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Política


Özlem Cekic: conheça a ex-deputada muçulmana que toma café com os haters

Reprodução/Facebook
Özlem Cekic: "Ao ter uma conversa sobre política, dou minhas opiniões sem atacar as do outro" Imagem: Reprodução/Facebook

Paulo Cardoso de Almeida

Colaboração para Universa

2019-03-29T04:00:00

29/03/2019 04h00

Özlem Cekic tem 42 anos, e em boa parte deles, foi alvo frequente de mensagens de ódio e ameaças. Se a vida de uma imigrante já não é fácil, a de uma mulher, imigrante, muçulmana, filha de faxineiros no país que os acolheu - a Dinamarca -, e que entrou para a política defendendo os direitos humanos, é muito mais difícil.

Em um cenário que parece ser mais que suficiente para desanimar qualquer pessoa, Özlem Cekic soube se transformar em uma agente de mudanças e inspiração. Nascida na Turquia, se mudou ainda criança para a Dinamarca, trabalhou como enfermeira e, mais tarde, se envolveu com a política. Em 2007, foi eleita para o Parlamento Nacional pelo Partido Popular Socialista.

Como política, recebeu, por anos, mensagens de ódio de pessoas que não aceitavam que ela se tornasse representante delas. Tentou ignorá-las, mas sua caixa de e-mails só piorava. Partiu, então, para uma estratégia ousada: convidar seus "haters" para tomar um café. A ousadia virou um projeto de vida e é chamado por ela de Café do Diálogo.

Depois do fim de seu mandato, em 2015, Özlem passou a dividir com o mundo suas táticas. Ela está no Brasil pela primeira vez e vai participar do 6º Fórum Fale Sem Medo, organizado pelo Instituto Avon e que acontece hoje no Auditório Ibirapuera - Oscar Niemeyer, às 14h40. O evento pode ser acompanhado ao vivo pela Universa e pelo Facebook do Instituto Avon.

Ela deu a seguinte entrevista à Universa:

Como se desenrolou o primeiro café?
Ele aconteceu com um homem chamado Ingolf, que era um dos haters que mais me mandava mensagens de ódio. Liguei pra ele e, num só fôlego, me apresentei e o convidei para um café. Quando terminei de falar, ele hesitou alguns segundos e disse que precisaria "consultar sua esposa". No fim, Ingolf topou e, quando cheguei à casa dele, fui recebida por um homem com a mão estendida para um cumprimento. Isso me deixou atônita: Ele não se parecia com o monstro que eu havia construído. Sua casa era arrumada, suas louças iguais às da minha família e, para meu espanto, tínhamos muitas coisas em comum. Inclusive alguns preconceitos. Ele era um homem calmo e de conversa afável.

Como a senhora saiu dessa conversa?
Quando retornei à minha casa estava dividida. Se, por um lado encontrei uma pessoa agradável, por outro, estava incomodada por identificar tantos pontos em comum com alguém de pensamentos tão racistas. Me dei conta que havia sido tão radical quanto meus críticos ao julgá-los.

Que tipos de ponto em comum, preconceituosos, a senhora divide ou dividia com ele?
Ele me disse que quando um ônibus para longe do ponto onde ele este está, pensa logo que deve ser um "arabezinho" ao volante. Quando jovem, eu achava que o motorista parava longe por ser racista. Fui tão preconceituosa nesse sentimento quanto ele. Encontrar essas similaridades não torna aceitável o comportamento de quem ofende, mas mostra que são pessoas mais comuns do que parecem. São pessoas como eu e você, mas com ideias horríveis que, em geral, vêm do medo do que não conhecem.

Que técnicas utiliza para conversar com alguém que pensa muito diferente de você?
O mais importante é ouvir mais e falar menos. O problema da polarização que o mundo inteiro vive nos dias de hoje passa pelo fato de que as pessoas estão sempre predispostas a julgar as opiniões dos outros, mas, ali do outro lado da mesa, está uma pessoa. E você deve tentar conversar com a pessoa, em vez de julgar suas opiniões.

O momento do Brasil também é de polarização. No que diz respeito à política, que táticas sugere?
Tente falar de você. Ao ter uma conversa sobre política, eu busco falar sobre as minhas opiniões, e não atacar o que o outro pensa. Nessas conversas, falar sobre suas vivências e visão de mundo pode ser mais interessante do que se concentrar em apontar os defeitos do interlocutor. As chances de ter uma conversa produtiva são bem maiores.

O feminismo ainda é um tema difícil para muitos homens, e mesmo as mulheres encontram muitos nós para persuadir os homens. Que dica você daria para essas mulheres?
É preciso começar a revolução dentro de casa, com os homens da própria família. As mulheres têm pais, filhos, irmãos e maridos que podem ser mais abertos a suas demandas, porque há afeto entre eles. Quando você cria um filho homem fazendo com que ele seja ciente de como se relacionar e respeitar uma mulher, você já está ajudando na mudança. Além disso, uma coisa que as mulheres precisam ter em mente é que não podemos nos subestimar. Mesmo em países onde elas se veem com menos poder e status que homens, elas ainda assim têm poder e status. Eu venho da Dinamarca, que é um dos melhores países para se viver, sendo uma mulher. Estamos mais próximos da igualdade entre homens e mulheres. Mas, na Dinamarca, demoramos mais ou menos 100 anos para chegar a esse ponto de igualdade.