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Mulheres protagonizam um mundo em evolução


Racismo, gordofobia e assédio moral: funcionários denunciam marca carioca

Veronica Cowie/UOL
A Loja Três tem duas unidades em São Paulo; na foto, a loja localizada no bairro de Pinheiros, na zona oeste da cidade Imagem: Veronica Cowie/UOL

Mariana Gonzalez

Da Universa, em São Paulo

2019-05-20T04:00:00

20/05/2019 04h00

Resumo da notícia

  • A carioca Loja Três se apresenta como "uma marca de roupas e acessórios com essência colaborativa, que compartilha talento e criatividade"
  • Universa ouviu 11 funcionários e ex-funcionários que disseram que, por trás das peças, há racismo, gordofobia, assédio moral e violações trabalhistas
  • Vendedoras trabalhariam mais de 11 dias seguidos e sem folga nem troca de uniforme; modelistas seriam privadas de itens como água e papel higiênico
  • Funcionárias relatam ter trabalhado em pé durante horas e outras teriam sido coagidas a desfazer os dreads do cabelo sob ameaça de demissão
  • O Ministério Público do Trabalho do Rio abriu dois inquéritos civis contra a empresa e tenta notificar a Três há pelo menos dez meses, sem retorno

"Por trás de peças, pessoas". É assim que se apresenta a Loja Três, empresa de moda criada há seis anos no Rio de Janeiro e que, atualmente, tem quatro lojas -- duas na capital fluminense e duas em São Paulo. Na etiqueta das peças, há uma foto da costureira responsável pela confecção; no site, as funcionárias, maioria de pele negra e cabelo crespo, aparecem dançando e se divertindo entre as máquinas de costura. A Três se autodenomina "uma marca de roupas e acessórios com essência colaborativa, que busca incentivar e compartilhar talento e criatividade" -- mas, segundo os 11 funcionários e ex-funcionários da empresa contatados por Universa, esse discurso não se traduz em realidade.

A primeira história que ouvimos, contada por Karina Haro, ex-gerente da extinta loja do Shopping JK Iguatemi, em São Paulo, envolve a dona da loja, Guta Bion, de 61 anos. Segundo Karina, a empresária teria pedido que ela pressionasse a vendedora Juliana Neves, que é negra: ou ela desfazia as tranças e voltaria a usar o cabelo cacheado ou não teria seu contrato de experiência renovado.

Por conta dessa primeira entrevista, feita no dia 26 de fevereiro, buscamos outros dez funcionários da empresa. O que ouvimos foram relatos de racismo, gordofobia, assédio moral, abuso de poder e violação de direitos trabalhistas -- todas essas agressões teriam sido praticadas direta ou indiretamente por Guta e seus dois filhos, a estilista Fernanda Bion e o economista Francisco Bion, sócios da mãe na empresa.

Algumas dessas histórias chegaram, por meio de denúncias anônimas, ao MPT (Ministério Público do Trabalho) do Rio de Janeiro e levaram a instituição a abrir dois inquéritos civis para investigar a Loja Três. Um deles, que versa sobre assédio moral, abuso de poder, casos de racismo e maus tratos, além de irregularidades trabalhistas, é investigado por Artur de Azambuja. À Universa, o procurador contou que tentou notificar a Loja Três pelo menos três vezes desde junho de 2018, mas que a empresa não se mostrou disposta e conversar sobre o assunto.

Nesta reportagem, reunimos algumas das violações mais graves relatadas por funcionários e ex-funcionários -- alguns preferiram não se identificar e tiveram o nome alterado.

Racismo: tranças, cabelo black power e "coisa de favelado"

Quando soube que teria que escolher entre manter as tranças e continuar trabalhando, Juliana Neves, que estava em período de experiência havia poucos meses como vendedora na loja que funcionava no Shopping JK Iguatemi, em São Paulo, preferiu a primeira opção. "A princípio, eu tinha feito as tranças para usar só no Natal e no Réveillon, ia tirar em janeiro. Mas depois que aconteceu tudo isso, eu me recusei a tirar. Decidi que não ia abaixar a cabeça por preconceito", disse a estudante de moda, de 23 anos. "Dizem que são uma marca que abraça a diversidade, que respeita os outros, mas isso não acontece lá dentro."

