menu
Topo

Direitos da mulher


A milionária que ajudou passageiros do Titanic e sobreviveu ao naufrágio

Divulgação
Margaret Brown ganhou prestígio internacional por socorrer passageiros do Titanic durante desastre com navio Imagem: Divulgação

Marcelo Testoni

Colaboração para Universa

2019-04-09T04:00:00

09/04/2019 04h00

Jack e Rose, os protagonistas de Titanic (1997), foram personagens criados. Mas muitas pessoas que aparecem no filme interpretam passageiros reais. Uma delas é Margaret Brown, retratada como uma milionária carismática e bem-humorada e interpretada pela atriz Kathy Bates.

O que pouca gente sabe é que, além do que foi revelado a seu respeito, Margaret teve uma vida empenhada em causas sociais e políticas, e depois de ajudar no Titanic ganhou prestígio internacional e lutou por avanços nos Estados Unidos e na Europa.

Milionária e ativista

Divulgação
Em "Titanic", Margaret foi interpretada pela atriz Kathy Bates Imagem: Divulgação

Nascida nos Estados Unidos em 1867, Molly, que era filha de imigrantes, frequentou a escola até os 13 anos, quando precisou ir trabalhar em uma fábrica de tabaco para ajudar nas despesas da família. Aos 18 se mudou para o Colorado, onde arranjou emprego em uma tapeçaria e conheceu seu futuro marido, James Joseph Brown. Ela só ficou rica e integrou a alta sociedade do final do século 19 quando seu marido descobriu ouro no fundo de uma mina.

No entanto, a mudança repentina de vida não afetou seus princípios. Orgulhosa de seu passado humilde, Molly passou a se comprometer com causas sociais em defesa dos direitos das mulheres, das crianças e dos trabalhadores. Fazia parte de movimentos feministas e ajudou a estabelecer uma seção da Associação Nacional Americana do Sufrágio Feminino no Colorado e o primeiro Juizado de Menores dos Estados Unidos.

Influenciada pelas Gibson Girls, as primeiras mulheres modernas de sua época, Molly também criou o hábito de viajar à Europa para estudar teatro, música, literatura e idiomas. "Com o conhecimento que adquiriu por seus próprios esforços, tornou-se membro e fundadora do Denver Woman's Club", explica Kristen Iversen em seu livro "Molly Brown: Desvendando o Mito". Essa organização fazia parte de uma rede que defendia a alfabetização, a educação, o voto feminino e os direitos humanos no Colorado e no restante de seu país. Como consequência, Molly ganhou popularidade e respeito na sociedade. Em 1899, chegou a dar uma festa para arrecadar fundos e construir um hospital para pessoas carentes.

Um iceberg em seu caminho

Em 1912, Molly, como de costume, estava em viagem pela Europa quando recebeu um telegrama dos Estados Unidos informando que seu neto estava doente. "Na esperança de ajudar, interrompeu sua estadia no exterior e reservou uma passagem para o próximo navio de partida para os Estados Unidos. Era o Titanic", comenta a historiadora Elaine Landau em seu livro "Heroína do Titanic: A Verdadeira Inafundável Molly Brown". O percurso que o possante transatlântico faria de Southampton, na Inglaterra, até Nova York levaria sete dias.

Foi quando na noite de 14 de abril, Molly não teve mais certeza de nada. O Titanic havia colidido com um iceberg ao norte do oceano Atlântico e mais da metade das pessoas a bordo morreriam no naufrágio por não haver botes salva-vidas para todos. Molly, em vez de se desesperar, não só ajudou a encher os botes de gente, como depois de ser forçada a embarcar em um deles quis voltar para resgatar os que congelavam na água. Ao propor isso, entrou em conflito com Robert Hichens, um encarregado que temia dos náufragos virarem a embarcação. Impedida, Molly então se conteve em remar e confortar mulheres que estavam abaladas.

Quando os sobreviventes foram resgatados pelo navio Carpathia, Molly se predispôs a distribuir alimentos, bebidas e cobertores. Como também era poliglota, usou suas habilidades linguísticas em francês, alemão e russo para que os imigrantes que estavam a caminho da América pudessem se comunicar, encontrar amigos, familiares e buscar assistência médica.

Conquistas pós-Titanic

Divulgação
Recebendo uma condecoração pela ajuda humanitária prestada às famílias das vítimas da tragédia Imagem: Divulgação

Quando chegou a Nova York, Molly então virou o centro das atenções. Sua bravura e boas ações já estavam sendo noticiadas pela imprensa, o que lhe conferiu prestígio internacional e um cargo de presidente do Comitê de Sobreviventes do Titanic. No mês seguinte à tragédia, ela ainda conseguiu arrecadar quase 10 mil dólares para aqueles que perderam tudo no Titanic. Em uma carta endereçada à filha, escreveu: "Estão pedindo ao Congresso que me dê uma medalha. Se eu precisar chamar um especialista para examinar minha cabeça é devido ao título de heroína do Titanic".

Não só foi condecorada, como também homenageou o capitão e cada tripulante do navio que a resgatou com as demais vítimas, e ainda conseguiu que erigissem um memorial dedicado às mulheres do Titanic em Washington D.C. Nos anos seguintes, Molly se envolveu com a Primeira Guerra (1914-1918) e ajudou voluntariamente na reconstrução das áreas devastadas na Europa e no socorro de soldados feridos. "Na França, recebeu uma condecoração por seus méritos civis, a Ordem Nacional da

Legião de Honra", observa a escritora Kristen Iversen. Molly foi também uma das primeiras mulheres a concorrer ao Senado americano por duas vezes.
Em seus últimos anos de vida, manteve seu trabalho de ativista, filantropa e ainda chegou a atuar como atriz de teatro. Na cultura popular ficou conhecida como "Molly, a inafundável" e virou tema de novelas de rádio, um musical da Broadway e vários filmes. Em Titanic, de James Cameron, foi interpretada pela atriz Kathy Bates, que pelo papel foi indicada ao SAG Awards.