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Sobrinha de Roberta Close: "Ela ajudou a lidar com minha transexualidade"

Reprodução/Instagram
Gabrielle Gambine é carioca e estuda Artes Visuais na UFRJ Imagem: Reprodução/Instagram

Camila Brandalise

Da Universa

2019-05-09T04:00:00

09/05/2019 04h00

A carioca Gabrielle Gambine é sobrinha de Roberta Gambine Moreira, a Roberta Close; primeira mulher transexual nacionalmente conhecida. Como a tia, celebridade de primeiro porte nos anos 1980, Gabrielle também é trans. Ela é filha de um irmão de Roberta, fez a transição de gênero em 2016 e, neste ano, retificou sua certidão de nascimento. "Meu nome de registro nunca me pertenceu."

Gabrielle conversou com exclusividade com Universa. Disse ter a tia, que vive na Suíça, como sua grande referência, inclusive de beleza. "Ela era uma tia próxima na minha infância. Tê-la na minha vida me ajudou a entender o que era transexualidade", diz.

Aos 21 anos, Gabrielle estuda Artes Visuais da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) faz trabalhos de modelo e serigrafista. Leia, abaixo, trechos da conversa:

Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram

Sua tia, de alguma forma, influenciou a sua aceitação como transexual?
O contato com ela me ajudou a lidar com a transexualidade e entender o que é. Tê-la na minha vida me fez mais forte, porque ela é uma pessoa corajosa e determinada. Ela é uma referência não só para mim, mas para muitas mulheres trans. A Roberta fez história, mas quero buscar meus próprios caminhos. Nunca quis usar esse parentesco para conseguir mídia.

Como foi sua transição?
Há dois anos me assumi trans e mudei meu visual. Fiz aniversário no dia 24 de abril e, quatro dias depois, consegui a retificação da minha certidão de nascimento com o meu nome, Gabrielle. O nome antigo, de registro, nunca me pertenceu. A retificação foi uma vitória importante na minha vida. Entendo esse processo como uma restituição do meu direito de ser tratada como quero.

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Gabrielle quando criança, em foto postada em seu Instagram Imagem: Reprodução/Instagram

Como sua família lidou com a mudança?
Quando me assumi, conversei primeiramente com a minha mãe, que é a pessoa mais importante da minha vida. No início foi difícil mas, depois de muitas brigas e desentendimentos, ela se tornou uma das minhas melhores amigas. Outros membros da família compreenderam e me apoiaram. Teve quem não se manifestasse, mas mesmo assim, respeitam minha identidade.

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Imagem: Reprodução/Instagram

Que situações de preconceito você já viveu?
Fui impedida de usar o banheiro feminino na faculdade. Uma funcionária foi transfóbica comigo e disse que, enquanto ela trabalhasse lá, eu não usaria aquele banheiro. Também não pude me depilar em clínicas depilatórias, sob a alegação que eles só faziam depilação feminina. As pessoas dizem que nos aceitam e que respeitam nossas questões mas, na prática, os estigmas estão enraizados. Diversas vezes fui tratada no masculino, mesmo com a aparência que tenho hoje, e chamada pelo meu nome de registro em espaços públicos. As pessoas viam que eu era mulher, mas me chamavam pelo nome que estana no RG. Isso aconteceu em consultas médicas, salões de beleza, sala de aula, filas de estabelecimentos.

Pretende seguir a carreira de modelo, assim como sua tia fez?
O que quero é investir na relação entre moda e arte. Estudar artes visuais na UFRJ me dá ferramentas para isso. Lá, participo de um coletivo de serigrafia e quero expor nossos trabalhos falando sobre a questão trans.

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A certidão de nascimento retificada Imagem: Reprodução/Instagram

Você tem um visual andrógino. Quem são suas referências de beleza?
Por causa desse visual, já fui comparada com musas do cinema cult, como Brigitte Bardot. Fico muito lisonjeada. Além da Roberta Close, algumas das minhas referências são as atrizes Chloë Sevigny e Hari Nef (trans da série "You", da Netflix), as modelos Bella Hadid e Lea T. (trans com carreira internacional).