Decidi que não ia abaixar a cabeça por preconceito

Reprodução/Instagram
Juliana Neves, ex-vendedora da Loja Três, teria sido coagida a desfazer as tranças para ter seu contrato renovado Imagem: Reprodução/Instagram

Karina Haro, de 33 anos, ex-gerente da unidade e sua chefe na época, diz que era pressionada constantemente, por meio de telefonemas da própria Guta, do Rio de Janeiro, para abordar o assunto com a vendedora -- mas adiou a conversa o máximo que pôde. "Quando a Guta viu [o penteado da funcionária], me disse que estava horrível, que era "coisa de gente da comunidade" e que ela teria que tirar, porque "não era o perfil da empresa". Eu me senti numa sinuca de bico. Não concordei com aquela situação, não me senti confortável para falar e decidi não fazer aquilo, até que a cobrança passou a ser diária".

Após o episódio, que aconteceu em fevereiro deste ano, Karina decidiu pedir demissão -- "o que acontece lá é bem contra meus valores, não dá para trabalhar em uma empresa que odeia seus funcionários", explicou. Juliana continuou trabalhando (com as tranças) até 11 de março, quando terminou o segundo período de experiência e preferiu não renovar o contrato.

A loja do Shopping JK Iguatemi fechou as portas em abril, mas as regras que teriam sido impostas para "controlar" o cabelo crespo das (poucas) vendedoras negras se estendem à principal loja de São Paulo, que fica no bairro de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. Lá, a ex-operadora de caixa Ruth de Oliveira, de 23 anos, conta que foi contratada com o cabelo crespo e curto, mas que "tinha que manter o black arrumadinho, não poderia parecer -- entre aspas -- desleixado", conta. "Também não podíamos usar lenços ou turbantes".

Tinha que manter o black arrumadinho, não poderia parecer 'desleixado", mas também não podíamos usar lenços ou turbantes

Ruth, que conheceu a marca pelo Instagram, usava dreads quando foi chamada para fazer a entrevista para a vaga, mas foi aconselhada pela mãe a desfazer o penteado antes do teste. "Ela me disse: 'se você não tirar os dreads, não vão te contratar'. Na hora duvidei, mas depois que entrei e vi como as coisas funcionavam, fiquei pensando que se eu tivesse com as tranças não teria sido contratada".

A estudante de Sociologia e Política pretende processar a empresa por danos morais. "Ela [Guta Bion] achava que o negro é necessariamente favelado e dizia isso de forma muito pejorativa. Ofender uma estoquista pelo nível social ou falar mal de 'pessoas de cor', como se referiam a pessoas negras, me afeta diretamente", explica, citando alguns dos casos que mais a incomodavam.

Ruth e Juliana passaram meses sendo as únicas funcionárias negras em suas equipes. No escritório da empresa, localizado no bairro de Benfica, no Rio de Janeiro, um dos funcionários ouvidos pela reportagem disse haver apenas dois negros entre cerca de 20 pessoas trabalhando. Na fábrica, por outro lado, costureiras e modelistas negras eram a maioria -- ali, as exigências em relação ao cabelo eram menores. "Ela vê [pessoas negras, de cabelo crespo] como pobre. No estoque e na fábrica têm meninas que usam tranças. Mas eu que estava ali, na frente da loja recebendo cliente, não podia", explica Juliana.

Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram

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Imagem: Reprodução/Instagram

Apesar de trabalhar na fábrica e usar tranças na época, a modelista Mel Oliveira, de 23 anos, se lembra de ouvir comentários acerca de seu cabelo cada vez que fazia tranças, cortava ou encarava alguma mudança -- o que gostava de fazer com frequência.

