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Minha história


"Meu filho morreu por engasgo, tive outro, mas não conseguia criar vínculo"

Arquivo Pessoal
A psicóloga Roberta Batista teve dificuldades em superar a morte do primogênito e criar laços com o segundo filho Imagem: Arquivo Pessoal

Bárbara Therrie

Colaboração para Universa

2019-02-21T04:00:00

21/02/2019 04h00

A psicóloga Roberta Batista, 37, celebrava a chegada de mais um ano com a família em um restaurante, quando o João, filho dela, de quase um ano de idade, foi vítima de engasgo e morreu. Sem planejar, no mesmo mês, ela engravidou do Gabriel. "Eu estava grávida e em luto intenso". Neste depoimento, ela conta como lidou com a dificuldade de estabelecer um vínculo com o segundo filho, por achar que estava traindo a memória do outro. "Hoje, o Gabriel representa a minha força e o meu recomeço".

"Em janeiro de 2018, eu viajei do Rio de Janeiro a Brasília para passar o Ano Novo com a minha família. Íamos almoçar em um restaurante. Eu comentei com o meu marido, o Marcio, que não queria ir, estava com uma sensação ruim, mas não sabia o que era. Só fui porque todos estavam nos esperando. Eu coloquei a comidinha de sempre do João no pote térmico --arroz, feijão, carne moída e legumes. Chegando lá, enquanto eu o alimentava, algumas pessoas brincaram com ele, ele riu e se engasgou, começou a tossir e ficou roxinho.

Meu marido tentou fazer a manobra de desengasgo, mas não adiantou. A respiração dele ficou fraca e ele desmaiou. A essa altura, já tinham ligado para o Corpo de Bombeiros, mas, como ninguém chegou, pegamos o carro e fomos ao hospital mais próximo. Foi o momento mais desesperador da minha vida.

O João sofreu uma parada cardiorrespiratória, o estado dele era grave. Os médicos fizeram a reanimação pulmonar e alguns exames constataram que, além do engasgo, ele tinha broncoaspirado a comida, que foi para o pulmão. Ele ficou internado quatro dias. Nesse período, ele teve convulsões e, aos poucos, os órgãos pararam de funcionar.

Arquivo Pessoal
João, primeiro filho de Roberta: "ele foi um bebê planejado, desejado, amado", diz ela Imagem: Arquivo Pessoal

Eu tinha fé, orava de joelhos, clamava a Deus para salvar meu filho. Eu pedia ao João para ele lutar, ser forte, que eu precisava dele. No dia 4 de janeiro de 2018, seis dias antes de ele completar um ano de idade, os médicos nos chamaram para dizer que ele não ia resistir. Foi horrível. Eu me joguei no chão, achei que fosse morrer junto com ele. Era como se tivessem arrancado uma parte de mim, me amputado. No dia seguinte, ele foi cremado.

Achava que tinha feito algo de errado para causar essa tragédia

Eu não aceitava a morte do João. Ele foi um bebê planejado, desejado, amado, querido, era uma criança risonha e feliz. A morte de um filho nos modifica para sempre. Eu nunca mais fui a mesma pessoa. Racionalmente falando, eu tenho a consciência de que fui uma boa mãe, mas emocionalmente eu achava que eu era culpada pela morte dele.

Eu pensava que tinha feito algo de errado para causar aquela tragédia. Meu marido também se culpava. Nossos familiares, amigos e médicos falaram que foi uma fatalidade, que poderia ter acontecido com qualquer pessoa. A pediatra dele disse que eu não era culpada e não deveria me martirizar. Ela me consolou dizendo que eu era uma mãe zelosa, dedicada e que ele tinha sido bem cuidado.

Engravidei no mesmo mês em que perdi um filho

Naquele mesmo mês, houve um único dia em que eu e meu marido acordamos bem e tivemos relação sexual. Em fevereiro, eu senti uma dor no útero e tive enjoos. Fiz um teste de gravidez por orientação da minha ginecologista e deu positivo. Não foi planejado, eu não acreditava que havia engravidado no mesmo mês que havia perdido um filho, pelo meu próprio histórico de tentativas anteriores. Antes de ter o João, eu tive endometriose, uma gravidez ectópica, retirei uma trompa e sofri um aborto espontâneo. Para mim, era um milagre ter dado certo. Eu estava grávida e em luto intenso. Não estava preparada para isso.

