Topo

Minha história


"Sou virgem aos 44 anos e não tenho interesse em fazer sexo"

Arquivo Pessoal
A escritora e professora de dança Luciana Do Rocio Mallon, 44, de Curitiba (PR), achava, quando era adolescente, que era muito conservadora Imagem: Arquivo Pessoal

Natália Eiras

Da Universa

2019-05-19T04:00:00

19/05/2019 04h00

A escritora e professora de dança Luciana Do Rocio Mallon, 44, de Curitiba (PR), achava, quando era adolescente, que era muito conservadora. "Achava que queria fazer sexo apenas após o casamento", fala à Universa. Com o tempo, no entanto, percebeu que não tinha interesse em ter "intimidades" com uma pessoa. "Eu achava nojento ver outras meninas beijando os caras", diz. Ela teve dois namorados. Com um deles, manteve um relacionamento aberto. "Eu o deixava livre para ter a vida sexual dele. Para mim, amor e sexo sempre foram coisas completamente diferentes", diz.

Luciana descobriu, na vida adulta, que é assexual, ou seja, não tem interesse em fazer sexo. "Foi um alívio perceber que não sou uma extraterrestre". E não pretende transar. "Apenas se eu gostasse tanto de uma pessoa a ponto de casar com ela. E seria apenas para agradá-la", afirma. "Se eu chegar à velhice sem fazer sexo e sem casar, tranquilo".

Leia a história de Luciana:

"Em 1989, quando me mudei para uma escola no interior do Paraná, percebi que era diferente das outras meninas. Eu achava esquisito elas curtirem beijar garotos. Eu achava nojento. Na época, os únicos lugares que falavam sobre sexualidade eram revistas adolescentes, mas nunca era sob o ponto de vista de quem não se interessa por sexo. Por isso, achava que eu tinha um problema de timidez, temperamento. Pensava que eu era muito conservadora, que só queria ter intimidade depois do casamento.

Em 2002, quando eu tinha 27 anos, comecei a namorar um cara que conheci em um grupo de poetas. Olhei para ele e o achei lindíssimo, mas pensei que ele nunca teria nada comigo. No entanto, ficamos juntos e começamos a namorar.

Nesse relacionamento, o sexo nunca se tornou um assunto entre a gente. Isso porque o que eu pude fazer para evitar qualquer intimidade com ele, eu fiz. Estávamos sempre acompanhados por outras pessoas. Ao longo do tempo, ele deve ter percebido que eu evitava o assunto, mas nunca falamos disso. Naquela época, se ele me perguntasse, eu diria que faria sexo apenas após o casamento. Namoramos por cerca de um ano. Depois, ele voltou para a cidade dele, no interior do Paraná. A gente acabou perdendo o contato.

Em 2004, quando eu tinha 29 anos, estava muito encasquetada com o fato de eu ser uma mulher adulta e ser virgem. Aproveitei um computador comunitário para pesquisar sobre a existência de outras pessoas adultas que nunca tinham tido relações. Foi assim que encontrei comunidades sobre assexuais no Orkut. Eu me identifiquei bastante com a assexualidade. Foi um alívio perceber que eu não era um extraterrestre, que não sou tão diferente assim. Foi ótimo perceber que não sou a única a não ter interesse.

Comecei a namorar o meu segundo companheiro mais ou menos na mesma época em que descobri a assexualidade. A gente se conheceu na fila de uma agência de empregos. No entanto, como eu já sabia que era assexual, foi mais fácil falar sobre o assunto com ele. Disse que não gostava muito de sexo e que talvez tentasse apenas depois do casamento. No início, ele estranhou bastante, mas foi levando.

Nós dois tínhamos um acordo: ele podia procurar mulheres em boates e bordéis para transar. Eu não tinha ciúme, então não havia qualquer problema. Para mim, o amor sempre foi muito diferente de sexo, como diria a música da Rita Lee [Amor e Sexo]. Não tinha como impor a ele um relacionamento sem qualquer relação sexual só porque eu não queria. Eu o deixava livre para ter uma vida sexual.

Tivemos um relacionamento sério por cinco meses e passamos mais ou menos 13 anos de rolo, indo e voltando. Desde então, não tive mais nenhum relacionamento firme. Tenho alguns rolos, amores platônicos, mas nada muito sério.

Meus familiares lidam muito bem com o fato de eu ser virgem e assexual. Primos distantes, tias ainda ficam perguntando sobre a minha vida amorosa. Eles estranham o fato, mas não ligo. Os meus amigos também sabem e levam numa boa.

Atualmente, decidi ficar um pouco quieta. Não pretendo fazer sexo. Se eu gostasse muito de uma pessoa a ponto de casar com ela, eu até pensaria na ideia em ter relações, mas apenas para agradar a pessoa. É algo que eu faria se valesse muito a pena. No entanto, já estou em uma idade que não espero mais ter esse tipo de compromisso. Se eu ficar sem fazer sexo ou sem casar até a velhice, eu vou achar uma coisa tranquila."