Ela também atuava como modelo de prova e, por isso, perguntava à estilista e sócia da empresa Fernanda Bion, com quem trabalhava diretamente, se o visual atrapalharia o trabalho e nunca ouviu nenhuma negativa da chefe. Mel diz que Guta, por outro lado, não poupava comentários como "mudou de novo? Misericórdia" ou "meu Deus do céu". "Misericórdia por quê? Eles são o tipo de racista que acha que não é preconceituoso, que fala uma coisinha aqui, outra ali, em tom de brincadeira. É o pior tipo de racismo", acredita a modelista.

E se a proporção de negros trabalhando como vendedores nas lojas de São Paulo é baixa, no Rio de Janeiro é ainda menor. O motivo? Segundo Pedro*, que trabalha no escritório, Guta era a responsável pelas contratações no Rio, enquanto em São Paulo eram as gerentes das lojas quem escolhiam as funcionárias -- não sem "orientações" da chefia da empresa.

Raquel*, de 37 anos, foi a coordenadora da loja de Pinheiros durante um ano. Foi ela quem começou a trazer alguma diversidade para o corpo de funcionários. "A Guta costumava dizer que eu adorava misturar, que a loja de Pinheiros era a mais misturada", lembra.

A "mistura", no entanto, causava problemas. Raquel* conta que uma vez, quando estava de folga, pediu que Amanda*, uma funcionária negra que trabalhava no estoque, abrisse a loja, já que seria a primeira a chegar no dia seguinte. "Eu estava viajando e meu telefone tocou. Era a Guta, que controlava tudo por câmeras, perguntando por que eu tinha deixado a chave com uma estoquista. No dia seguinte, quando eu já tinha explicado a decisão, ela me disse que via um perigo muito grande na Amanda*, porque ela era uma menina, adorava usar as roupas da Três, mas "a gente não sabe de onde ela vem'", conta a ex-coordenadora. Segundo ela, Guta teria dito ainda: "Para ser estoquista deve ser favelada. Ela mora em Heliópolis, pode ter um namorado bandidinho. [É fácil] para ela ir lá e fazer a limpa sem ninguém ver?". A história foi confirmada por mais duas ex-funcionárias, que foram colegas de Raquel*, ouvidas por Universa.

"Tempo pra Amar"

Em dezembro de 2018, a Loja Três estabeleceu uma parceria com a cantora Mahmundi. Ela gravou pelo menos dois clipes para a empresa com a letra de sua música "Tempo pra amar" -- um no palco de um teatro, com um coral de costureiras e modelistas da Três ao fundo; e outro na fábrica, com as trabalhadoras dançando e mostrando os bastidores da confecção entre as máquinas de costura, no Rio de Janeiro.

Em depoimento à Universa, a modelista Mel Oliveira contou detalhes os bastidores das gravações. Segundo ela, mulheres negras teriam sido ofendidas de forma racista e as funcionárias teriam passado horas sem comer, proibidas por Guta e Fernanda de comer a mesma comida que a cantora e sua produção. Leia o depoimento completo:

"Chegamos ao teatro, em Botafogo, por volta das 13h. Tinha maquiadora, uma pessoa para fazer penteado e arrumar as meninas [funcionárias]. Soube que uma das mulheres que participou do clipe comentou com a Guta que achou muito legal ter cabeleireiro lá e que gostava de se cuidar. São pessoas muito carentes. Mas a Guta virou e respondeu 'nossa, se eu tivesse o seu cabelo também ia querer alguém para cuidar dele'. Ela faz esses comentários de graça e ainda faz rindo.

Passamos o dia lá fazendo a gravação. Ficamos até as 20h sem comida. No camarim da cantora tinha uma mesa enorme, cheia de comida, um banquete feito para a produção dela. O pessoal [da loja] toda hora passava perto, via aquilo e continuava com fome, mas eles [os sócios da loja] não nos ofereceram nada, disseram que a gente só poderia comer no final da gravação, que teria uma mesa só nossa do lado de fora. Uma hora eu e minhas amigas estávamos perto da mesa de comida e o produtor da cantora falou 'olha, se vocês quiserem fiquem à vontade'. Aí cada uma de nós pegou uma coisinha, mas na hora passou a Fernanda e deu um grito: "não é para ir com tanta vontade assim não hein, ninguém aqui é morto de fome". Ela não queria que a gente comesse. Pela forma que ela falou, estava com vergonha da gente.

