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Violência contra a mulher


"Ninguém ajudou", diz vítima atacada com ejaculação em trem em São Paulo

Marcos Candido

Da Universa

2019-02-23T04:00:00

23/02/2019 04h00

No último dia 6, a universitária N.* olhou ao redor e acreditou que estava imersa em um pesadelo. Ela embarcou em um trem da CPTM. Chovia ao lado de fora, e o trem estava lotado. Quando aproximava-se à estação Hebraica-Rebouças, na zona oeste de São Paulo, ela sentiu um líquido quente a escorrer pela sua calça. Um homem, que se masturbava, havia ejaculado na perna dela.

Reprodução/Facebook
Amiga de vítima relatou caso nas redes sociais, que já passa de 5 mil compartilhamentos no Facebook Imagem: Reprodução/Facebook

"Então, me vi gritando", recorda-se. A estudante segurou o homem pelo braço para impedir que ele fugisse. Clamou por ajuda, mas nenhum passageiro a ajudou. "Me lembro de um senhor, que olhei para ele e pedi por ajuda, mas ele permaneceu imóvel. Pensei que todos no vagão tinham combinado entre si de não fazer nada. Não era possível que pessoas normais, que iam ao trabalho, não estivessem fazendo nada", diz à Universa.

O desembarque

Assim que o trem chegou e as portas foram abertas, N. se lançou junto ao homem em direção à plataforma. Gritou por socorro aos seguranças da CPTM. O agressor foi imobilizado pelos guardas, que começaram a questioná-la. Segundo ela, um dos guardas perguntou se a sujeira na calça, na realidade, eram pingos de alguém que segurava um guarda-chuva no vagão. 

A história da agressão precisou foi repetida para pelo menos dez guardas, todos homens, que pediam para verificar o rastro de sujeira deixada pelo sêmen na calça. 

Um guarda veio cumprimentá-la. "Eu me recusei apertar a mão dele, e disse que estava me sentindo suja. Ele comentou que era complicado para nós reagirmos, pois mulheres são muito sensíveis e mais fracas. Retruquei que não somos fracas, mais fracos são os homens que fazem isso. Nunca vi mulher fazendo isso com ninguém", diz. Além dela, outra vítima, que não foi encontrada pela Universa, também foi agredida pela ejaculação -- o esperma respingou na sua mão.

Reprodução/Facebook
Imagem da perna atingida por sêmen de abusador Imagem: Reprodução/Facebook

N. e a segunda vítima foram encaminhadas a uma sala para se limpar. O agressor ficou na plataforma com os guardas. De acordo com ela, foi preciso aguardar por mais de 2 horas até que a CPTM providenciasse uma viatura para levá-los para registrar o boletim de ocorrência. "Na ida para a delegacia, um dos funcionários se lamentava que não iria conseguir almoçar a marmita dele e passaria o dia sem comer. E eu atrás, consolando a vítima que chorava", diz. 

O crime foi registrado como importunação sexual em uma delegacia da mulher no Jaguaré, na zona oeste de São Paulo. O agressor, de 37 anos, não teve o nome revelado pela polícia. Ele permanece preso.

Chegando à delegacia, N. também afirma ter sido mal atendida. "Eu sabia que em uma delegacia da mulher eu seria acolhida por uma mulher. Busquei acalanto, uma autoridade para me dizer que eu não estava exagerando e que o crime seria resolvido. Apesar disso, demorou mais de uma hora e meia para me atenderem. Com certeza, foi uma segunda violência. Me colocaram em uma sala rosa, com paredes cheias de mensagens de motivação", diz. 

"Pedi uma cópia do boletim de ocorrência, e uma delegada, bem sarcástica, disse que estava fazendo um favor para mim, e que queria ser liberada mais cedo [do trabalho]. Mandou eu pedir uma cópia a um outro delegado. Só então consegui uma cópia".

Em nota, a Polícia Civil diz que o atendimento não condiz com o "padrão de atendimento da instituição" e que "todos os desvios de conduta são rigosamente apurados" e podem ser denunciados na Corregedoria. 

Trens de companhia registraram dezenas de casos

A lei de importunação sexual entrou em vigor no segundo semestre do ano passado. É considerado importunação o ato sexual libidinoso sem consentimento que é praticado contra outra pessoa. Antes de entrar em vigor, crimes como esse eram considerados contravenções penais leves. Agora, pode render de um a cinco anos de prisão. 

A aprovação de lei se deu após um homem ser liberado após ejacular contra uma mulher em um ônibus na Avenida Paulista. Um mês após vigorar em todo o país, 13 pessoas relataram ter sido importunadas sexualmente nos trens da CPTM. No ano passado, a jornalista Clara Novais, 27, encontrou uma camisinha usada em sua bolsa em um dos vagões da companhia

Em nota, a CPTM diz que vai "apurar internamente e, caso seja constate que houve negligencia, tomará as medidas cabíveis" e que conta um SMS-Denúncia (97150-4949). A companhia afirma que 131 casos de abuso sexual foram registrados nos trens da CPTM e encaminhados à polícia em 2018. 

Depois da violência

Desde que N. foi atacada, ela diz que não consegue dormir na própria casa e diz assustada ao ter que embarcar nos trens para ir ao trabalho.

"Eu fui invadida. Nunca tive tanta noção de quantos nós, mulheres, somos nada. Sofremos assédio sempre, mas o absurdo que passei me mostrou o quanto estamos vulneráveis", conclui. 

*Nome suprimido para proteger a vítima