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Diversidade


LGBT na terceira idade: 3 histórias inspiradoras sobre amadurecer

Arquivo pessoal
Silmara e Valeria dançando Imagem: Arquivo pessoal

Camila Brunelli

Colaboração para a Universa

2019-03-14T04:00:00

14/03/2019 04h00

Uma projeção do IBGE aponta que o Brasil terá mais idosos que jovens em 2060. E, se envelhecer é tabu para qualquer pessoa, essa angústia se reforça entre o população LGBTQ+. "Isso porque existe uma possibilidade maior de essa pessoa se ver 'mais sozinha' na velhice em relação a outras pessoas", explica a neuropsicóloga Elaine di Sarno.

Há motivos variados de solidão: quem rompeu com familiares de origem há algumas décadas por conta da orientação sexual, quem não teve filhos... a psicóloga Juliana Guimarães de Araujo acredita que essa postura tem a ver com o momento em que se assume a homossexualidade. Só em 1990 a OMS retirou a homossexualidade da lista internacional de doenças.

"A pessoa que se assumiu nessa época teve uma determinada experiência. Até por conta do contexto social, cultural da época: ninguém os estimulava a se expressarem. Muitos pensavam que tinham de se moldar para serem aceitos", conta a profissional, que cuida do projeto Trans Metha -- uma iniciativa de tratamentos direcionados ao paciente transgênero.

Mas como é a vida de pessoas de 50, 60 e 70 anos que se assumiu LGBT há algumas décadas?

Veja relatos de pessoas maduras que contam como vivem o amor (e a solidão) hoje:

"Ela era o amor da minha vida"

"Se eu me sinto sozinha? Sim, mas por causa da ausência da Ester." Assim começou a entrevista com a jornalista e escritora Laís de Castro, 72 anos, que acabara de enviuvar de Ester -- segundo ela, o grande amor da sua vida, com quem comemorou 28 anos de união estável em fevereiro.
Laís conta que, meses antes, as duas haviam feito check-ups e estavam com a saúde em dia - mas a companheira teve um infarto fulminante.

Física nuclear e professora, casou com o pai de seu filho aos 23 anos, mas aos 27 já estava separada e namorando uma moça. Cerca de 10 anos depois, ela e Laís foram apresentadas. "Eu não a conhecia, nunca tinha visto na vida, mas foi como se um raio caísse na cabeça das duas. Um ano depois nós estávamos juntas, e assim passamos os últimos 28 anos."

Laís se considera privilegiada pelo fato de ter uma família que sempre respeitou sua orientação sexual, assim com as suas companheiras. "Eu tenho 5 irmãos e 19 sobrinhos -- e eles são muito meus amigos. Então, tem alguns que ficaram até mais amigos dela", contou fingindo estar com ciúmes. "Minha irmã, maravilhosa, no velório [da Ester] chorou quase tanto quanto eu."

Além disso, ela trabalhava em ambientes que considerava mais abertos, relacionados à Comunicação. Por isso, acha que nunca esteve no armário. "Quando alguém me convidava para algum evento, sempre chamavam a mim e à Ester. Eu nunca cheguei e falei que era homossexual", lembra.

Por outro lado, como professora universitária e física nuclear, Ester não se sentia tão confortável. "Com o pessoal do trabalho, ela só falava do ex-marido, do filho." Em 2013, as duas foram morar em Franca, no interior de São Paulo: Ester foi convidada para ser reitora de uma grande faculdade particular da região. Laís foi com ela, claro.

Como prima.

A reitora não pode ser sapatão, né?

No armário permaneceram até 2018, quando Ester morreu -- lá em Franca, mesmo. Seu filho, então com 38 anos de idade, já era médico geriatra e foi um dos responsáveis por atestar o óbito da mãe. Ele também é descrito por Laís como um grande amigo.

"Sou uma idosa autônoma: eu dirijo meu carro, compro meus remédios, vou ao médico sozinho e sou craque no computador", diz Laís. "Eu não tenho problema de saúde, meus 72 anos são só no documento. Eu vivo como uma pessoa de 60", disse ela, que não aguentou permanecer na casa onde viviam juntas e se mudou para Ribeirão Preto, também no interior paulista.