Nós continuamos gravando cansados, com calor e com fome, algumas pessoas até passaram mal. E o pessoal [da Mahmundi] perguntando se a gente queria se servir, mas estava todo mundo sem graça. No final, depois de gravar o clipe com a cantora e com a nossa família, todo mundo foi liberado para comer na tal mesa do lado de fora, que teoricamente era pra gente. Mas quando chegamos lá não tinha comida, não tinha nada, só uns petiscos e um cafezinho, mas nada que matasse a fome. Fizeram aquilo tudo, aquele teatro todo para dizer que valorizam os funcionários, mas é uma farsa".

Gordofobia: "O uniforme não me servia"

"Na hora de contratar, eu tinha que ter certos cuidados. Eu não podia contratar mães com filhos pequenos. Você também não vai ver um vendedor gay muito afeminado, que ela chamava de 'gay munheca', porque ela diz que causa muito frenesi", explica Raquel*. "Eu sabia que se eu selecionasse uma menina acima do peso ela ia recusar. Ela dizia que não contrata quem não entra na roupa dela", lembra Raquel*.

Além dos negros, eu não podia contratar mães com filhos pequenos. Outra coisa que ela [Guta] não gostava era gordo. Ela dizia que não contrata quem não entra na roupa dela

A ex-vendedora Laura* passou sete meses trabalhando na loja de Pinheiros. Ela conta que, durante todo este período, era a única funcionária gorda na equipe e, por causa da falta de tamanhos maiores, tinha dificuldade com o uniforme.

"A gente só tinha um [conjunto]. Nós escolhíamos as peças quando entrávamos na loja e não recebíamos mais nenhum. Não importava se você estava com o uniforme sujo, manchado, rasgado. E, no meu caso, tinha um agravante: era muito difícil conseguir um uniforme de que eu gostasse e que tivesse meu tamanho", conta.

Veronica Cowie/UOL
Imagem: Veronica Cowie/UOL

A unidade de Pinheiros, em São Paulo, onde Laura* trabalhava, tem uma cafeteria na parte de frente. Em determinado momento, o estabelecimento passou a vender brownies com algum desconto para os funcionários da loja -- atitude que a vendedora elogiou para a própria Guta, que estava presente no dia.

"Comentei que achei incrível essa iniciativa e que o brownie era uma delícia. Aí ela me respondeu: 'só não come demais porque se você engordar eu vou te demitir'. Eu sou gorda e não tenho problema nenhum com a minha estética, mas nesse dia saí completamente traumatizada da loja", diz.

Assédio moral, celulares confiscados e papel higiênico regulado

Fora casos de racismo e gordofobia, todos os 11 funcionários e ex-funcionários da Loja Três ouvidos pela reportagem relataram ter sofrido algum tipo de assédio moral por pelo menos um dos três sócios: Guta, Francisco e Fernanda. Os relatos denunciam ofensas como "você é burra" e "sua mãe não soube te educar", que a empresária teria dito, em voz alta, na frente da equipe, e supostas restrições de itens como água e papel higiênico. "Acho que quanto mais baixa a escolaridade ou mais vulneráveis as pessoas, mais eles [os donos da empresa] humilhavam", acredita Priscila*, funcionária de 23 anos que trabalhou dois anos no escritório, mas preferiu não ter o cargo identificado.

Mel, por exemplo, era modelista mas também trabalhava como modelo de prova -- apesar de receber um único salário para as duas funções, de cerca de mil reais. A segunda atividade exigia que ela passasse várias horas em pé provando roupas na frente de algumas pessoas, inclusive de Fernanda, que era a estilista chefe -- situação que causou constrangimentos.

