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Direitos da mulher


O ar-condicionado é machista? Estudo sugere que aparelho favorece homens

Getty Images/iStockphoto
"Pode aumentar um pouquinho?" Imagem: Getty Images/iStockphoto

Marcos Candido

Da Universa

2019-06-14T04:00:00

14/06/2019 04h00

Se você é homem e está lendo essa reportagem agora, estimule sua empatia e concorde em diminuir o ar-condicionado do escritório se a sua colega tiver pedindo.

Ambientes com temperaturas menores atrapalham a produtividade feminina no trabalho. Em contrapartida, os homens não sofrem tanto com a oscilação de temperatura e levam vantagem em ambientes mais frios. É o que conclui uma pesquisa americana publicada em maio.

A afirmação aumenta ainda mais a discussão sobre a temperatura ideal nos escritórios. Um estudo de 2015, inclusive, revelou que o ar-condicionado usa configurações de 1960, quando ainda havia poucas mulheres no ambiente de trabalho. Ou seja: o termostato pode ser machista, sim.

Para endossar essa conclusão, desta vez os pesquisadores pediram a 500 pessoas que resolvessem testes de matemática, problemas de lógica e a alguns exercícios verbais dentro de uma hora. A temperatura da sala foi regulada entre 16º C e 32º C.

Era preciso resolver problemas simples de matemática sem o uso de calculadora, solucionar questões de lógica e formar o máximo possível de palavras usando algumas letras. Quanto mais exercícios corretos, maior a pontuação.

Os pesquisadores não encontraram diferenças no resultado quando o grupo todo foi avaliado. Eles, então, dividiram os resultados por gênero e diferentes temperaturas. Foi aí que pôde ser observado como a temperatura influenciou os dois gêneros.

Os homens se saíram melhor em exercícios de matemática e na formação de palavras quando a sala operava em temperatura menor do que as mulheres. Com a temperatura mais alta, a diferença nos resultados dos dois sexos desapareceu.

Mas por quê?

Para ser mais preciso, a 21º C a nota das mulheres nos exercícios de matemática foi 8.31. Já com 26º C, a nota foi 10. Uma diferença de mais de 20% na produtividade feminina.

Segundo Luciane Helena Gargaglioni Batalhão, doutora em fisiologia pela USP Ribeirão Preto e professora da Unesp, uma hipótese para explicar essa diferença é que o corpo demanda uma quantidade intensa de energia para operar. O da mulher, especialmente.

Para manter a temperatura em condições confortáveis, o corpo precisa usar o combustível disponível. Você já deve ter percebido, mas o corpo humano mantém uma temperatura que oscila entre 36,5º C e 37º C em condições normais. Isso muda para cima ou para baixo durante o sono, atividades como a corrida ou febre, por exemplo.

Segundo a professora, estudos mostram que a pele da mulher tem um número maior de receptores ao frio do que os homens. Também entra na jogada o período hormonal. Durante o ciclo menstrual, a temperatura corporal da mulher pode oscilar entre 0,5 e 0,8 graus.

"De repente, ao trabalhar em um ambiente frio, a energia da mulher é mais gasta para compensar a temperatura corporal do que para focar no trabalho", explica a doutora.

O termostato é masculino

Por isso, uma outra pesquisa norte-americana afirma que o ar-condicionado beneficia mais aos homens.

O estudo mostra que a maioria dos prédios utiliza ar-condicionado com temperaturas baseadas no metabolismo masculino. Para isso, os índices criados na década de 1960 são aplicados a uma equação que considera fatores como roupas, temperatura ambiente, velocidade do ar, umidade e metabolismo em repouso. A equação favorece as características metabólicas de um homem de 40 anos, escrevem os pesquisadores.

A pesquisa é concluída com um pedido para a revisão da fórmula pelos fabricantes de termostatos. Só assim será possível reduzir o que chamam de discriminação de gênero no ambiente do trabalho. Até lá, enquanto o patriarcado mantém a clássica ininterrupta desatenção com o próximo, é melhor levar uma blusinha reserva na bolsa.