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Diversidade


Santo gay? São Sebastião e mais ícones cristãos amados por LGBTs religiosos

Marcelo Testoni

Colaboração para Universa

2019-05-17T04:00:00

17/05/2019 04h00

"Alguns santos provavelmente eram gays. Você pode ficar surpreso quando chegar ao céu e ser recebido por homens ou mulheres LGBT", escreveu James Martin, padre nomeado pelo Papa Francisco como consultor do Vaticano, a homofóbicos no seu Facebook, em 2017.

Bem antes da declaração de Martin, o historiador John Boswell (1947 - 1994), da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, já falava dessa possibilidade, tanto que escreveu entre os anos 1970 e 1990 vários livros sobre o assunto, entre os quais "Cristianismo, Tolerância Social e Homossexualidade" e "Uniões do Mesmo Sexo na Europa Pré-Moderna".

Neste 17 de maio, Dia Internacional contra a Homofobia, veja quem são os santos católicos considerados padroeiros e ícones de resistência LGBT.

São Sérgio e São Baco

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Os santos Sérgio e Baco foram apresentados na Parada Gay de Chicago e tornaram-se ícones LGBT Imagem: Divulgação

Mártires do século 4, São Sérgio e São Baco tiveram sua história descrita pela primeira vez num texto grego antigo conhecido como "A Paixão de Sérgio e Baco", onde são descritos como "erastes", ou amantes. Segundo o texto, os dois eram oficiais do exército romano e não se separaram nem depois da morte. Quando Baco foi morto, no dia seguinte, seu espírito teria aparecido a Sérgio para encorajá-lo e mantê-lo firme na fé para que pudessem se reunir novamente. Em Roma, existe uma igreja dedicada aos dois santos, datada do século 9.

No livro "Cristianismo, Tolerância Social e Homossexualidade" é dito que os dois santos formavam um casal gay respeitado pela Igreja, que, com o decorrer dos séculos, teria tentado encobrir seu passado. Boswell sugere ainda que Sérgio e Baco celebraram um rito chamado "adelphopoiesis", que, segundo ele, consistia em um tipo de união de mesmo sexo, o que sustenta sua teoria de tolerância dos primeiros cristãos em relação à homossexualidade.

Em 1994, graças a Robert Lentz, pintor americano gay de ícones religiosos, os dois santos foram apresentados na Parada Gay de Chicago, onde ganharam visibilidade mundial e conquistaram milhares de devotos LGBTs.

São Sebastião

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São Sebastião se consagrou como ícone sadomasoquista no Renascimento Imagem: Divulgação

Na tradição cristã, esse mártir é apresentado como um soldado que teria sido flechado e depois surrado até a morte por desafiar o Império Romano e sair em defesa dos cristãos, que eram perseguidos. Já sua associação com o universo LGBT, que o tem como um ícone e padroeiro, teria ocorrido há séculos, afirma Richard Kaye, pesquisador da Universidade de Princeton, em "Perdendo Sua Religião: São Sebastião como Mártir Gay Contemporâneo", em português.

"Acta Sanctorum [coleção Atos dos Santos, da Igreja Católica] indica um vínculo emocional entre Sebastião e seus oficiais comandantes, observando que ele 'foi muito amado pelos imperadores Diocleciano e Maximiano'", comenta Kaye, observando que o queriam sempre por perto, como guarda pessoal, e talvez amante, ignorando-o como cristão até se rebelar.

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O filme "Sebastiane", de 1976, aborda a vida de São Sebastião sob a perspectiva LGBT Imagem: Divulgação

Já no Renascimento, o santo começou a ser retratado como um jovem de físico atlético e seminu. "A iconografia cristã de São Sebastião sustenta um ideal homoerótico. Em êxtase, recebendo as flechadas. Ele representa a natureza supostamente sadomasoquista do erotismo masculino", afirma Kane, observando que no século 19 e, mais recentemente nas últimas décadas, a imagem do santo ressurgiu como emblema da identidade e resistência gay, mantendo o erotismo: "Gays contemporâneos viram imediatamente em Sebastião o anúncio comovente do desejo sexual e um exemplo de gay escondido no armário que foi torturado".

São Sebastião aparece nas obras de Oscar Wilde e Frederico Garcia Lorca; no filme com temática gay "Sebastiane" (1976) e no clipe da música "Losing My Religion", da banda R.E.M.

Outros santos LGBT

São Aelred, ou Elredo, de Rievaulx, monge inglês que viveu por volta do ano 1100, deixou escritos particulares, como "De institutione inclusarum" em que fala que se rendeu a "uma nuvem de desejo" que surgiu dos impulsos da carne e da "doçura do amor e da impureza da luxúria" que tiraram proveito de sua juventude.

Boswell diz que em "De Spiritali Amicitia" [Sobre Amizade Espiritual] o santo também fala de sua homossexualidade e sobre "amor entre pessoas do mesmo gênero". De acordo com o historiador James Neill, Aelred tinha um caso com um monge chamado Simon e se dedicou a ele até a morte.

Várias organizações gay friendly adotaram São Aelred como seu santo padroeiro, incluindo Integrity USA, que trabalha pela inclusão de LGBTs na Igreja Episcopal dos Estados Unidos.

Em se tratando de santas lésbicas, Boswell relata em "Uniões do Mesmo Sexo na Europa Pré-Moderna", a possível união de Santa Perpétua e Santa Felicidade, executadas juntas e publicamente em um anfiteatro da África romana no século 3.

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Santa Perpétua e Santa Felicidade formariam um casal lésbico Imagem: Divulgação

"A natureza precisa do relacionamento entre elas não é clara. Essa incerteza é aumentada pelo fato de que nem marido é mencionado: no caso de Felicidade, isso poderia ter ocorrido porque ela era escrava e o casamento de escravos não era legal, mas Perpétua era uma nobre", observa Boswell, alegando que, por ser da elite, sua situação era incomum. Ele também afirma que, ao final de seu martírio, as santas foram lembradas como "os mais viris dos soldados". Santo Agostinho dizia que seus nomes estavam predestinados e, juntos, resultariam em "felicidade eterna".