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Mães e filhos


Mães e filhos

Fãs de "Vingadores" não querem crianças no cinema em novo filme; é justo?

Arquivo Pessoal
Larissa Dellavald com suas filhas: as meninas que pedem para os adultos ficarem quietos Imagem: Arquivo Pessoal

Jacqueline Elise

Da Universa

2019-04-11T04:00:00

11/04/2019 04h00

Alguns fãs de filmes de heróis se envolveram em polêmica na internet. Com a abertura de venda dos ingressos para o filme "Vingadores: Ultimato", pessoas começaram a fazer campanha nas redes sociais para que pais e mães não levem os filhos para assistir ao filme, porque eles "atrapalhariam" a sessão. Tal discurso não é novidade para mães de crianças, que constantemente lidam com julgamentos de estranhos quando levam os filhos ao cinema.

Reprodução/Twitter
Imagem: Reprodução/Twitter
Reprodução/Facebook
Imagem: Reprodução/Facebook

A empresária de Porto Alegre (RS) Larissa Dellavald, 29, relata que sempre percebe olhares estranhos quando ela vai ao cinema com suas filhas Bryannah, 6, e Allannah, 5. "As pessoas olham feio quando veem as crianças entrando. Não teve uma única vez que isso não tenha acontecido. Fora que reclamam alto que tem criança entrando e fazem cara feia", diz.

Quando ficou sabendo da polêmica envolvendo o filme da Marvel, ficou inconformada. "Minhas filhas são fãs dos 'Vingadores' e são comportadas. Em alguns momentos elas perguntam algo que não entenderam, mas tudo baixinho, porque elas mesmas dizem que não pode falar alto no cinema, porque incomoda os outros. Inclusive, já aconteceu algumas vezes de elas brigarem com pessoas que estavam conversando".

Problema acontece até em sessões de filme infantil

A analista de atendimento Lidiane Andrade, 35, de São Paulo (SP), conta que já teve problemas em sessões para animações de classificação livre. "Em julho do ano passado, eu queria muito assistir a 'Os Incríveis 2'. Fui num sábado a tarde com meu filho, de oito meses, e minha sobrinha, que tinha sete anos à época. Tudo estava bem até o meio do filme quando ele começou a ficar incomodado. Eu levantei e fui sentar nos degraus do corredor para que ele pudesse ficar mais à vontade. A sessão não estava muito cheia. Alguns pais um pouco acima começaram a reclamar, mas eu optei por não dar bola. Nem sair de lá. Primeiro porque eu queria ver o filme, e estava com a minha sobrinha".

Hoje, o filho dela tem um ano e seis meses, e geralmente vai ao cinema com uma amiga cujo filho é autista. "A gente costuma ir na sessão azul (sessões de cinema especiais dedicadas à pessoas do espectro autista, com salas adaptadas para receber este público). Minha amiga me contou que, uma vez, uma família não autista aproveitou a gratuidade da sessão azul e foi. E ficou reclamando que o filho dela não ficava quieto, zombava do comportamento dele", lembra.

Sessões especiais para pais e filhos ajudam

Em atividade desde 2008, o CineMaterna é uma iniciativa que promove sessões de filmes para pais e mães com bebês de até 18 meses de idade. A sala é adaptada para ter fraldário acessível, "estacionamento" de carrinhos de bebê, além de exibirem o filme com som baixo e maior iluminação.

Irene Nagashima, 48, é fundadora do CineMaterna e conta que o projeto foi criado justamente pela dificuldade que as puérperas --mães de recém-nascidos-- encontram ao procurarem ter um momento de lazer, e sem se sentirem culpadas caso seus bebês comecem a chorar.

Reprodução/Instagram/@cinematerna
Irene Nagashima, criadora do CineMaterna, em 2008, quando o projeto foi criado Imagem: Reprodução/Instagram/@cinematerna

"A mãe quando está com um bebê pequeno tem receio de sair de casa por causa desse preconceito. Acho que existem formas de conviver, você não é obrigado a ir ao cinema no sábado de manhã, porque é claro que tem criança lá", pensa.

Ela acredita que ensinar os pequenos a frequentar o cinema desde cedo é importante para que eles vão aprendendo como se comportar. "A criança só vai aprender as boas maneiras no cinema indo ao cinema, pegando o exemplo de quem está em volta".

A arquiteta Andreia Amigo, 30, de São Paulo (SP) se apaixonou pelo CineMaterna quando levou seu filho Gael, de três meses, para assistir "Capitã Marvel" pelo projeto. "A gente acha que bebês incomodam, mas não chega nem perto do incômodo de uma sessão 'normal' cheia de adolescentes. Antes de engravidar eu já evitava estreias e horários cheios para não trombar com grupos de adolescentes, que geralmente atrapalham bem a sessão. Agora, então, eu prefiro mil vezes uma sessão cheia de bebês que, em geral, só dormem o filme todo".

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Andreia, à direita, com seu filho Gael e acompanhada da irmã Lais Imagem: Arquivo Pessoal

"Repulsa" a crianças se tornou um fenômeno comum

Camila Marcoccia, psicoterapeuta e mestre em psicologia clínica pela Universidade de São Paulo (USP), acredita que o que mais incomoda os adultos neste caso é a impossibilidade de controlar as ações de uma criança, que ainda está entendendo como o mundo funciona. "Acho que tem um medo desta falta de controle. Crianças muito espontâneas vão reagir ao filme, mas o adulto também vai, é natural".

Gisele Calia, psicóloga especialista em neuropsicologia pela Universidade de São Paulo (USP) e orientadora educacional do Colégio Albert Sabin em São Paulo, diz que este comportamento de rejeição a crianças em espaços públicos é "um reflexo dos nossos tempos".

"Temos preconceitos quase que inatos. Isso tudo, infelizmente, é da nossa cultura, a gente categoriza e rejeita o que não é semelhante a nós. Mas temos que trazer as crianças a aprender o que é a convivência. Quem diz que não é para levá-los ao cinema já foi levado ao cinema pela primeira vez por um adulto, não é? Essa ação, na verdade, serve só para excluir mães dos espaços".

Camila e Gisele explicam que, antes de levar os filhos para ver um filme, o ideal é explicar como as pessoas se comportam no cinema: sem falar alto, permitir a conversa só após o longa terminar, e saber selecionar que tipos de filmes são apropriados para o entendimento da criança.

Irene ficou muito descontente quando soube das postagens dizendo para não levar as crianças para ver "Vingadores". "Acho feio esse tipo de campanha, ainda mais colocar isso nas redes sociais. Algumas pessoas se sentem autorizadas a segregar os outros. Isso é muito complicado em qualquer fase da vida. Isso não é viver em sociedade", afirma.