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Diversidade


Cultura LGBTI se aprende na escola? Na Universidade Federal de Minas, sim

Getty Images/iStockphoto
Curso vai englobar assuntos ligados à população LGBT envolvendo de Antropologia a temas de saúde Imagem: Getty Images/iStockphoto

Camila Brunelli

Colaboração para Universa

2019-04-15T04:00:00

15/04/2019 04h00

Entre cursos de graduação e pós-graduação (mestrado e doutorado), a Universidade Federal de Minas Gerais sempre teve disciplinas ligadas a assuntos de interesse geral e que formasse, segundo eles, mais do que alunos, cidadãos de senso crítico. Tanto que, no ano passado, a escola passou a oferecer uma formação inteira relacionada aos saberes e cultura LGBTI.

Trata-se da "Formação Transversal em Gênero e Sexualidade: Perspectivas Queer/LGBTI", uma aglutinação das disciplinas antes espalhadas em vários cursos.

A instituição já oferecia o que chama de Formações Transversais, desde 2014. As disciplinas "foram criadas pela necessidade do acesso a uma educação intercultural plena", segundo a UFMG.

A Formação Transversal (FT) é formada por um conjunto de disciplinas que compõem um 'minicurrículo', abordando uma temática específica. A carga total é de 360 horas-aula. Quem cursar uma FT completa tem direito a um certificado próprio dessa formação, que será emitido pela Pró-Reitoria de Graduação.

São vagas abertas a todos os estudantes da UFMG e valem como atividades da Formação Complementar Aberta prevista nos cursos de graduação da universidade. As disciplinas de uma Formação Transversal também podem ser cursadas de forma avulsa, para a completar créditos de Formação Livre. Existe também a intenção de disponibilizar vagas para a comunidade, caso sobrem vagas.

Entender culturas diferentes

Uma das tentativas de melhorar o entendimento sobre culturas diferentes se chama "Formação Transversal em Gênero e Sexualidade: Perspectivas Queer/LGBTI".

Trata-se de um conjunto de atividades acadêmicas com esse eixo temático relacionado a qualquer outra área do conhecimento: é a reunião dessas disciplinas relacionadas com a temática LGBTI e que eram distribuídas em diversos cursos da graduação ou pós-graduação.

Um dos proponentes dessa formação transversal foi Carlos Mendonça, professor do Departamento e do Programa de Pós-graduação em Comunicação. Segundo ele, havia uma série de ofertas ligadas a esse tema nas disciplinas de Sociologia, Literatura, Comunicação, Ciências Econômicas, Administração, Direito, Artes, Medicina e Educação Física.

Universidade e vida lá fora: um conjunto

Mendonça explicou que desde os anos 90 o tema estava sendo discutido nas salas de aula -- época também que a Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou a homossexualidade da lista de doenças mentais do Código Internacional de Doenças. "A Universidade não funciona isolada da vida lá fora. Pensando como um movimento, a luta pelos direitos LGBTI a partir dos anos 70 causou uma transformação social, criando um caldo de cultura que ganhava cada vez mais volume e que atraiu pesquisadores para estudarem o tema", explicou Mendonça.

Nessas formações, são ofertadas matérias ligadas às mais variadas áreas do conhecimento -- talvez por isso não se trate de um curso frequentado por uma maioria LGBT. "Claro que nós somos tocados por aquilo que nos afeta, mas as aulas têm mais a ver com cidadania", diz o professor Mendonça.

De saúde à construção de masculinidade

São 10 disciplinas ofertadas por ano letivo. Para o primeiro semestre de 2019, por exemplo, estão acontecendo aulas com abordagens relacionadas à administração: Gênero, Diversidade e Trabalho; Seminários de Bioética; Tópicos em Antropologia; Saúde Integral LGBT no contexto do SUS; Mídia, Gênero e Sexualidade estão entre os temas. "As vivências dos cursos são bem particulares, e as questões, as mais diversas. Um profissional não está vinculado a um curso só."

No último semestre de 2018, Carlos Mendonça, que também é publicitário, ministrou uma disciplina relacionada com a construção da masculinidade por meio da publicidade e propaganda e a construção de violências.

"Os pontos da aula vão debater o que se produz a partir de noções de uma heteronormatividade e que repetem aquele tipo de hierarquia -- e que produzem exclusão. A intenção é contribuir para uma sociedade mais inclusiva e com mais respeito", diz o professor, que conduz uma pesquisa sobre texto e textualidade na pós-graduação (mestrado e doutorado) em notícias de crimes de ódio relacionados a LGBTIs -- especialmente os crimes de morte. "Eu não consigo ficar parado vendo isso. É parte, também, da minha missão como servidor público."

Opinião da comunidade LGBTI +

O presidente da União Nacional LGBT do Brasil, Andrey Lemos, acha que pode funcionar. Ele acredita que o respeito pelo diferente só pode ser construído pela educação. "Nesse momento de tanta perseguição de pessoas diferentes, que são e pensam diferente, me parece que a Universidade precisa de fato assumir esse papel que é de ajudar a construir o processo civilizatório do País", disse Lemos.

A liderança da UNALGBT, que também é professor de história, avaliou com otimismo a iniciativa da Instituição. "Eu penso que a melhor forma de enfrentar esse momento tão complexo para os Direitos Humanos é fomentar esse tipo de conteúdo e debate. E uma ação de grande relevância", comemorou.

Apesar da clara posição do presidente Jair Bolsonaro e da equipe do governo federal sobre os direitos dos LGBTI+, os professores disseram que ainda não notaram diferença na procura pela FT de gênero e sexualidade. "Estamos conduzindo como sempre fizemos, " disse a pró-reitora de Graduação, Benigna Maria de Oliveira. "Mantivemos a oferta e a procura pelas disciplinas foi semelhante a dos anos anteriores."