"Quando eu entrei na empresa, ela me disse para avisá-la quando estivesse 'naqueles dias' [menstruada]. Se tivesse que provar roupa de banho eu falava 'Fernanda, hoje eu não posso'. Mas teve uma semana que eu fiquei cinco dias menstruada, no quinto dia ela se irritou e gritou comigo. 'Poxa Mel, caramba, bota um OB, bota alguma coisa, assim não dá, é o seu trabalho'", lembra. "Na hora fiquei com vergonha, com vontade de chorar."

Em outra sessão de prova de roupas, Mel teria informado a Fernanda e às outras profissionais presentes que não estava se sentindo muito bem e que precisava fazer uma pausa. "Eu tive alguns problemas de anemia e naquele dia eu estava passando mal, quase vomitando. Mas ela debochava, fazia piadinhas, mandava eu aguentar mais um pouco. Isso quando não perguntava se eu estava grávida, na frente de todo mundo."

Não é pelo açúcar, pelo papel higiênico, por nada disso, mas a gente achava uma falta de consideração gigante da parte dos patrões

A modelista Ariana Costa, de 32 anos, foi colega de Mel durante três meses e conta que, na fábrica, haveria regras que restringiam a elas e às costureiras água, papel higiênico e até açúcar para o cafezinho. "Não tinha filtro de água no nosso andar, a cozinha ficava dois andares de escada acima e nós não podíamos ir até lá na hora do trabalho. Só podíamos circular no horário de almoço ou de manhã cedo, antes de começar a trabalhar", conta. "Ela [Guta] dizia que se visse alguém na cozinha fora de hora daria advertência para nós e para a menina da cozinha". A solução foi improvisar um isopor que uma das funcionárias trouxe de casa e armazenar ali garrafas de água que eram enchidas nos horários permitidos.

O açúcar para o café era regulado e o papel higiênico não era reposto, de acordo com as funcionárias. Por isso, elas traziam de casa e deixavam em estoque, caso o da empresa acabasse. "Trazíamos muita coisa de casa. Não é pelo açúcar, pelo papel higiênico, por nada disso, mas a gente achava uma falta de consideração gigante da parte dos patrões."

Já nas lojas, segundo relatos, o assédio moral e o abuso de poder apareciam em forma de regras impostas pela direção da empresa, como "proibir" amizade entre gerentes e vendedoras e manter os celulares dos funcionários trancados com chave numa gaveta, embora cada um tivesse um armário para seus pertences no fundo da loja. "Acho que era uma forma de controle para não ter áudios, vídeos ou fotos do que acontece lá dentro", acredita Ruth.

Jornada exaustiva: "Tive que trancar a faculdade e tinha medo do meu celular"

Trabalhar até 14 dias seguidos era comum na rotina das funcionárias das lojas, de acordo com elas mesmas. Raquel* conta que, em determinado momento, as escalas das vendedoras que até então eram montadas pela gerente, começaram a vir prontas do Rio. "Aí a minha vida virou basicamente refazer as escalas e bater boca com a Guta por telefone. Eu dizia 'Guta, essa menina está aqui há 12 dias sem folgar', mas ela não via problema. O discurso era sempre de 'quem não gosta pode ir embora.'"

Tanto em algumas lojas quanto no escritório, funcionários disseram que teriam sido obrigados a fraudar o sistema de pontos. Em alguns lugares, a máquina de bater ponto seria trancada depois de determinado horário para impedir que horas extras fossem contabilizadas; em outros, onde as horas eram marcadas à mão, alguém ficaria fiscalizando e impedindo que os trabalhadores anotassem o tempo adicional.

Priscila*, de 23 anos, foi funcionária do escritório durante dois anos e prefere não ter o cargo que ocupava identificado, mas conta que fazia tantas horas extras que se viu obrigada a trancar a faculdade por causa do trabalho. "Eu não conseguia sair a tempo de chegar na faculdade para fazer as provas, era impossível. Ou eu trancava, ou perdia o ano", explica. "O ritmo é muito intenso, [temos que entregar] uma coleção por semana. Eu tinha que me desdobrar em mil e eles não estavam nem aí. E como a máquina de bater ponto era trancada depois das 18h, nem tinha como provar [as horas trabalhadas]."

