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Diversidade


A dificuldade de sair do armário: lésbicas relatam histórias de dor e afeto

Elisa Soupin

Colaboração para Universa

2019-04-30T04:00:00

30/04/2019 04h00

Abrir o jogo sobre a homossexualidade para amigos e família é um processo delicado. Enquanto em alguns casos o assunto é tratado com naturalidade e acolhimento, em outras situações, a homofobia começa dentro do próprio lar.

Universa conversou com mulheres e relata experiências muito diferentes sobre a hora de sair do armário. Há quem tenha sido acolhida, há humilhação e até situações inusitadas.

Negação, religião, ameaças e gravidez

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

"Comecei a me relacionar com mulheres aos 14 anos. O processo de aceitação comigo foi muito doloroso, chorava bastante e me reprimia. Tinha medo de magoar minha mãe, de ser julgada. Aos 15, tive amigas que também estavam se descobrindo e pude experimentar a minha liberdade ilusória.

Aos 17, minha mãe, desconfiada, mudou de Duque de Caxias para Campos de Goytacazes, no Rio, em uma tentativa de me afastar das "péssimas amizades" e me isolar. Ficamos próximas da família dela, onde todos são evangélicos fanáticos.

E, então, me vi prisioneira. Antes de me mudar, eu estava namorando uma menina e postava coisas sobre nós em uma rede social. Um primo acessou o computador que eu usei, descobriu, e espalhou para toda a família. Fui ridicularizada, chantageada. Tiraram meu celular, eu não podia acessar a internet, ter amizades fora da igreja, ouvir músicas "mundanas".

Chegou até o ponto de não poder usar tênis, porque seria para "me sentir homem". Era obrigada a ouvir sermões e salmos. E claro, não podia sair. Minha mãe não me agrediu, mas me ameaçou muito. Eu passei a fugir de casa, pulava o muro ou inventava situações religiosas para conseguir sair. Me sentia em um cárcere, privada de amar.

Me cobravam que, se eu não havia transado com homens, não poderia ter certeza da minha sexualidade. Vivia um processo de heterossexualidade compulsória e em uma das fugas, acabei transando com um desconhecido. Estava extremamente bêbada e ele agiu como quis. Usamos camisinha, mas ele tirou sem minha permissão. Descobri um mês depois que estava grávida, quando fiz 18 anos.

Fugi de casa, deixando uma carta e fui em busca da minha liberdade, mesmo com a maternidade chegando pra me acorrentar. Hoje vivemos eu e meu filho Pierre, ele tem oito anos e ama minha namorada. Minha família segue religiosa e acreditando em uma milagre divino e eu sigo acreditando no amor", Mardejan, cantora, 27 anos.

Delatada pela 'máquina da verdade'

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

"Meu pai trabalha com terapias alternativas, holísticas e frequências corporais. Quando eu tinha 18 anos, ele comprou um aparelho em que você coloca uns eletrodos na cabeça, nos pulsos, nos tornozelos e fica relaxado enquanto essa máquina vai passando várias frequências para um programa que lê e interpreta o que cada uma delas significa.

Ele me passou nessa máquina e depois me chamou para conversar, prescreveu alguns florais e falou: 'então, eu queria te perguntar uma coisa, eu vi nas suas frequências tendências homossexuais. Você quer conversar sobre isso, filha?' e eu fiquei: eita, eita, eita. E aí admiti e falei 'pai, então: a máquina está certa, pelo menos agora sabemos que ela funciona mesmo'. Ele foi tranquilo, e desde então meus amigos chamam esse aparelho de máquina da verdade. Mas foi muito louca a forma como meu pai descobriu", relembra a tatuadora Jessica Luz, de 28 anos.

Independência financeira, direito de amar, e, por fim, aceitação

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

"Eu, desde sempre, tinha me relacionado com homens. Tinha terminado um relacionamento abusivo há cerca de dois anos, e, nesse meio tempo, tinha saído do armário pra mim mesma. Pra mim, a saída do armário veio no mesmo momento da independência financeira. Quando eu terminei a faculdade e, com 23 anos, consegui me bancar, e não precisei mais dos meus pais.

Contei para minha mãe primeiro, quando eu comecei a namorar uma mulher. Minha mãe reagiu me dizendo que preferia que eu estivesse com um homem casado e com filhos, e me proibiu de contar para o resto da família, porque ela não queria ter essa vergonha. Eu pedi que ela esperasse eu mesma contar paro meu pai e ela não esperou.

Aí, foi uma sucessão de coisas horríveis. Eles são da igreja e não aceitavam, não falavam com a minha namorada, não olhavam, não perguntavam: nada. Depois dessa relação, eu firmei o pé, dizendo que gostava mesmo de mulheres e que isso não iria mudar.

Tive que bloquear os meus pais de todas as redes sociais e do Whatsapp, porque eles falavam sobre como eles ficavam mal, perguntavam qual era a necessidade de eu postar fotos com a minha namorada, ficavam perguntando aonde eles tinham errado, por que eu tinha terminado a relação com um cara, só que eles não sabiam que, nos bastidores, a relação era ruim.

