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Minha história


"Por ser gorda, fui humilhada por professores, parentes e no trabalho"

Arquivo Pessoal
Isadora Tucci é atriz. Desde a infância, ela enfrentou problemas por ser gorda. Hoje, aceita o próprio corpo Imagem: Arquivo Pessoal

Talyta Vespa

Da Universa

2019-04-12T04:00:00

12/04/2019 04h00

Não existe uma memória da atriz Isadora Tucci, nesta entrevista, que não esteja voltada ao seu corpo. Ela lembra as datas em que engordou, em que quando teve anorexia e perdeu 23 quilos e quando a doença se intercalou com a compulsão alimentar. Isadora enumera algumas das rejeições que moldaram sua infância e adolescência e conta que, aos 28 anos, elas não acabaram, mas que agora o problema é do outro.

A atriz foi humilhada algumas vezes pela professora de ginástica olímpica da escola estadual onde estudava, em Santo André, no ABC Paulista, quando tinha oito anos. Depois, expulsa do coral de um programa de televisão junto com a outra única criança gorda do grupo. Hoje, ela é mãe de uma menina, trabalha com teatro voltado para empresas e quer fazer curso de produção audiovisual. Com o corpo, a relação é de amor. Veja seu relato:

"Quando eu era criança, até uns dez anos, não era gorda. Tinha uma estrutura grande e isso fazia com que eu fosse bem diferente das outras meninas da minha idade. Ainda assim, vivi alguns gatilhos que fizeram com que eu descontasse minhas frustrações na comida. Primeiro, meus pais se separaram e foi bem difícil para mim. Depois, minha mãe e meu padrasto se separaram. Foram duas perdas grandes que mexeram comigo e, na comida, eu encontrava um alento.

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Comecei a fazer ginástica olímpica na escola e era boa. Gostava muito de treinar. Só que a professora me humilhava na frente das outras alunas. Ela dizia que eu jamais seria atleta por ser gorda e, virava e mexia, dizia para as meninas que eu havia passado o fim de semana comendo coxinha. Ela nem sabia o que eu tinha comido, falava como um deboche, mesmo.

Desenvolvi compulsão alimentar por causa de tanta cobrança e descobri que o pior bullying que uma pessoa pode sofrer é o da própria família. A minha não sabia como agir com uma criança que jogava todas as próprias frustrações em cima da comida. As agressões que eu sofria eram verbais e, por isso, eu passei a ter muito nojo do meu corpo. Minha psicóloga conta que, em vez de eu ter raiva de quem me xingava, eu me culpava e transferia essa raiva para mim mesma.

Foi nessa época, ainda, que minha professora de canto me indicou para um coral em um programa de TV de jovens talentos. Eu cantava bem, minha mãe foi bailarina e meu pai também gostava de arte, então cresci em um ambiente artístico. Sempre que o programa ia ser gravado e as produtoras iam escolher o figurino para mim, diziam que eu estava muito gorda, que eu precisava emagrecer. Ficava triste, mas deixava de lado. Queria continuar cantando lá.

Depois de um ano de coral, a professora me disse que a emissora havia feito um corte nas crianças e que, por isso, eu e outra colega, também gorda, não estávamos mais no grupo. Tínhamos acabado de gravar nossa última participação. A caminho do estacionamento da emissora, ela disse para a esposa dela que nós estávamos muito gordinhas e que isso era um problema para a televisão. Eu nunca me esqueci desse dia, foi um dos piores da minha vida. Acho que a pior rejeição que já sofri até hoje.

Daí, fui ladeira abaixo. Aos 15 anos, tive anorexia e emagreci 23 quilos em dois meses. Eu, literalmente, parei de comer. Tinha nojo quando sentia o cheiro da comida e tinha altas crises de ansiedade quando me obrigavam a comer. Eu achava que emagrecer seria a solução de todos os meus problemas; de aceitação, de profissão, amor de amigos e familiares. Eu pensava: 'Quem eu vou ser? Uma gorda? Ser gorda é ruim. Não quero ser isso'.

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Meus distúrbios alimentares nunca foram tratados no psicólogo. Da anorexia, eu ia para a compulsão, e isso durou quatro anos. Foram quatro anos me machucando e me punindo. Quando acabei a escola, decidi que seria atriz. Eu já fazia aulas de teatro e, desde os 16 anos, atuava em comerciais e ganhava dinheiro -- era pouco, mas era alguma coisa.

Quando começou essa onda de body positive, pensei que, finalmente, conseguiria encontrar espaço para mim. Ser gorda é uma característica genética. Para que eu seja magra, preciso comer muito menos do que qualquer pessoa magra. E, com muita terapia, decidi aceitar que eu sou assim e que não quero me sujeitar a dietas mega restritivas. Mas o mundo ainda não aceita o corpo gordo.

Fui convocada para participar de um comercial de uma marca de cosméticos. Na hora da filmagem, me colocaram em um grupo com quatro meninas, todas magras. Para a filmagem, apareceríamos de lingerie. A diretora do ensaio nos reuniu e recomendou que elas atuassem como se estivessem em um momento de intimidade com as amigas, que se divertissem. Então, ela olhou para mim e disse: 'Para você, a única recomendação é parecer mais longilínea possível. Sabe como é, se você sentar, não ficar em postura ereta, sua barriga vai cair e vai ficar feio'. E ela foi embora. Não me dirigiu.

Hoje, trabalho no Espaço Cênico Produção e Arte, como atriz e com produção de peças teatrais educativas para empresas. Ainda assim, vou começar um curso de produção audiovisual porque sei que, na minha área, o mercado é instável.

Eu não tenho mais vontade de chorar. Meu corpo é só um corpo, ele não deveria incomodar tanto. Eu rio em vez de chorar. É ridículo demais e essas pessoas não merecem ter tanto poder sobre meus sentimentos."