Eu vivia sempre muito estressada, chegava em casa e chorava todos os dias. Às vezes eu me trancava no estúdio e ficava chorando. Todo mundo fazia isso, era comum ver alguém chorando nos cantos da empresa

Tanto Priscila* quanto Raquel* contaram que as cobranças fora do horário de trabalho seriam tão frequentes que elas tinham medo do próprio celular. Mas para Patrícia Magro, de 24 anos -- um deles trabalhando como assistente direta de Guta Bion no RH da empresa -- essa relação com o telefone era ainda mais intensa. "Quando meu telefone tocava, eu gelava. Sabia que ela ia gritar, me dar um esporro, me humilhar, muitas vezes por nada. Eu não tinha horário de almoço, vira e mexe almoçava com ela no telefone. Às vezes eu dizia 'Guta, estou almoçando' e ela respondia: 'tá bom, então só escuta'", lembra.

Funcionários do escritório disseram, ainda, que a empresa teria coagido alguns trabalhadores a pedir demissão para serem contratados por outro CNPJ, que também seria da Loja Três, em troca de um aumento singelo. De fato, apuramos que existem ou já existiram pelo menos quatro números diferentes nos últimos seis anos.

O que diz a lei

Para entender como a lei percebe as denúncias feitas pelos 11 funcionários ouvidos pela reportagem, conversamos com dois juristas especialistas no mundo do trabalho: Valdirene Assis, coordenadora nacional de Promoção de Igualdade de Oportunidades e Eliminação da Discriminação no Trabalho do MPT (Ministério Público do Trabalho); e Artur de Azambuja, procurador responsável por um dos inquéritos civis que investigam a empresa, no Rio de Janeiro.

Fazer exigências sobre qual é o cabelo que você vai manter neste ambiente, se ele tem tranças ou é crespo, é completamente arbitrário e ilegal

Para Valdirene, impor normas estéticas aos trabalhadores -- como usar determinada quantidade de maquiagem ou pedir que uma funcionária mude seu penteado -- na maioria das vezes é ilegal.

"As exigências que o empregador faz ao empregado devem guardar relação direta e proporcional à função que a pessoa desempenha. Se eu fosse uma funcionária de cozinha, por exemplo, eu teria que usar uma redinha no cabelo e não poderia ter unhas postiças. Mas quais são os deveres de uma vendedora? Estar no seu posto de trabalho pontualmente, atender os clientes de maneira cordata, conhecer bem seus produtos. Portanto, fazer exigências sobre qual é o cabelo que você vai manter neste ambiente, se ele tem tranças ou é crespo, é completamente arbitrário e ilegal", defende.

Outra ilegalidade que teria sido cometida pela empresa, segundo relatos das pessoas ouvidas pela reportagem, é o ato de selecionar quem será ou não contratado com base nas características físicas, na orientação sexual ou na idade dos filhos. "A discriminação pode acontecer no momento da contratação, na recusa fundada em critérios discriminatórios, mas também ao longo do contrato, quando e se a empresa adota medidas que impedem a progressão da carreira da pessoa", diz.

Nestes casos, Valdirene explica que, no entendimento da lei, cabe à vítima provar que é vítima, ou seja, ao denunciar, ela tem que provar que sofreu assédio moral, racismo ou outra violação. Como? Por meio de documentos, trocas de e-mail e até testemunhas. "Hoje em dia, como muita gente tem celular, também é comum que a vítima apresente áudios de conversas gravadas sem que o empregador saiba".

Outra saída é reportar o caso ao Ministério Público do Trabalho on-line, por telefone ou pessoalmente, na sede da procuradoria do município. A denúncia pode ser feita de forma anônima (quando a pessoa que denuncia não precisa se identificar), de forma sigilosa (a pessoa se identifica, mas pede que sua identidade não seja revelada) ou de forma aberta (a pessoa não se importa em ser identificada). "A maioria das denúncias que recebemos é feita de forma anônima por um funcionário que está dentro da empresa", diz o procurador Artur de Azambuja. E provavelmente foi dessa forma que o MPT começou a investigar a Loja Três.

