menu
Topo

Minha história


Bullying, bulimia, racismo: ela viveu tudo isso e hoje é modelo plus size

Arquivo pessoal
Modelo plus size, Amanda ficou careca para se destacar no universo da moda Imagem: Arquivo pessoal

Roseane Santos

Colaboração para Universa

2019-05-02T04:00:00

02/05/2019 04h00

Amanda Vieira, 25 anos, enfrentou o racismo, bullying e a bulimia na adolescência. Depois de engordar e ficar saudável, graças a um tratamento com terapeuta, decidiu virar modelo. Hoje ela ficou ainda mais ousada: careca, ela alavanca sua carreira de modelo plus size. Veja seu relato:

"Eu sempre fui uma criança gorda e na minha infância nem se tinha muito a ideia do que era bulliyng, gordofobia. Nem mesmo o racismo era falado nas escolas.

Lembro de cenas fortes em minha vida, mais ou menos com 8 anos de idade. Aconteciam as tradicionais quadrilhas de festa junina e os meninos se recusavam a dançar comigo. Só queriam as minhas colegas branquinhas, de cabelo loiro e magras. Comecei a viver sozinha no colégio, a me isolar mesmo. Procurava me enturmar com pessoas parecidas comigo, o grupo dos rejeitados.

A minha infância foi difícil. Eram muitas piadinhas. Fui chamada de baleia, Orca e até de gorila. Escutar aquilo era muito pesado. Depois, entrei em outra fase: a adolescência. Dessa época, também não tenho boas lembranças. Principalmente por questões de racismo. As minhas amigas sempre com namoradinhos e eu sem ninguém. Tudo isso me pressionou a tomar algumas atitudes. Escutei umas meninas na escola falando para vomitar depois que comesse ou então tomar remédio para ir ao banheiro. Pensei: é isso que tenho que fazer.

O meu pai é nordestino e um cozinheiro de mão cheia. Não resistia aos pratos dele. Então eu comia, esperava ele sair para a rua e depois ia para o banheiro, colocava o dedo na garganta e vomitava. Depois, uma amiga minha falou para eu tentar também associar isso aos laxantes.

Primeiro, fiquei com medo. Já pensou ter que ir toda hora ao banheiro? Mas ela me convenceu. Tudo isso aconteceu quando eu tinha de onze para doze anos. Até mais ou menos 13 anos, eu sofria com a bulimia, até começar a passar muito mal. Chegava à escola e desmaiava. Já estava fraca, mas meus pais não estavam percebendo a mudança no meu corpo.

Arquivo pessoal
Antes de raspar o cabelo, depois de passar pela transição capilar: "Me apaixonei pelos cachos" Imagem: Arquivo pessoal

Eles só notaram mesmo quando as roupas não serviam mais em mim e cheguei ao manequim 38. Precisei ficar internada no hospital durante um tempo para repor vitaminas. Nunca me esqueço de quando me olhei no espelho e comecei a chorar. Ali não era mais eu. Senti falta da Amanda que eu era antes. Durante a internação, fiz um tratamento com um endocrinologista, com um nutricionista, um clínico geral e com uma psicóloga.

A psicóloga trabalhou muito a disfunção corporal e eu iniciei o meu processo de aceitação. Só quando tinha 15 anos, voltei ao meu peso normal. Fui para o manequim 44 e dei um abraço forte na terapeuta na última sessão. Eu estava me sentindo bem, feliz. Depois engordei mais e fiquei no manequim 46. Só que os problemas relacionados à aparência não estavam exclusivamente ligados ao corpo.

A gente tem uma cultura de mídia onde a beleza branca é totalmente enaltecida. Hoje vejo fotos antigas e observo que meu cabelo era lindo, maravilhoso. Só que tinha duas questões. A minha mãe não sabia cuidar direito do cabelo crespo, não tinha muito tempo e resolveu alisar. Eu fui crescendo com essa referência que a minha mãe me passou: "cabelo liso é mais bonito e mais prático".

Via as minhas amigas com o cabelo balançando e queria que o meu balançasse também. Só que chegou uma época da minha vida em que decidi não ficar mais escrava de chapinha, de escova, de progressiva. Queria me libertar, inclusive do megahair, porque tinha uma dificuldade imensa de usar o cabelo curto.

Eu tive vários problemas dermatológicos por conta dos alisamentos. O meu couro cabeludo ficava em feridas. Quando tinha vinte anos, passei pela transição capilar e deixei meu cabelo natural. Deixei ele bem curtinho e depois ele cresceu cacheado. Me apaixonei pelos cachos. Estava com um visual lindo. Aos 18 anos, eu recebi um e-mail falando de uma seleção para modelo plus size. Primeiro estranhei, achei até que não fosse real. Nunca tinha passado por minha cabeça ser modelo, mas minha mãe deu a maior força e resolvi tentar.

Jaylton B. Pimentel/Divulgação
No Miss Plus Size em 2018, Amanda ganhou o título de Miss Fotogenia Imagem: Jaylton B. Pimentel/Divulgação

Passei nessa seleção e fui agenciada. Consegui fazer alguns trabalhos pequenos e me profissionalizei. Em 2015, eu passei para o Concurso Miss Plus Size Carioca. Fiz muitas amizades e foi um momento especial para mim. Vi mulheres que tinham passado por várias situações iguais a minha, que estavam ali com o mesmo objetivo. Não consegui nenhuma colocação, mas desde então surgiram várias oportunidades como modelo.

Em 2017, quase desisti de ser modelo, mas umas amigas de São Paulo me incentivam a continuar e persistir mais um pouco. No ano seguinte, resolvi raspar minha cabeça. Logo eu, que amava meu cabelo e que fiquei anos com um megahair longo. Só que um belo dia, um amigo fotógrafo falou : Amanda, acho que você careca iria funcionar muito na moda. Seria um diferencial, quase não se tem modelo careca.

Raspei, estou careca e isso foi uma resolução na minha vida. Hoje sou contratada por duas agências, uma no Rio e outra em São Paulo. Atualmente estou em uma campanha para Natura, primeira grande marca que trabalho. Participei novamente do concurso de Miss Plus Size em 2018 e dessa vez ganhei o título de Miss Fotogenia. Então, me apresentando outra vez: sou modelo, tenho 25 anos, graduada em Psicologia e feliz."