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Pecado? Para povos não cristãos a prostituição era uma profissão sagrada

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A prostituição já foi uma profissão sagrada em diversas culturas do mundo antigo Imagem: Divulgação

Marcelo Testoni

Colaboração para Universa

2019-06-17T04:00:00

17/06/2019 04h00

Usar o corpo como meio de se aproximar do divino era comum para povos não cristãos da Antiguidade. Historiadores especializados em sexualidade dizem que a prostituição era sagrada para muitos, nessa época.

De acordo com Sergio Feldman, doutor em história pela Universidade Federal do Paraná, perito em Antiguidade Tardia, Cristianismo e Judaísmo e professor na Universidade Federal do Espírito Santo, a prostituição nunca foi tolerada por religiões patriarcais e monoteístas, que sempre buscaram repreendê-la.

"Nenhuma se iguala ao cristianismo, que vê o sexo como pecado. Prostitutas existiam na Antiguidade e, em culturas como Babilônia e Grécia, suas práticas eram tratadas com naturalidade. O corpo era parte importante dentro da sacralidade", explica.

Prostitutas viviam em templos

Janaina de Fátima Zdebskyi, mestra e doutoranda em história pela Universidade Federal de Santa Catarina, comenta que há evidências de práticas sexuais em templos ou em contextos ritualísticos, envolvendo diversas classes ou tipos de sacerdotisas, que serviam a diferentes deuses do panteão e se entregavam em troca de pagamentos.

"Os achados arqueológicos da cidade de Pompeia, por exemplo, mostram a existência de 'casas de prostituição'. Particularmente, em minha pesquisa, me debruço mais sobre o Antigo Crescente Fértil, em especial a região da Mesopotâmia, onde há diversidade de fontes sobre essas práticas. Na Bíblia e na Torá também são encontradas menções a essas 'prostitutas cultuais', chamadas de 'qdshah', traduzidas como 'prostitutas sagradas'", esclarece.

No livro "Além da Religião", David N. Elkins, PhD e professor da Universidade de Pepperdine, nos Estados Unidos, observa que as prostitutas da Antiguidade eram tratadas com honra e respeito por sua posição espiritualizada e compromissada, e também observa: "Em algumas culturas, de cada mulher se esperava que servisse ao menos por algum tempo no templo como prostituta sagrada. As mulheres não viam isso como uma obrigação, mas como uma oportunidade de expressar suas paixões sexuais a serviço de deuses. As donzelas assumiam o papel de prostitutas sagradas para que fossem iniciadas na feminilidade. Outras mulheres permaneciam no templo durante anos, dedicando seu corpo e sua vida".

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Inanna, principal divindade do panteão sumérico Imagem: Divulgação
Sexo agradava às divindades

O professor Feldman explica que as relações sexuais dentro dos templos também estariam ligadas a rituais de agradecimento e pedidos de devotos. Ele cita, como exemplo, homens que faziam sexo com prostitutas sagradas a fim de se aproximar de divindades femininas, ligadas à fertilidade e que poderiam abençoá-los com filhos ou mesmo com um casamento feliz.

"Prostitutas pertenciam aos santuários, como o da deusa grega Afrodite, e estavam lá para servir. Os homens faziam donativos e mantinham relações carnais legítimas", comenta.

No caso da Mesopotâmia, Janaina Zdebskyi lembra o culto à deusa suméria Ishtar ou Inanna, que, segundo ela, regia a guerra e o sexo. Um rito de Ano Novo consagrado a essa divindade incluía prostituição de uma sacerdotisa com um rei, visando boas colheitas e prosperidade.

"Relações sexuais não serviam somente para o prazer ou para o recebimento do valor pago. Envolviam também um aspecto sagrado e ritualístico, de satisfazer a divindade e manter o equilíbrio na Terra. O mundo divino e o mundo humano não estavam separados. Existe até um mito explicando que a ausência de Ishtar, que havia descido ao mundo dos mortos, afetou toda a fertilidade do planeta: 'Nenhum touro cobria as vacas; nenhum jumento emprenhava suas fêmeas; nenhum homem engravidava uma moça nas ruas; o homem jovem dormia no seu quarto particular; a moça dormia na companhia de suas amigas'", cita Janaina.

Ascensão das religiões patriarcais

Se no mundo antigo cultos às deusas eram comuns e praticados ao longo de milhares de anos, com a ascensão das religiões patriarcais eles foram abolidos. Em seu livro, David N. Elkins explica que as próprias culturas agrárias e a ação de invasores estrangeiros contribuíram para a substituição do poder feminino pelo masculino e o declínio das prostitutas sagradas.

"O corpo e a sexualidade feminina, tão valorizados nos cultos às deusas, passaram a ser depreciados. As mulheres foram tidas como propriedade dos homens e frequentemente como objeto de uso, controle e exploração, conforme aos homens aprouvesse. O judaísmo e o cristianismo, que têm raízes na antiga cultura hebraica, de uma forma ou de outra sempre retrataram Deus como sendo masculino e consideraram blasfemo adorar uma deusa."

A consequência, explica Elkins, resultou na criação de uma cultura repressora, em que as mulheres que expressavam sua sexualidade de maneira aberta ou simplesmente contrariavam seus maridos, eram mortas apedrejadas, enforcadas, queimadas, ou, então, ridicularizadas em público, presas e até banidas do convívio social por meio de tabus masculinamente introduzidos.

A pesquisadora Janaina Zdebskyi, no entanto, esclarece que também não é possível afirmar que antes, quando a prostituição era sagrada, existia um clima de liberdade sexual. Segundo ela, na Antiguidade, era uma profissão, mas legitimada pelo reino e pelas crenças religiosas, o que concedia às sacerdotisas, inclusive, o direito à herança paterna para conseguir sobreviver.

"A condenação da prostituição, hoje, se dá justamente pela sua não regulamentação --e, muitas vezes, ligada a fatores morais que envolvem crenças religiosas que condenam o sexo fora do casamento. Em diversos países, como é o caso do Brasil, o Estado e a lei fecham os olhos para a questão da prostituição, preferindo simplesmente coibir sua prática, mesmo que ela, obviamente, continue existindo sem que as prostitutas tenham quaisquer direitos trabalhistas", conclui.