A maioria das denúncias que recebemos [no MPT] é feita de forma anônima e por um funcionário que está dentro da empresa

Questionado sobre o andamento do inquérito que investiga, fruto de uma denúncia (provavelmente anônima) que aponta para "assédio moral por parte do empregador, abuso de poder e racismo, além de irregularidades trabalhistas como não anotação em carteira", Azambuja disse que está tentando notificar a Loja Três há pelo menos dez meses, mas não teve resposta. "Em casos como este, o MPT notifica a empresa pedindo que ela apresente documentos em sua defesa". O próximo passo do Ministério Público do Trabalho é pedir uma colheita de provas, que pode ser visita às lojas e à fábrica, depoimento de ex-funcionários, entre outras opções.

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Azambuja explica que, se for comprovado que funcionários foram contratados em uma segunda empresa que pertence aos mesmos sócios para exercer a mesma função, a atividade pode ser entendida como fraude. "No momento em que o empregado pede demissão, ele abre mão de vários direitos. Dessa forma, a empresa vai se livrando daqueles encargos e, em dois anos, o ato prescreve". Em outras palavras: seria uma forma de economizar dinheiro de forma ilegal fraudando as leis trabalhistas.

Já em relação às denúncias de assédio moral, racismo e maus tratos, o MPT pode propor um termo de ajustamento de conduta, sugerindo que a empresa não cometa mais as mesmas violações. "Se ela se compromete [com o termo], a gente fiscaliza o cumprimento. Se ela não se compromete, podemos entrar com uma ação civil pública e, além de cobrar as mudanças de conduta e indenizações coletivas, podemos cobrar aplicação de medidas específicas, como a criação de canais de denúncia e a punição dos profissionais responsáveis", explica Azambuja.

O procurador lembra, ainda, que injúria racial é crime. Nestes casos, o Código Penal prevê ao acusado a pena de um a seis meses de reclusão ou multa.

O que diz a Loja Três

Procurada, a Loja Três se manifestou por meio de assessoria Loures Comunicação e negou todas as acusações. A agência enviou o seguinte comunicado à Universa: "A Loja Três recebeu com enorme surpresa as denúncias enviadas pela reportagem do UOL. Elas envolvem, entre outros aspectos, a prática de crimes que a empresa considera inaceitáveis e se dedica desde sua criação a combatê-los. A Loja Três existe há seis anos e hoje possui uma fábrica, um escritório e quatro lojas em São Paulo e no Rio de Janeiro. A empresa preza pela diversidade e pelo respeito à individualidade das pessoas. Dos seus 154 funcionários, 85 são negros. Ao todo 97% do que é vendido nas lojas é produzido pela fábrica da empresa. A valorização de toda a cadeia de trabalho está entre nossas principais preocupações."

Sobre as afirmações de que uma funcionária negra teria sido coagida a desfazer as tranças do cabelo para continuar trabalhando, a resposta foi a seguinte: "Ninguém da empresa está autorizado a fazer este tipo de solicitação, muito menos ameaças a funcionários. Prezamos a diversidade de gênero e raça e trabalhamos com os mais diversos tipos de modelos, como demonstra claramente nosso site e nossas campanhas de marketing. Em nossas lojas trabalhamos com funcionárias de diversos estilos. Somos uma empresa transparente, que não é perfeita, porém que trabalha todo dia com muita dedicação e esforço para proporcionar um modo melhor de trabalho e vida para nossos colaboradores. São 154 pessoas e a grande maioria está satisfeita com o seu crescimento pessoal e profissional."

Também é negada a acusação de que evita-se contratar mães com filhos pequenos, pessoas que moram longe do local de trabalho, gordas e homens gays afeminados. "Basta ir a qualquer uma de nossas lojas para constatar que não temos um padrão estético para contratação de funcionários", afirmou a assessoria.

O uso de lenços e turbantes é permitido, de acordo com a loja. "Esses acessórios são absolutamente permitidos. O respeito à individualidade e ao estilo de cada pessoa é um dos nossos pilares. Como em todas as empresas, algumas regras de conduta devem ser observadas por nossos funcionários com o intuito único e legítimo de assegurar a qualidade do atendimento aos nossos clientes. Isso não implica e jamais implicou em qualquer tipo de restrição a estilos e penteados."

