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Pessoas trans também querem ir às igrejas: "Os religiosos são perigosos"

Breno Damascena/UOL
"Se não existissem igrejas inclusivas seria impossível professar minha fé", afirma Ali Carvalho Imagem: Breno Damascena/UOL

Breno Damascena

Colaboração para Universa

2019-04-17T04:00:00

17/04/2019 04h00

Na infância, Samantha Facio tinha o catolicismo presente na sua vida. Frequentava a igreja cotidianamente e chegou até a cantar no coral. A situação mudou no momento em que começou a descobrir a sexualidade. Por causa das caras, bocas e olhares dos outros fiéis, que lhes diziam que o que estava fazendo era pecado, passou a se afastar progressivamente.

Na juventude, durante o processo de transição de gênero, ela voltou a uma igreja. Dessa vez, evangélica. O pastor, quando a viu, questionou o que "aquela abominação estaria fazendo lá". Desde então, por causa do preconceito, nunca mais voltou. Hoje, aos 26 anos, diz que faz orações sozinha, mas conta que pretende, um dia, retornar à comunidade cristã. "Deveriam abrir as portas para todas as pessoas. Somos todos filhos de Deus", defende.

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Durante a transição de gênero, Samantha Facio foi questionada na igreja, por um pastor: "O que essa abominação está fazendo aqui?" Imagem: Breno Damascena/UOL

Histórias como a de Samantha são comuns dentro da comunidade LGBT. Pessoas crentes em Deus que se desprenderam dos templos tradicionais por serem hostilizadas. O distanciamento é ainda mais notável entre travestis e transexuais. No entanto, existe quem tente caminhar na direção contrária e continua indo a paróquias, terreiros, cultos e outros templos.

"Comecei a buscar Deus por causa do sofrimento. A nossa vida não é fácil. Você é discriminada em todos os cantos. Quando eu era rejeitada pela minha família e pela sociedade, ia para a igreja aliviar minha alma", explica a travesti Claudia de Oliveira. Na adolescência, ela foi expulsa de casa por causa da homossexualidade e, aos 23, se mudou para Itália. Após viver 18 anos no país europeu, sofreu um grave acidente de carro, ao qual atribui sua sobrevivência a Deus.

"Ele me livrou da morte. Mesmo nas horas que estou revoltada, Deus está comigo", diz. Com 51 anos, Claudia argumenta que só começou a frequentar a igreja, católica, há dez, porque a família não tinha uma cultura religiosa. Apesar disso, sente que ainda não é totalmente aceita. "Sei que me consideram pecadora e, às vezes, me sinto rejeitada. Mas Deus ama o homossexual. Ele ama mais o pecador do que o imaculado", argumenta.

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A travesti Claudia de Oliveira: "Quando era rejeitada pela minha família e pela sociedade, ia para a igreja aliviar minha alma" Imagem: Breno Damascena/UOL

As situações do cotidiano também motivaram a assistente de um escritório de arquitetura Ali Carvalho a buscar alento na religiosidade. "Passo por uma transição diária, é difícil encontrar um espaço que te aceite como você é", explica. No entanto, Ali descobriu um lugar para professar sua fé sem julgamentos.

Ela participa do coral da Comunidade Cristã Nova Esperança (CCNE), na Vila Mariana, em São Paulo. A igreja tem a proposta de ser inclusiva, abraçando a comunidade LGBT e incentivando a diversidade entre os frequentadores. De vertente evangélica, a maioria do público é formada por gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais, incluindo pastores e congressistas.

"Se não existissem lugares assim seria impossível professar a minha fé e me conectar ao que eu sou. A igreja evangélica tradicional quer 'curar' a homossexualidade", queixa-se Ali. "Tenho a mesma vida de uma pessoa religiosa tradicional, a diferença é que eu prego amor. E o amor deve ser a todas as pessoas", complementa. As igrejas inclusivas chegaram ao Brasil no início dos anos 2000 e o número de seguidores cresce exponencialmente.

"Quando Jesus fala, ele fala de todos. Não é só do hétero. Independentemente de qualquer coisa, ele vive e vai entrar no coração de quem se abrir para ele. Esse vazio dentro de nós só é preenchido por Deus", defende a cabeleireira Jacqueline Chanel.

Ela conheceu a CCNE depois de passar por diversas igrejas evangélicas tradicionais. Natural de Belém, no Pará, foi entregue na porta de uma delas quando tinha 13 anos e a mãe começou a perceber sua sexualidade.

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Culto na igreja Comunidade Cristã Nova Esperança (CCNE), na Vila Mariana, que ampara LGBTs Imagem: Breno Damascena/UOL

Jacqueline explica que o pastor fingia não saber da sua condição e, por isso, se manteve protegida. Já adulta, começou a confrontar consigo mesmo e sua sexualidade, que foi potencializada pela relação que desenvolveu com a religião. Chegou a tentar o suicídio três vezes. "Eu me condenava, achava que era pecadora", justifica. Depois do momento delicado, voltou a buscar a igreja novamente, porém não foi um processo tranquilo.

"Eu não me sentia condenada ou julgada por Deus. Sentia e queria o amor dele. Mas os religiosos não me entendiam. Só conseguiam ver em mim um espírito imundo". Mudou-se para São Paulo e tentou se encaixar em outras igrejas, mas a recepção não era positiva. "Certa vez, o pastor argumentou que não queria nossa presença porque testemunhávamos contra o evangelho e nos expulsos. Aquilo me abalou, mas não perdi a minha fé", ressalta.

Depois das várias provações, conheceu a igreja inclusiva e diz que sua vida mudou. "Agora eu posso adorar a Deus do jeito que eu sou. Sei que daqui não seremos expulsas", diz. Mas comenta, entretanto, que ainda há um caminho para percorrer, pois, mesmo dentro da proposta de diversidade da igreja, ainda existe resistência à comunidade trans porque algumas pessoas costumam ligá-las à prostituição.

Apesar disso, mostra-se grata por finalmente ser aceita em um local que acolhe a todos independentemente da sua orientação sexual. Em relação ao tratamento que recebeu em outros lugares, se mostra condescendente. "Aquele pessoal era religioso, mas os religiosos são perigosos. Eles foram perigosos para Jesus e não vão ser para mim?", questiona.