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Violência contra a mulher


Advogada algemada no Rio vai apoiar figurinista alvo de racismo nas redes

Reprodução/Instagram
Larissa Dias, de 23 anos Imagem: Reprodução/Instagram

Mariana Gonzalez

Da Universa, em São Paulo

2019-04-18T15:07:10

18/04/2019 15h07

Dias depois de ter sido fotografada sem consentimento no metrô do Rio de Janeiro e sido exposta nas redes sociais de forma racista, a figurinista Larissa Dias, de 23 anos, denunciou novos ataques -- desta vez, as postagens teriam autoria do jornalista Marcos Roque.

Na quarta-feira (17), ela publicou no Twitter uma série de capturas de tela mostrando publicações em que Roque expõe fotos suas, se refere a ela como "figura com cabelo estranho de tulipa" e ao seu black power como "cabelo duro", "feio" e "um tanto ultrapassado".

Ela denunciou os dois agressores por injúria racial e uso indevido de imagem na Decradi (Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância) e, agora, será representada por Valéria Lúcia dos Santos, advogada negra que foi algemada durante audiência no 3º Juizado Especial Cível, no Rio, em setembro do ano passado.

Nas redes sociais, Larissa Dias contou que o encontro foi uma grande (e feliz) coincidência:

"Eu estava na Central do Brasil ontem, voltando para casa, e encontrei a Valéria. Por coincidência estava com o boletim de ocorrência na mão e contei a ela minha história", contou à Universa. "Ela ouviu e se propôs a me ajudar".

Para Valéria, o episódio em Duque de Caxias, em que saiu do tribunal algemada por ordem de uma juíza, apesar de violento, "rendeu bons frutos".

Em 2018, ela abriu um escritório próprio dedicado a "atuar pelas minorias" e disse, em entrevista à Universa, que viu o número de clientes triplicar e que está viajando pelo país dando palestras.

"Eu fiquei emocionada só de encontrá-la. Acho importantíssima essa representação de mulheres negras, ainda mais defendendo outras pessoas negras", disse Larissa.

Sequência de ataques

Na sexta-feira (12), a jovem contou no Twitter que recebeu de um amigo a print mostrando que uma pessoa desconhecida a fotografou dentro do metrô, enquanto ela estava a caminho do trabalho.

Essa pessoa compartilhou a foto dela com a legenda: "Tirei essa foto porque não contive ver sozinho. Fico imaginando uma criatura dessa quando acorda com esse cabelo".

"Amanhã eu pego esse mesmo metrô para ir trabalhar. Eu só queria não ter que sair de casa e não virar chacota na mão de branco de novo. Essa gente consegue destruir o restinho de autoestima que a gente construiu", desabafou.

Na quarta-feira, a figurinista denunciou o caso na Decradi. "Fui na delegacia, abri um boletim de ocorrência contra essa pessoa e estou aguardando a investigação. Preciso esperar eles apurarem para levar o caso adiante", explicou à Universa.

Dias mais tarde, na quarta-feira (17), ela voltou às redes sociais para denunciar novos ataques -- desta vez as postagens teriam sido feitas no Instagram de Marcos Roque, que se identifica como jornalista, gaitista e agente literário.

"Eles não param", escreveu. "Ele fez mais de um post e ainda me marcou no Instagram, está com tempo de sobra".

Em uma das publicações, Roque diz que Larissa fez "alegações infundadas" ao acusar o internauta que expôs suas fotos no metrô de racismo e questiona: "Qual é o problema de alguém se espantar com um cabelo desse? No mínimo, deve ficar totalmente amassado e engraçado".

Consequências

Larissa contou à reportagem que decidiu denunciar as publicações do jornalista justamente para evitar que esse tipo de ataque seja encarado como normal. "Ninguém tem o direito de fazer isso, usar a imagem dos outros para propagar discurso de ódio", acredita.

Mas essa não foi a primeira vez que a figurinista sofreu um ataque racista na internet.

"Da primeira vez eu deixei passar, mas infelizmente é muito recorrente. As pessoas acham normal. Se a gente não denunciar, eles vão se sentir no direito de cometer [injúria racial] mais vezes", explica.

Após as investigações iniciais da Decradi, Larissa pretende levar o caso à Justiça -- tanto a exposição da foto no metrô quanto as publicações do jornalista. "Estou em contato com a Valéria para entender quais são os próximos passos deste processo", disse.

Procurado por Universa, o jornalista Marcos Roque não se manifestou até a publicação desta reportagem.

O crime de injúria racial caracteriza-se por ofensa à dignidade de alguém, com base em elementos referentes à sua raça, cor, etnia, religião, idade ou deficiência. O Código Penal prevê ao acusado a pena de reclusão de 1 a 6 meses ou multa.