A loja ressaltou não ser verdade que há apenas dois negros entre cerca de 20 pessoas no escritório da marca. "Lamentavelmente, a presença do negro na grande maioria das empresas brasileiras é irrisória. A Loja Três, apesar de ser uma empresa pequena e representar uma gota neste oceano, é uma exceção, com 55% de negros em nossos quadros. Isso é uma opção da empresa e se deve ao nosso apreço pela diversidade", completou.

Sobre a acusação de que uma estoquista negra e moradora de Heliópolis havia sido proibida de ficar com a chave para abrir a loja, mesmo sendo a primeira a chegar, a justificativa foi a seguinte: "Em todas as lojas, não entregamos as chaves para funcionários com pouco tempo de casa. Obviamente não há qualquer outra relação que não seja estritamente o tempo de casa. Isso é um padrão de mercado."

A Loja Três refutou as acusações que envolvem as gravações do clipe "Tempo Para Amar", da cantora Mahmudi, e esclarece: "No final do ano passado, fizemos uma apresentação de canto com alguns de nossos colaboradores. Eles passaram o ano tendo aulas de canto (durante o expediente de trabalho), ao longo de seis meses, durante uma hora, uma vez por semana, com objetivo de descontrair e desenvolver suas habilidades pessoais. É uma pena que um projeto tão bonito e com tantas boas intenções esteja sendo alvo de denúncias falsas. No final de 2018, como resultado deste projeto, chamamos a cantora Mahmundi para participar e ceder uma de suas músicas e cantar junto de nossos colaboradores. Nesta mesma noite, tivemos a festa de confraternização da empresa para os funcionários e seus familiares. Foi uma festa linda, que foi registrada e publicada em nossas mídias. Tivemos um feedback maravilhoso de nossos funcionários, que demonstraram orgulho de mostrar para seus familiares onde trabalham e como são respeitados e valorizados."

A prática de guardar os celulares em uma gaveta é considerada comum no mercado varejista, segundo o comunicado enviado à redação. "Não são todas as categorias profissionais que podem usar dispositivos eletrônicos e redes sociais durante o horário do expediente. Isso está no contrato de trabalho dos funcionários da Loja Três e condiz com a política de assegurar a máxima qualidade no atendimento aos nossos clientes. Há um local para guarda dos aparelhos. Nos intervalos, os funcionários obviamente podem pegar e usar", ressaltou.

Já a proibição de usar o bebedouro na fábrica fora do horário de almoço é contestada, bem como a privação de itens como açúcar e papel higiênico: "As condições são condizentes com um ambiente salutar e humanizado de trabalho. Temos bebedouros e banheiros em todos os andares".

A loja, por meio de sua agência, afirmou que a modelista citada pela reportagem, que teria sido constrangida quando estava menstruada, foi contratada como auxiliar de modelagem, em cujo escopo de trabalho consta a realização de provas de modelagem. "A designer Fernanda Bion recomendou que ela não provasse as peças íntimas durante o período menstrual, com o intuito único de evitar um desnecessário constrangimento para a própria funcionária. A postura oposta, a nosso ver, é que seria certamente inaceitável", completou.

Sobre as mudanças de CNPJ, o comunicado enviado à redação esclarece o seguinte: "A empresa passou por uma reestruturação societária em 2016. Na ocasião, houve uma transferência de funcionários de uma empresa para outra. Tudo absolutamente dentro da lei e absolutamente comum em empresas de todos os setores."

Em relação a jornadas de até 14 dias sem folga, a Loja Três esclareceu que "o sistema de folga nas lojas paulistas é de seis dias de trabalho por um dia de folga, de acordo com o estipulado pelo sindicato da categoria". A loja negou ainda que o sistema de ponto é fraudado e afirmou que existe um "acordo de banco de horas assinado pelos funcionários no aditivo do contrato de trabalho".

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