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Mulheres protagonizam um mundo em evolução


Havaiana sobre ser lésbica no surf: "Não achava que poderia ser a melhor"

WSL / Hallman SOCIAL
Em 2018, a surfista Keala Kennelly encarou um mar com ondas de 15 metros de altura Imagem: WSL / Hallman SOCIAL

Luara Calvi Anic

Colaboração para Universa

2019-04-29T04:00:00

29/04/2019 04h00

Keala Kennelly é a melhor surfista de ondas grandes do mundo. Em um campeonato feminino recente, o Jaws Challenge 2018, encarou um mar com ondas de 15 metros de altura, ou um prédio de cinco andares, e ficou em primeiro lugar. Deixando a brasileira Andrea Moller como vice.

No começo do mês, Keala chamou a atenção por um discurso em que falou sobre como é ser mulher, e assumidamente gay, nesse esporte. "Aos 25 anos, eu me escondia no armário, morria de vergonha, de medo e me odiava porque eu não achava que poderia ser a melhor surfista do mundo e gay ao mesmo tempo", ela disse, enquanto sua namorada a filmava na plateia da premiação da Liga Mundial de Surf, em que Keala levou o título em sua categoria.

"Eu precisei sonhar maior e, hoje, posso ser a primeira campeã mundial abertamente lésbica. Consigo me orgulhar de quem eu sou e me amar exatamente como sou --e não como as pessoas querem que eu seja. E espero inspirar outros atletas LGBT, que estão sofrendo em silêncio, a viverem suas verdades", disse a surfista de 40 anos.

Um dos maiores feitos da havaiana foi se tornar a primeira mulher a vencer um mundial de ondas grandes, contra homens e mulheres, e levar o prêmio Pure Scot Barrel, em 2016. O evento aconteceu no Taiti, ilha na Polinésia Francesa.

"Foi provavelmente a vitória mais satisfatória que eu tive", ela disse à Universa. Faz sentido, já que desde sempre Keala teve que ouvir que o surf não era um esporte para garotas. "Me disseram que mulheres não podem dropar, não podem pegar grandes ondas, e a lista continua. Então quero agradecer a todos aqueles que falaram que eu não poderia fazer isso porque sou uma mulher. Venho dedicando minha vida a provar que vocês estavam errados, e tem sido bem divertido", disse logo após a vitória.

Ano passado, Keala fez parte de um comitê feminino que conseguiu incluir mulheres em um tradicional campeonato antes direcionado apenas a homens, o Titans of Mavericks Big Wave, e vencer uma antiga luta por salários iguais pagos pela Liga Mundial de Surf.

A atleta, que também é DJ e atriz, correu seu primeiro campeonato internacional aos 14 anos, no Rio de Janeiro. Sobre a ausência de atletas assumidamente gays no futebol brasileiro, nosso esporte mais popular, ela opinou: "Se eles não abriram o jogo até agora é porque têm medo". Confira a seguir sua conversa que ela teve com a Universa.

WSL / Hallman SOCIAL
Imagem: WSL / Hallman SOCIAL

Qual a importância de atletas se posicionarem sobre a própria sexualidade, como você vem fazendo?
Normalizar isso na sociedade. Se você se esconde ou age como se tivesse vergonha, as pessoas vão fazer você sentir como se fosse para ter vergonha mesmo. Se está confortável consigo mesma elas podem até não concordar, mas vão respeitar.

No Brasil, nós não temos um único jogador de futebol profissional masculino --o esporte mais popular do país-- que tenha assumido sua homossexualidade. O que pensa sobre isso?
Acho que estatisticamente seria impossível não existir nenhum atleta no futebol brasileiro que seja homossexual. Se eles não abriram o jogo até agora é porque têm medo. Eles têm medo de serem ridicularizados, têm medo de que o clube possa deixar eles de fora, de que os parceiros de time vão tratá-los de maneira diferente. Existem muitas razões para esconder que você é gay, mas esconder quem você é e viver uma mentira é muito prejudicial para uma pessoa. Nossos atletas merecem mais do que isso. Eles merecem se sentir seguros, protegidos. Não deveriam achar que é necessário escolher entre eles e o esporte. Eles precisam ser apoiados pelo time, pelos patrocinadores e pelos fãs.

Você disse que quando começou a competir profissionalmente vivia com medo e se odiava. O que diria para outros que sentem o mesmo?
O primeiro passo é aprender a se amar e a entender que não há nada de errado com você. Sair do armário é muito assustador. Você questiona se as pessoas da sua vida vão continuar te amando do mesmo jeito. Por isso que é importante fazer isso quando sentir que é a hora, no seu próprio tempo. Mas, devo dizer, quando parei de esconder uma parte de mim e pude finalmente ser honesta sobre minha sexualidade com meus amigos, minha família e com o resto do mundo foi uma das sensações mais libertadoras que já senti na vida.

