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Mães e filhos


Mães e filhos

Como contar para meu filho que o pai não quer conhecê-lo?

Getty Images/iStockphoto
Muitas vezes mães solo não sabem como responder aos questionamentos das crianças Imagem: Getty Images/iStockphoto

Jacqueline Elise

Da Universa

2019-04-23T04:00:00

23/04/2019 04h00

Quando a filha da técnica em enfermagem Ive Souza, 38, tinha sete anos de idade, ela perguntou à mãe onde estava o pai dela. Ive e o homem tinham uma relação complicada, e ele nunca participou da criação da menina. Porém, agora com 12 anos, a garota voltou a ter interesse pelo paradeiro do pai. "Ela está rebelde demais, tem ansiedade e fala que não importa quem ele seja, quer conhecê-lo".

Ive está passando por um dilema muito comum entre mães solo: quando a criança quer saber do pai ausente. "E ela vai cobrar, estejam preparadas", avisa Ive. Mas como sanar a dúvida sem traumatizar a criança ou explicar demais a situação? As especialistas Deborah Moss, neuropsicóloga e mestre em psicologia do desenvolvimento humano pela USP (Universidade de São Paulo) e Marina Vasconcellos, psicóloga e especialista em psicodrama terapêutico pelo Instituto Sedes Sapientiae, dão dicas de como passar por isso:

Quando a criança costuma ter essa dúvida?

"Antes, a criança ainda se vê como um ser simbiótico à mãe. Na medida em que ela vai crescendo, ele consegue separar as coisas, com o surgimento da linguagem e das interações sociais. Vai ter criança que vai perceber isso logo cedo, outras, não. Acredito que por volta dos três ou quatro anos de idade fica mais exacerbada a percepção de que não há um pai presente, mas depende muito da vivência", explica Moss.

Vasconcellos especula como a criança pode se dar conta da situação: "Não tem um gatilho específico. Pode ser que outra criança pergunte a ela: 'Ué, mas você não tem pai?' --uma criança é espontânea, ela não sabe que certas perguntas podem ferir os sentimentos do outro. Pode ser um desenho animado na televisão que mostre um pai, e a criança começa a ver que não tem um em casa. Qualquer situação que ela observe que há um pai presente pode ser um gatilho quando menos se espera".

Deixe a criança perguntar

As especialistas afirmam que o melhor é esperar que a criança venha com a dúvida, e não que a mãe introduza o assunto. "Não precisa deixar de falar no assunto 'pai' em casa, mas não necessariamente precisa chamar a criança para essa discussão se ela não chegou a se interessar pelo papo", diz Moss.

"A criança tem o tempo dela, em algum momento, isso vai acontecer. Se não é uma questão do filho, então calma. Não tem motivos para adiantar o diálogo, pôr a carroça na frente dos bois. A criança não tem nada a ver com a ansiedade da mãe", diz Vasconcellos.

Entenda de onde vem a dúvida

"Quando ela chega para a mãe e pergunta, sempre vale a pena rebater com outra pergunta, desmembrar a dúvida dela. Quando ela chega com esse questionamento à mãe, é porque ela já está partindo de alguma hipótese, ou tem um motivo para estar pensando nesse assunto. Então talvez seja melhor perguntar: 'Mas por que você teve essa dúvida?', e esperar que a criança venha com a explicação dela, para saber o que dizer. Sabendo disso, a mãe pode falar, por exemplo: 'O papai passou por uns problemas e teve que ir para longe. Não sei onde ele está'. Às vezes, o que eles querem saber é muito simples e indolor", pensa Moss.

Simplifique a linguagem

Vasconcellos alerta que, na hora da conversa, a linguagem seja a mais simples possível e que os detalhes do afastamento do pai sejam poupados. "A mãe precisa pensar, caso não tenha uma boa relação com o pai da criança: 'Meu filho não tem a ver com a minha relação pessoal com o pai', para que a criança não sinta que ela atrapalhou a vida da mãe ou que ela é uma 'extensão' desse pai ausente. Criança é muito autorreferente, tem que ter cuidado com a mensagem que passa para ela".

"Use recursos lúdicos, como um livro infantil ou desenhos, para acessar a linguagem da criança. Não use palavras complicadas. Mas é importante usar esses recursos para dizer a verdade, que não tem como o pai estar com ela. Conforme a criança for crescendo, aí a conversa vai se adaptando para o entendimento dela", aconselha Moss.

Não deixe as emoções interferirem na resposta

Moss recomenda que as mães que ainda não conseguem falar direito sobre o tema respeitem seu próprio tempo também. "Se ela perceber que é um assunto que balança muito com as emoções, ou que prefere conversar com alguma pessoa para pedir conselhos antes de se dirigir ao filho, a mãe pode dizer: 'Vamos falar disso em outro momento?'. Mas sem assustar a criança, ela não precisa achar que ela está perguntando algo errado. Dê um tempo e depois volte nesse assunto".

Como evoluir o tema durante o crescimento

As especialistas dizem que, conforme a criança se desenvolve, é natural que ela volte ao assunto do pai. Agora, o quanto deve ser revelado sobre a identidade e o paradeiro dele vai depender do contexto: da relação que a mãe tem com ele, se o pai tem condições de se envolver com a família.

"Para aprofundar o assunto, acho que na adolescência, quase já na fase adulta, é mais adequado. Mas não convém falar ainda na infância, porque isso atrapalha demais a vida da criança, ela começa a se associar ao pai ausente e se perguntar se isso foi culpa dela", pensa Vasconcellos.

Lidar com a situação da forma errada traz consequências

A dona de casa Bianca*, 32, viveu o outro lado: da filha que cresceu sem o pai. Porém, ela passou a infância se sentindo mal por conta do jeito que sua mãe lidou com a situação. "Minha mãe sempre me dizia coisas horríveis. Ela não falava dele, apenas contava como foi que ele acabou com a vida dela, deixando-a sem nada do que compraram juntos, de como ele a deixou às vésperas do casamento dos sonhos dela, de como ela se arrependia de não ter abortado, como ele queria", relata.

"E quando eu dizia que ele voltaria um dia, ela falava para eu 'parar de ser burra', que ele não me queria. Acho que a criança não deve, nunca, saber dessa forma que foi rejeitada. A dor é eterna e a mágoa é dupla: do pai que a abandonou e da mãe quando o ataca em vez de explicar de outro jeito o que houve. Claro que não se deve alimentar fantasias, mas existem muitos outros meios de explicar".