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Carreira e finanças


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"Fui contratada pelo Facebook quando estava grávida de 8 meses"

Arquivo Pessoal
A gerente de marketing de produto Camila Rocca, 38, começou a trabalhar no Facebook com 38 semanas de gestação Imagem: Arquivo Pessoal

Natália Eiras

Da Universa

2019-05-10T04:00:00

10/05/2019 04h00

A gerente de marketing de produto Camila Rocca, 38, estava pensando em mudar de emprego quando engravidou de seu segundo bebê, Nina. Com 20 anos de experiência em comunicação, ela sabia que seria difícil conseguir uma recolocação estando grávida. Afinal, o risco era outro: o de acabar sendo deixada de lado em projetos importantes da agência onde trabalhava ou perder o emprego quando voltasse da licença-maternidade.

O receio que ela sentia era legítimo: segundo estudo realizado pela FGV (Fundação Getúlio Vargas), 48% das mulheres que têm filhos perdem o emprego em até dois anos após a licença. Camila presenciou esse tipo de situação acontecer na baia ao lado. "A prática do mercado é não valorizar as mães. Já vi muitas colegas deixando de trabalhar depois da licença-maternidade porque a empresa criava uma desculpa para corte", diz à Universa.

Quando estava com um barrigão de oito meses, no entanto, foi convidada para participar de processo seletivo para um cargo no escritório do Facebook no Brasil, em São Paulo (SP). Foi contratada e começou a trabalhar quando estava com 38 semanas de gestação. "Pedia todo dia para a Nina não nascer para que eu pudesse ficar mais um pouco no escritório antes de sair para a licença-maternidade", fala, rindo.

Veja a história dela:

"A ideia de ter filho estando no mercado de trabalho era tão complicada para mim que decidi engravidar do meu primogênito, Theo, 7, quando fui desligada em um corte de despesas. Mas quando ele tinha dez meses, recebi uma proposta para voltar para a agência e foi muito difícil. Não vou dizer que foi ruim, porque eu sempre fiz questão de não ceder espaço. Quando dava o meu horário, eu levantava e ia embora porque sabia que Theo precisava de mim. Mas tinha receio que não fosse bem-vista por priorizá-lo.

Nos meus 20 anos de carreira, tive outras amigas que engravidaram e era muito comum elas não voltarem da licença-maternidade. A prática do mercado, em geral, é não valorizar mulheres grávidas e mães de crianças pequenas. Então, quando engravidei da minha segunda filha, Nina, eu fiquei com medo do mesmo acontecer comigo. Já vi mulheres grávidas sendo tiradas de projetos importantes da empresa, sendo excluídas de reuniões estratégicas, ficando para escanteio. Mesmo tendo essa impressão sobre o mercado, me inscrevi para algumas vagas para o escritório do Facebook.

O processo seletivo

Porém, como já estava com sete meses de gestação, me candidatei sem criar nenhuma expectativa. Se me chamassem, achei que seria interessante conhecer pelo menos o setor de comunicação. Uma semana depois, tocou o telefone e era o assessor de recrutamento do Facebook me chamando para uma entrevista. As primeiras três conversas foram por vídeo e eles não fizeram nenhuma pergunta sobre a minha vida pessoal. Não perguntaram se eu era casada, se eu tinha filhos, quantos anos eu tinha. As questões que costumavam fazer em outros recrutamentos.

Para a quarta entrevista, eles me convidaram para ir até o escritório para conhecer a pessoa que me gerenciaria caso fosse contratada. Cheguei lá muito grávida. Agora eu tinha certeza que alguém comentaria algo e que nunca mais ouviria falar dessa oportunidade. Digo isso porque, meses antes, eu tinha sido entrevistada por um recrutador e, quando falei que estava esperando um bebê, ele respondeu: 'É, não vai dar para te contratar. Precisamos de alguém aqui'.

Marco Torelli
Camila está trabalhando na sede da empresa de tecnologia há dois anos Imagem: Marco Torelli

A entrevista presencial correu sem que ninguém olhasse para minha barrigona. Na hora de ir embora, eu estava aflita: 'Não sei se vocês perceberam, mas estou grávida'. O gerente deu risada e falou que, se eu fosse contratada, não teria problemas. Cheguei a pensar que teria que abrir mão da licença-maternidade, mas eles disseram que, se fosse o caso, eu teria o direito normalmente.

Na semana seguinte, eles me fizeram a oferta. Perguntei se eles tinham certeza, porque eu já estava com 37 semanas. Comentei que corria o risco de não conseguir nem aparecer no primeiro dia de trabalho, porque o bebê podia nascer a qualquer momento. Eles confirmaram a oferta e eu a aceitei. Quando pedi demissão na agência, ninguém acreditava que estava sendo contratada com a gestação tão avançada.

Chegando no emprego novo

Foi bem surreal, porque eu nunca tinha imaginado que isso aconteceria na minha vida. Tive que lidar durante todo o tempo com a minha própria insegurança. Sendo mulher, já tendo outro filho, fiquei com aquele medo de perder o emprego. Brinco, porém, que foi quando eu realmente curti a minha gravidez. No emprego novo, fui bastante mimada. Depois de duas semanas de trabalho, a minha filha nasceu.

Fiquei quatro meses de licença-maternidade. Quando voltei, o meu time foi bastante compreensível com o fato de eu trabalhar por meio período para amamentar. Eles compraram uma bomba de leite elétrica porque eu solicitei. Elas, posteriormente, ficaram disponíveis em outros fraldários da empresa. Depois de um tempo, participei de um movimento com outras pessoas para que o Facebook aumentasse a licença-maternidade para seis meses, e deu certo. O escritório também disponibiliza uma geladeira para que a gente estoque o leite materno".