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Minha história


Educadora morou em abrigos e sofreu violência: "O aluno precisa ser ouvido"

Arquivo pessoal
Maria Carolina Brasão é educadora há mais de uma década Imagem: Arquivo pessoal

Luiza Souto

Da Universa

2019-03-25T04:00:00

25/03/2019 04h00

Mesmo estando de férias, a educadora Maria Carolina Brasão, de 39 anos, deu uma passada recentemente no colégio onde é diretora, para "ver se estava tudo certo". Na unidade, no interior de São Paulo, soube de uma aluna de 14 anos que tentou o suicídio por problemas familiares. Ela chamou a adolescente, respirou fundo, compartilhou com a garota sua história de dor e restrições. Quis mostrar à menina que sempre há uma saída. Ficou tudo bem.

A mãe de Maria Carolina tem problemas psiquiátricos. A falta de cuidado materno obrigou ela e sua irmã gêmea a passarem por pelo menos três abrigos. Na infância, sofreu violência e preconceito. Tutelada por pesquisadores, hoje é doutora em Educação pela Unicamp, onde estudou o desenvolvimento dos autores de bullying.

Professora por 13 anos no ensino fundamental e diretora há pouco mais de um ano, ela defende que jovens agressivos emitem sinais de alerta como dificuldades de aprendizagem. E tenta responder à Universa como perceber esses sinais e cuidar dessas crianças.

"Nasci em São Carlos. Minha mãe tinha problemas mentais e precisava constantemente ser internada. Começou com bipolaridade e depois desenvolveu Alzheimer e Parkinson. Desde cedo, eu e minha irmã gêmea tomávamos conta dela e da casa. Minha mãe era faxineira e engravidou do meu pai, um advogado criminalista, quando trabalhava na casa dele. Ele nunca reconheceu a paternidade e, mesmo que ela não tenha contado o que aconteceu, acredito que tenha sofrido violência sexual.

Passamos muita fome. Fomos para um abrigo pela primeira vez aos 4 anos. Depois aos 9, aos 14... Minha mãe era denunciada quando nos deixava numa situação muito vulnerável. Cheguei a morar na casa de vizinhos. Sofri agressão física e psicológica num desses abrigos porque tinha que realizar tarefas domésticas e, se não lavasse a louça direito, por exemplo, uma educadora nos batia.

Aos 15 anos, fiz estágio na Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). Lá, souberam da minha história e três pesquisadores nos adotaram. A cada mês, ficávamos na casa de um deles, e todos desenvolveram um projeto de educação conosco. Fiz cursinho popular, conquistei bolsa de estudos e prestei vestibular. Me formei na Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Araraquara, onde concluí o mestrado, e fiz doutorado em Educação Escolar pela Unicamp.

Fui vítima de bullying por morar em abrigo. Passei a questionar porque as pessoas se agridem, porque existe o autor de bullying. E fiz doutorado sobre esse tema. Queria entender o outro lado. Identifiquei, pesquisa, a ausência da sensibilidade moral dos jovens que cometem o bullying e que é preciso desenvolver um trabalho envolvendo a família.

Não é só dialogar. Nesse momento, os alunos e seus familiares precisam se sentir acolhidos, senão se torna uma conversa artificial

Suicídio

Recentemente, fui até a escola para verificar se está tudo em ordem, e uma aluna mostrou o braço cortado. Ela falou que havia tentado suicídio. E quem me avisou foram as colegas dela. Falta muita orientação para esses jovens. E a família não pode distanciar-se da escola.

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Desenvolvi um projeto na escola onde promovemos assembleias para falar sobre alguns temas que afetam os alunos, sem estabelecer nenhum tipo de pré-julgamento. Acontecem uma vez por mês.

Eles precisam ser ouvidos pela escola, do olhar no olho, de acolhida, como eu tive, tanto dos pesquisadores que lá atrás investiram na minha educação como da escola onde estou hoje

Está aí uma forma de tentar fazer com que a escola seja espaço de fácil acesso para famílias e alunos."