"Por outro lado, tenho outras amigas LGBT também, que vivem uma realidade complicadíssima: como não têm filhos, não têm acompanhantes para levarem aos médicos e fazer exames, por exemplo", lamenta.

"Conheço outras idosas lésbicas que sofrem com a solidão porque não têm um vínculo com as famílias, ou não tem boas relações com as colegas. Ficam vivendo só entre elas." No dia 25 de março, quando a morte de Ester completa um ano, Laís lança o livro "Vida a duas - O livro do nosso amor", que ela escreveu "para que a mulher nunca seja esquecida". Ela prefere não mostrar fotos da parceira para não expor.

"Se eu pudesse escolher, eu nascia era gay, de novo"

Arquivo pessoal
"Nascido em Recife, o sociólogo Carlos Sena, 68 anos, disse que nunca teve problemas por ser gay" Imagem: Arquivo pessoal

Nascido no interior de Pernambuco, o sociólogo Carlos Sena, 68 anos, disse que nunca teve problemas por ser gay. Veio de Bom Conselho para Recife cedo, mas quando morava lá, namorava mulheres. Depois que chegou em Recife e começou a trabalhar e a fazer faculdade, começou a notar os olhares de outros homens.

"Eu sempre apresentei meus namorados com a maior naturalidade para a minha família. E sempre me senti superior a qualquer tipo de preconceito."

Sena dava aulas de psicologia social e sociologia. Um dia, uma aluna disse que estava apaixonada por ele. "Ela sabia que eu era gay, mas disse que queria me colocar no caminho certo. Eu disse que não queria."

Especializado em gestão pública em saúde, ele conta que já ocupou cargos importantes do governo de Pernambuco e sempre foi tratado com respeito, porque sempre se impôs. "Ainda tem muito preconceito dentro do mundo gay. Muitas "bichinhas" se acham melhor que as outras porque não são pintosas, ou porque têm mais dinheiro". Apesar de ter sido casado algumas vezes, ele reclama que o problema sempre foi arrumar um parceiro que o acompanhasse no nível intelectual.

"Se eu nascesse de novo e pudesse escolher, eu nascia era gay. Eu me amo e são poucas as bichas que travam o caminho de se amar", diz ele que garante não sentir solidão, apesar de estar solteiro há seis meses. "Chovia rapaz novinho na minha horta, mas eu não quero."

"Conheci o amor da minha vida numa sala de bate-papo."

A funcionária pública Valéria Casolato, 53 anos, esteve com um homem durante 14 anos -- 2 de namoro e 12 de casamento. "De repente, me vi em um casamento falido, sem emoções, sem amizade ou companheirismo e com uma filha de menos de dez anos. Eu não tinha mais sonhos ou objetivos aos 30 e poucos anos."

Arquivo pessoal
“Eu aprendo muito com a Sil. Com ela fui a primeira vez em um boteco. Ela me incentivou a voltar a estudar, a me preparar para o concurso” Imagem: Arquivo pessoal

Desencantada com a crise no casamento, ela procurou atividades como teatro e até salas de bate papo virtuais -- muito populares no fim dos anos 90. "Entrei em uma sala de lésbicas porque queria conversar com pessoas diferentes de mim e conheci o amor da minha vida."

"Fiquei assustada, claro. Fui para a terapia para entender o que eu estava sentindo, coloquei a minha filha também. Depois conversei com o meu marido e me separei." Formada em Relações Públicas, ela acredita que a área é mais aberta e, por isso, se deparou com poucas situações em que foi vítima de preconceito. Mas, no meio familiar, foi mais difícil. "Quando minha mãe soube, teve um pico de pressão alta e foi parar no hospital. Ela achava que eu só dividia um apartamento com uma amiga."

Mesmo sentindo que estava fazendo algo errado, Valeria percebia que estava cada vez mais envolvida com a atual esposa, Silmara. "Eu aprendo muito com a Sil. Ela me incentivou a voltar a estudar, a me preparar para o concurso", conta. Em fevereiro elas comemoraram 19 anos de relacionamento.

"Até hoje durmo com ela fazendo carinho em mim. Passamos por muitas coisas juntas: falta de grana, desemprego, doenças. Mas gostamos de estar juntas e temos um trato: não dormimos brigadas."