Ficamos meses sem nos falarmos, e, depois de um tempo, eles aceitaram receber a minha namorada, que agora é esposa, na casa deles. A gente avisou que ia casar. Foi difícil, mas eles vieram ao nosso casamento, em novembro do ano passado e, depois, meu pai esteve na nossa casa, ficou uns dois dias, minha mãe também esteve lá recentemente. Agora eles já perguntam por ela, chamam pelo nome, querem saber, já a abraçam. Mas, até hoje, eles nunca pediram desculpa", conta Mariana Sampaio, 26 anos, servidora pública, que está casada e muito feliz.

Acolhimento e respeito ao tempo

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

"Saí do armário há cerca de oito anos. Liguei para minha mãe, que mora em outro estado, e disse que estava indo visitá-la, mas que levaria minha namorada. E ela, prontamente, disse que tudo bem. Depois me mandou várias mensagens de afeto e disse que falaria com meu pai, que também foi tranquilo.

A essa altura minhas irmãs já sabiam e um tio, que é gay, já havia conhecido a minha primeira namorada, me acolhendo em todos os momentos. Contar para a família me ajudou a sair de um processo de depressão profunda, porque me assumi lésbica muito tardiamente, com 26 anos, e foi uma libertação emocional. O que mais me marcou na fala da minha mãe foi "Eu já sabia, sempre soube, e só estava esperando você me contar".

Ela respeitou meu momento e me deu todo apoio diante do restante da família. Foi aí que comecei a falar abertamente nas redes sociais. Ao mesmo tempo, percebi que outros espaços foram fechados, como alguns núcleos da família e de amigos. Mas houve muito apoio e acolhimento. E o que eu mais ouvi foi: "nós sempre soubemos".

Tirei um peso da minha vida. Mas entendo que sair do armário não é para todas as pessoas, uma vez que nós, lésbicas, somos ameaçadas pelo estupro corretivo, assassinato. Ficar no armário, muitas vezes, significa estratégia de sobrevivência diante do quadro de lesbofobia", conta a editora Camila Marins, de 34 anos.

Sair do armário em casa e no trabalho

"Eu nunca tive um relacionamento maravilhoso com a minha família. Até que eu me apaixonei por essa menina, C., e comecei a sair com ela direto. Um dia, minha mãe me avisa pra eu tomar cuidado porque ela sabia que a C. era sapatão e ia querer me comer. Eu aproveitei a deixa para dizer um 'Tomara!' e falar que eu também era sapatão e não via nada demais, minha mãe ficou com nojo e se recusou a encostar ou falar comigo direito por meses.

Ela sugeriu que meu irmão me tirasse das redes sociais, pois poderia pegar mal ele ter ligações com uma pessoa gay; meu pai me fez prometer que eu nunca seria foto de capa de um jornal no topo de um trio elétrico com os peitos de fora numa parada gay. Eles passaram a me tratar mal e não falar comigo, tentar me impedir de sair, ou fazer pequenas humilhações diárias.

Por fim, avisei que sairia de casa. Eles, então, fizeram uma conta de tudo que já haviam gastado comigo na vida e me ofereceram para pagar um aluguel para ficar na casa deles, para que eles pudessem ser compensados pelos anos que passaram investindo em mim para eu estudar e ter sucesso ao invés de acabar 'me tornando' sapatão e arruinar tudo. Eles fizeram os cálculos de quantas viagens teriam feito à Europa não fosse o fardo de me criar e sustentar.

Depois de muito tempo e terapia, hoje temos um relacionamento agradável e nos falamos com frequência. Eu também tive que sair do armário no trabalho, em um lugar muito tóxico, repleto de pessoas machistas e homofóbicas. Percebi logo nos primeiros dias que não daria pra ser assumida nesse emprego.

Deixei o cabelo crescer para as piadas diminuírem e ouvia calada os comentários homofóbicos. Tinha medo de ser mandada embora. Um dia, cheguei para trabalhar e minha chefe me chamou em particular e disse que estava oferecendo a oportunidade de me explicar, pois alguém tinha contado para ela que eu sou gay e se ela soubesse disso antes ela não teria me contratado. Ela queria entender a razão de eu não ter contado para ela. Fiz um barraco, falei que era um absurdo, que eu não precisava da permissão dela para existir.

Foi uma história engraçada, porque o argumento dela foi que quando ela me imaginava com uma mulher, ela me imaginava fazendo atos sexuais muito fora da caixinha e isso a deixava desconfortável.

Respondi que quando ela me contou que era casada, eu não a imaginava chupando o marido dela, então não entendia a dificuldade. Encerramos a conversa ali e passei um ano trabalhando com ela, e ela interrompendo cada vez que o nome da minha namorada era mencionado", conta a professora M, de 31 anos, que, apesar de ser assumida, prefere não ter a identidade revelada pois muitas pessoas de seu convívio profissional são homofóbicos.