Vanessa Azevedo, 36. Ela e o filho Benjamin, de 6 meses, embarcariam às 8h30 para Fortaleza, mas ela aproveitou para chegar mais cedo para recepcionar o time capitaneado por Marta. "Eu amo demais futebol e é bom ver mulheres ocupando cada vez mais espaço", diz, enquanto ninava Ben, que estava usando protetores auriculares para protegerem seus ouvidos.

Pouco tempo depois, uma gritaria. Poliana havia dado de cara com a multidão e voltado para avisar as companheiras.

No raiar do sol

A primeira a sair do portão de embarque foi Cristiane. Mancando, ela acenou brevemente e foi direto para a saída. No caminho, foi abordada pela imprensa que a esperava.

Para trás, ficou Ludmilla, Andressa e Raquel. Elas pararam, tiraram foto, conversaram com as torcedoras. Assinaram camisas, posaram para fotos com elas. "A gente está grato demais", fala Andressa, sem ar. Ludmilla não consegue conversar com a reportagem. Está mais preocupada em atender adequadamente as torcedoras.

Depois, vem Poliana, que é recepcionada com uma gritaria. Letícia também. As jogadoras, as torcedoras, estão todas atordoadas, mas felizes.

Jardiel Carvalho/UOL
A jogadora Cristiane Imagem: Jardiel Carvalho/UOL

Do lado de fora, sem a multidão de câmeras em volta, Cristiane atende melhor os fãs. "A gente não esperava tudo isso. É mais gratificante do que quando ganhamos uma medalha olímpica", afirma, sorrindo. "Espero que o futebol feminino tenha ainda mais esse tipo de atenção."

Ainda na muvuca, Andreza está cheia de adrenalina. Perguntamos o que ela fará depois dali. "Vou correr no Terminal 3 para ver as outras meninas", fala, como se fosse óbvio. Mas e o trabalho? "Eu entro às 10h. Vou virada mesmo. Vale a pena."

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