Arquivo Pessoal
Roberta e Marcio posam com Gabriel Imagem: Arquivo Pessoal

Durante a gestação, eu parei de trabalhar, desenvolvi a síndrome do pânico e fiquei mal até o sexto mês. Só fazia o pré-natal. Eu aceitava a gravidez, mas não conseguia estabelecer um vínculo com o Gabriel. Fiquei contente, mas não me permitia ficar superfeliz com a gestação dele, porque, na minha cabeça, era como se eu estivesse traindo a memória do João amando o irmão. Eu amava os dois, mas a dor ainda era intensa.

Busquei o suporte de uma psicóloga especialista em luto, a Rosângela Cassiano. O tratamento me ajudou a me livrar da culpa, a me conformar com o que tinha acontecido, a me envolver com o bebê e a me reconectar comigo mesma. O João não queria que eu fosse uma derrotada. Além disso, eu tinha de estar bem para a chegada do meu segundo filho. Não era justo com ele continuar mal. Meu papel era ser a melhor mãe que ele merecia ter.

Eu e meu marido fizemos um curso de desengasgo e reanimação cardiopulmonar. Acho que, se eu tivesse feito antes, o João poderia ter tido uma chance. Hoje, me sinto mais preparada para lidar com qualquer situação de risco envolvendo uma criança.

Gabriel nasceu para dar um alento na minha dor

O Gabriel nasceu no dia 3 de outubro de 2018 --nove meses após a morte do João-- para dar um alento na minha dor, mas não o substitui. Um filho não ocupa o lugar do outro. A cicatriz ainda está aberta, mas eu aprendi a conviver com a tristeza e o vazio da partida do João, e a viver com a alegria de ter o Gabriel que me motiva a seguir em frente. Minha vida estava na escuridão e ele veio para trazer luz.

O Gabriel representa a minha força, o meu recomeço e renascimento. Eu olho para ele todos os dias e agradeço a Deus a oportunidade que ele está me dando de ser feliz novamente. Tenho fé de que se fizer o bem nesse mundo, quando morrer, reencontrarei o João no céu. Até lá, fica a saudade e o privilégio de ter sido mãe dele".

Engasgo em bebês e crianças: sinais, como evitar e o que fazer em situações de emergência

Estima-se que ocorrem 600 mortes por ano no Brasil por asfixia por corpo estranho, isso é, o engasgo que leva à obstrução respiratória. A maioria dos casos acontece em crianças menores de cinco anos, principalmente do sexo masculino. Em situações mais graves, a mortalidade desse tipo de acidente pode atingir 40%, e a idade média das crianças gira em torno de 14 meses. Ao engasgar, o bebê ou a criança podem apresentar acesso de tosse intensa, espasmódica e contínua, sensação de sufocação, chiado no peito, dificuldade para falar, falta de ar e ficar com a pele pálida ou roxa.

Os corpos estranhos que mais frequentemente causam engasgo são: espinhos de peixes, ossos de galinha, fragmentos de carne, sementes de frutas, diversos tipos de grãos, como amendoim, feijão, castanha, pipoca, balas, comprimidos, botões, tampas de caneta e uma infinidade de pequenos objetos que a criança coloca na boca por curiosidade.

Existem alguns cuidados que podem ser tomados para evitar esse tipo de acidente, entre eles: certificar-se de que os brinquedos não contenham peças que possam ser destacadas com as mãos ou os dentes. Cortar, partir ou triturar os alimentos em pedaços pequenos. Evitar que as crianças corram, riam ou chorem com comida na boca. E colocar o bebê para dormir em decúbito dorsal (de barriga para cima) no berço e nunca na cama dos pais ou no sofá.

Os pais e cuidadores devem estar preparados para prestar atendimento imediato a uma suspeita de engasgo, mantendo a calma, identificando a causa e avaliando a gravidade. Ligue para o pediatra e/ou serviço de emergência.

No caso de bebês menores de um ano: faça cinco percussões com a mão na região das costas, a criança com a cabeça virada para baixo, seguida de cinco compressões na frente, até que o corpo estranho seja expelido ou a criança reaja.

Se você conseguir visualizar o corpo estranho na boca, retire-o com cuidado. Jamais tente retirar às cegas, com o dedo na boca, pois isso pode provocar lesões na região e empurrá-lo para mais baixo e piorar o quadro de obstrução. Use a manobra de Heimlich para bebês maiores de um ano, que consiste em compressões abaixo das costelas, com sentido para cima, abraçando a criança por trás, até que o corpo estranho seja deslocado da via aérea para a boca e expelido. É importante diferenciar engasgo por substâncias líquidas (água, chá, sucos), que não exigem as manobras de desobstrução.

FONTE: Dr. Sulim Abramovici - pediatra do Hospital Infantil Menino Jesus e do Hospital Israelita Albert Einstein, presidente do Departamento Científico de Emergências da Sociedade de Pediatra de São Paulo.