Quando criança, você costumava surfar principalmente com meninos. Quando se deu conta de que havia mais espaço para eles no surf?
Eu realmente mudei muito quando comecei a viajar participando de campeonatos profissionais. Mulheres são tratadas como cidadãs de segunda categoria nesses eventos. Sempre pegando as piores condições para o surf já que os organizadores reservam os melhores momentos [do mar] para os homens. Nós recebíamos uma fração do prêmio e, quando fiz minha primeira turnê a atitude era de que nós, atletas mulheres, não éramos importantes e deveríamos simplesmente ficar quietas e agradecer por estarmos ali.

Você teve homens e mulheres como adversários quando levou o prêmio Pure Scot Barrel. Acha que tem que ser assim em outros esportes?
Homens e mulheres são biologicamente diferentes. Eu cito o boxe como exemplo: você não colocaria um peso pena com um peso pesado no ringue, então por que colocaria um homem e uma mulher para lutar? Mulheres são criticadas por não serem tão boas quanto os homens nos esportes, mas o que precisa ser entendido é que não somente há diferenças biológicas como as mulheres também não são encorajadas a praticar uma atividade física tanto quanto os homens são. Não é dado a elas a mesma oportunidade e apoio do que os atletas homens recebem. Acho que deve haver divisões para homens e mulheres no esporte. Mas, ao mesmo tempo, se existem certas atletas mulheres que se destacam e querem testar sua performance contra homens elas deveriam ser autorizadas.

Você sofreu bullying na infância por surfar?
Sim, eu tive de lidar com muito bullying vindo de outros surfistas, especialmente quando eu costumava ganhar deles nos campeonatos. Eles foram ensinados que era vergonhoso perder para uma garota, então eles me atacavam. Eu não conseguia entender por que eles eram tão malvados comigo. Conforme fui ficando mais velha e comecei a enfrentar ondas como as de Pipeline [zona de surf na ilha de Oahu, no Havaí, conhecida pelas ondas perfeitas], os caras na água tentavam fazer eu me sentir como se não pertencesse àquilo. Muitos deles caiam em cima de mim ou me empurravam para que eu desistisse. Foi difícil mas eu superei isso. Agora esses caras em Pipe me respeitam. Mesma coisa quando comecei a surfar grandes ondas. No começo eu fui levada a sentir que mulheres não pertenciam a essa categoria.

Como as mães e pais podem ajudar suas filhas nesse tipo de questão?
O que podem fazer é ensinar suas filhas a se amarem, a terem autoestima e respeito próprio. Coloquem suas filhas num esporte. Os esportes servem para fazer as pessoas se sentirem autoconfiantes. Não façam elas acharem que são fracas ou delicadas porque são garotas. Pais também podem ensinar seus filhos a respeitarem as mulheres. É importante ensinar garotos que eles não deveriam se importar com gênero no esporte, somos todos atletas. Às vezes, mulheres vão performar melhor do que eles, e nem por isso precisam sentir-se mais envergonhados.

Marcas de surf, na maioria das vezes, escolhem mulheres consideradas bonitas, femininas e héteros para suas campanhas. Quão prejudicial esse tipo de escolha é para o esporte e para as mulheres em geral?
Faz com que os atletas e o público acreditem que você só é valioso se for bonito e que o seu atletismo fica atrás da sua aparência. Os esportes não devem ter nada a ver com aparência, apenas com seu desempenho atlético. Vale lembrar que existem competições para quem é mais bonito: elas se chamam concurso de beleza.

Você é muitas vezes chamada de destemida. Concorda?
Não sou uma pessoa sem medo. Aqueles que não têm medo são ignorantes em relação às consequências. Sou bem consciente dos riscos que corro e tento fazer boas escolhas para aumentar as minhas chances de sucesso. Tenho medo toda vez que remo em ondas grandes, eu sei os perigos e voluntariamente me coloco nesse caminho. Se você não tem medo também não sente aquela euforia de quem conseguiu um resultado positivo. A coisa mais importante é usar o medo como um caminho construtivo, não deixar isso te paralisar. Sentir medo, superá-lo e ainda triunfar é dos sentimentos mais fortalecedores que você pode ter - e é por isso que eu faço o que faço.

Como se imagina daqui a dez anos?
Eu tenho alguns projetos de filmes e TV nos quais estou trabalhando [Keala já estreou como atriz no filme "A Onda dos Sonhos" (2002) e na série "John from Cincinnati" (HBO, 2007)], então será legal ver onde eles estarão daqui a dez anos. Também estou recebendo muitas ofertas para falar em público em todo o mundo, imagino que farei mais disso. Sonho fazer alguns projetos ambientais e levar o surf à comunidades que não têm acesso. Em uma década, estarei surfando mais por diversão do que por títulos e prêmios. Minha mãe mal pode esperar que eu pare de surfar ondas grandes, ela diz que toda vez tem um ataque cardíaco, mas eu não me vejo parando tão cedo. Desculpe mãe [risos].

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