menu
Topo

Autoestima


Mulheres com pelos: "Não preciso me esforçar para ser igual a uma boneca"

Luiza Souto

Da Universa

2019-04-13T04:00:00

13/04/2019 04h00

Angélica Reimol e Thaís Freitas deixam seus pelos crescerem naturalmente no corpo. E gostam do que veem. Elas argumentam: são pelos, nascidos delas mesmas, e retirá-los agride sua pele.

O processo de aceitação, porém, não foi num cair da tarde. Elas já deixaram de ir à praia, de transar, usaram calças compridas para evitar olhos de reprovação ou provocar no outro a impressão de que são pouco higiênicas.
Mas ensinam aqui como pararam de se podar de acordo com a opinião alheia.

"Vamos falar de pelos no rosto?", escreve a dona de casa Angélica Reimol Nunes, de 26 anos, num desabafo nas redes sociais. A carioca diz que lida com eles há anos. Após o nascimento do filho, há três, e o uso de pílula anticoncepcional, engrossaram ainda mais.

Arquivo pessoal
Angélica Reimol tira os pelos do rosto, mas tem alergia Imagem: Arquivo pessoal

Ela fala que resolve o "problema" com aparelho de barbear. "Que nem os homens", compara. Porque não tem como bancar uma depilação em clínicas, e usar a lâmina é a maneira mais prática, rápida e indolor, justifica.

"Tomei muitos medicamentos na infância para tratar asma e enxaqueca. Lembro que, aos 9, já tinha pelos nas axilas, e eu sofria muito com isso. Afinal, minhas amigas não tinham, e era constrangedor quando pediam para ver ou alguém fazia algum comentário", relembra Angélica.

Ela fala que a família também não colaborou.

Os comentários que lembro eram: 'Nossa, nunca vi criança com pelos. Imagina quando crescer'. Um que me marcou muito foi: 'Já tem pelos, então pode ser considerada adulta'.

Arquivo pessoal
Angélica mostra os pelos que crescem no rosto Imagem: Arquivo pessoal

Por mim, estaria tudo bem as mulheres não se depilarem. Afinal, é algo natural. Mas infelizmente a sociedade ainda está muito atrasada. Quando eu saio de short e minhas pernas não estão depiladas, percebo muitos olhares. A maioria de mulheres.

Todas as vezes que eu fui à praia sem depilar, usei short. E quando era casada, era mais cobrança ainda. Tinha que estar sempre lisinha. Quando estavam um pouco maiores, meu ex-marido me cobrava.

Na última vez que me depilei, eu passei óleo corporal para tentar amenizar a agressão da lâmina na pele, mas não adiantou. No dia seguinte, as famosas bolinhas surgiram e tive muita coceira. Passei duas pomadas para amenizar. É horrível essa alergia. Eu fico realmente machucada.

Ainda estou em processo de aceitação dos pelos, mas estou decidida a manter essa decisão. Por mim e por outras mulheres. Eu ainda aparo os da virilha, e quando quero dou uma raspada. Mas as pernas, barriga e até o cóccix eu vou deixar como estão. No rosto, eu depilo na lâmina.

"Me libertei da necessidade de depilar faz tempo"

A designer Thaís Freitas, de 23 anos, começou esse mesmo processo aos 19. Conta ela que decidiu viver de modo mais saudável, cuidar mais da pele e do corpo, o que exclui passar por processos dolorosos.

"Dia desses, comprei um vestido lindo, florido, com cores vivas. Me arrumei, coloquei um salto, saí de casa deusa, me amando. As pessoas me olhavam muito, mas não em direção ao meu vestido ou a minha maquiagem. Era só para minhas pernas.

Arquivo pessoal
Thaís decidiu cuidar mais da pele, sem dores Imagem: Arquivo pessoal

Elas estavam lindas, cheias de pelos, que nascem ali, naturalmente, grossos e pretos como todos do meu corpo.

Achei graça de como a sociedade não está preparada para lidar com a liberdade.

Mas até chegar aqui passei por um processo super longo. Comecei a ter pelos muito novinha, com 8 anos. E eram grossos. Sofri bullying, e minha mãe não deixava tirar. Ela tinha aquela ideia de que o pelo ia engrossar mais se o fizesse.

Já deixei de ir à praia porque tentei tirar os pelos e deu alergia. Fiquei em casa chorando. Também passei uma época usando somente calça comprida para as pessoas não verem minhas pernas peludas.

Também deixei de transar porque não me depilei. Como você não pode se mostrar de forma natural, sendo que está compartilhando o momento mais íntimo da sua vida?

Quando cresci e tive mais autonomia sobre meu corpo, comecei a me depilar e achava incrível. Achava que era minha liberdade. Mas foi outra escravidão, porque sempre sentia muita dor e o pelo crescia muito.

Recentemente, ouvi: "Nossa, está tão bonitinha, mas e essa sobrancelha suja?", como se me cuidar não fosse suficiente.

Sou uma mulher de verdade. Tenho pelos e não preciso me esforçar para ser igual a uma boneca. Se um dia quiser depilar, eu tiro. Não olho para meus pelos com nojo. Eles nascem em mim. Entendi que a sociedade não precisa ser meu filtro, determinar como olho para meu corpo.

Minha pele passa por um processo de autocuidado que vai desde alimentação saudável até o uso de máscaras de argila. E tenho conversado com outras mulheres sobre esse meu processo de transição num projeto que chamo de Nua, para que tenhamos controle sobre tudo que nos toca".