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Autoestima


"Me sinto amada sendo gorda": relatos de quem cansou do padrão de beleza

Jeniffer Nascimento/Reprodução Instagram
Jeniffer Nascimento: "Nem lembro do meu cabelo alisado" Imagem: Jeniffer Nascimento/Reprodução Instagram

Roseane Santos

Colaboração para a Universa

2019-04-11T04:00:00

11/04/2019 04h00

Em julho de 1954, Marta Rocha, considerada a mulher mais bonita do Brasil, chegou aos Estados Unidos e as pesquisas já a consideravam eleita Miss Universo. Só que ela ficou em 2º lugar. Diz a lenda que a perda do título para a americana Miriam Stevenson se deu a duas polegadas a mais nos quadris da brasileira.

Os anos se passaram, alguns padrões mudaram, mas ainda existe uma luta em diferentes gerações para estar igual a modelos, atrizes ou símbolos de beleza. A boa notícia é que até mesmo algumas celebridades estão se cansando de seguir regras rígidas em nome da estética. Famosas ou não, muitas mulheres provam que é possível se cuidar sem exageros sem precisar agredir a própria genética.

A atriz Betty Faria já confidenciou que sua preocupação estética não é como antes. Ícone de beleza da década de 70, ela está com 77 anos e já foi julgada por vários internautas depois de usar biquíni na praia.

"Eles queriam ver a Tieta. Esperavam que eu ficasse com a mesma aparência para sempre. Eu gosto de ficar bem com meu corpo, mas hoje me permito não fazer nada de atividade física. Eu fiz isso durante a minha vida inteira, consegui ter dois joelhos operados", perguntou. Atualmente, ela se preocupa com a alimentação, mas sem ser escrava de dietas.

"Quando vou jantar fora como muito, tudo mesmo, doces e o que eu estiver com vontade. Só que minha casa é light. Tenho pão integral e queijo branco na geladeira", disse.

"Um dia você vai explodir"

Emagrecer sempre foi uma luta constante na vida da assessora de comunicação Fernanda Genovez, 31 anos. Ela perdeu a conta de quantas vezes sofreu bullying até de pessoas que deveriam protegê-la. "Uma vez no colégio, uma professora falou que eu ia explodir igual a Dona Redonda, aquele personagem da novela", lembra. Estar acima do peso também promoveu dificuldades em seus relacionamentos amorosos na adolescência. "Os garotos não gostavam de mim e as meninas ficavam tirando sarro. Foi uma época muito ruim", recorda.

Arquivo pessoal
Fernanda gastou R$ 10 mil à toa para ficar magra Imagem: Arquivo pessoal

Na tentativa de acabar com essa tortura psicológica, Fernanda recorreu a cirurgia para a colocação de um balão intragástrico, só que a experiência não foi das melhores. "Coloquei balão há uns quatro anos para me sentir bem comigo mesma. Sentia que precisava fazer algo por mim. Cheguei num peso que me agradava, me sentia muito bem. Mas no ano que tirei eu também me divorciei, voltei a morar com meus pais, perdi meu emprego e descobri um problema de saúde", conta.

Fernanda relata que começou a ter muitas pedras nos rins e uma estenose (cicatriz obstruindo o canal da urina). "Tive que operar e parar de me exercitar. Com a nova rotina, ficar vários dias em casa comendo as coisas que minha mãe fazia, engordei tudo de novo. Gastei R$ 10 mil para colocar do balão, o que para mim é muito dinheiro, e não adiantou nada", lamenta.

Desde então, mesmo acima do peso, ela descartou a possibilidade de outra cirurgia para fins estéticos. Hoje, com a ajuda do atual namorado, faz caminhadas e procura se alimentar melhor. "Eu me sinto amada mesmo sendo gorda, e tenho pensado muito sobre quem eu sou. Hoje eu sei que eu sou mais do que um corpo. Se alguém quiser olhar o meu corpo como o principal, esse é um problema da pessoa e não meu", diz.

Vítima da ditadura do liso

A imposição dos padrões de beleza não se limita somente ao corpo da mulher. Durante anos, a atriz Jeniffer Nascimento, que ficou em evidência por ser a vencedora do Pop Star e hoje estão na novela Verão 90, foi vítima da "ditadura do liso". A palavra vítima nesse caso não é um exagero. Ela conta que chegou a ficar com o couto cabeludo queimando depois de uma tentativa de ter os cabelos sem cachos.

"Eu passei por todo tipo de alisamento. Fui para um colégio particular na adolescência, onde me vi quase obrigada a ter o cabelo liso para ser aceita entre as alunas de lá. Nunca me esqueço que uma vez, fui fazer um amaciamento em um salão de beleza. Quando vi, estava com a cabeça toda vermelha, parecia estar em carne viva", fala.

Estar sem cachos era ok até aparecer uma oportunidade de trabalho na novela teen Malhação, em 2014. . "O meu personagem seria uma menina cheia de personalidade e o diretor queria alguém que realmente representasse a raça negra. Eu usava o cabelo alisado e não tinha como cachear. A solução foi usar trancinhas. Quando terminou a minha participação, já estava com o cabelo totalmente natural. Nem lembrava mais como ele era com química", recorda Jeniffer.

Atualmente com 25 anos e o cabelo no estilo Black, ela comemora a iniciativa de assumir seus fios afros. "É muito bom. Sempre me falavam que dava mais trabalho e não acho. É lavar e está pronto. Eu me sinto mais livre. Estou convencendo a minha mãe e outras familiares a também entrar na transição capilar", revela.

Exageros da vaidade: pra quê?

Arquivo pessoal
Rosa: ficou loira e teve corte químico Imagem: Arquivo pessoal

A professora Rosa Buccino, 50 anos, também sofreu danos por conta de uma transformação radical. "Eu sempre fui assídua frequentadora de salões de beleza e chegava a gastar metade do meu salário neles. O tom do meu cabelo é castanho, mas sempre escutava pessoas elogiando as loiras, olhando com admiração para elas. Então eu decidi ser uma loira um dia", conta.

Além de não se adaptar ao novo visual, Rosa viu seu cabelo destruído com a coloração em pouco tempo. "Nada dava jeito. Gastei muito dinheiro para consertar, mas fui obrigada a cortar bem curtinho. Fiquei triste e vi que não era necessário ter um perfil que não era meu para agradar. Agora estou com a cor natural e evitando os exageros da vaidade que cometi durante toda a minha vida.", confessa.