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Minha história


Superdotada e com síndrome de Asperger, ela passou em medicina aos 15 anos

Arquivo pessoal
Natãmy Nakano tem Asperger e é superdotada Imagem: Arquivo pessoal

Luiza Souto

Da Universa

2019-02-21T04:00:00

21/02/2019 04h00

Aos 2 anos de idade, Natãmy Nakano foi alfabetizada pela mãe. Com 12, passou no vestibular de Engenharia de Bioprocessos e Biotecnologia e, três anos depois, para Medicina da UFPR (Universidade Federal do Paraná). Hoje, aos 15, a menina de São José dos Pinhais, naquele Estado, deu início à faculdade dos sonhos. Parece uma história corriqueira, mas diagnosticada com síndrome de Asperger (condição considerada leve do espectro do autismo) e superdotada, Natãmy não escapou de bullying de colegas de classe, professores e diretores. Também não foi aceita por muitas escolas. Mas com ajuda da mãe e de profissionais, foi em frente e hoje conta sua história:

"Quando nasci, tive incompatibilidade sanguínea (quando o fator Rh da mãe é negativo e o do bebê, positivo) e os médicos levantaram a possibilidade de eu me tornar um vegetal. Minha mãe, então, passou a me estimular desde cedo. Quando eu tinha dois anos, ela começou a me alfabetizar com o método conhecido como ABA, usado para crianças com autismo. 

Nós duas amamos montar quebra-cabeças. Estamos no terceiro jogo de cinco mil peças. Já montamos um de seis mil. Só não pegamos maiores porque não temos espaço.

Tentei meu primeiro vestibular aos 11 anos porque minha mãe brinca que eu sou um poço sem fundo de conhecimento. Foi para testar mesmo. E só passei na segunda tentativa, aos 12. 

Tive e ainda tenho dificuldades sociais por causa do meu diagnóstico. Para começar, eu e minha mãe rodamos muitas escolas de Ensino Fundamental, de São José dos Pinhais e até de Curitiba, mas a maioria não me aceitou. Diziam que não tinha vaga. Falavam que poderiam ter problemas ao me reclassificar, ou seja, ao me deixarem acelerar o ensino, e de não conseguir me dar atendimento pedagógico, o que é garantido por lei.

Quando consegui me matricular, fizeram exigências e me mandaram fazer provas absurdas. Passei em todos os testes e terminei o Ensino Fundamental com 12 anos. Mas ouvi muita coisa.

Um diretor disse para minha mãe que eu era mal-educada e duvidou da minha inteligência porque não tirava nota máxima em tudo. Um professor falou que eu não tinha maturidade o bastante para entender a matéria dele. Dois colegas se uniram para contestar minha deficiência. Um outro passava álcool em gel perfumado nas mãos ao meu lado. Passei mal várias vezes por causa disso, e ele respondia que eu tinha que me adaptar ao mundo em sociedade.

Eu sempre sofri bullying e discriminação, e isso fez com que eu tivesse muita dificuldade em fazer amizade; algo que acontece até hoje. Já me chamaram de louca na frente da sala toda. Costumavam criticar minhas roupas e aparência. Minha mãe mandou fazer um ponche da cor do uniforme, e acabei com o apelido de gnomo verde.

Arquivo pessoal
Natãmy em seu primeiro dia de aula, na faculdade de Medicina da UFPR Imagem: Arquivo pessoal

Nós, autistas, temos um senso de justiça muito acentuado, então eu não aceitava que qualquer um fizesse algo que minha mãe me ensinou ser errado, como falar palavrão.

Nunca precisei estudar. Era só ir às aulas. E muitas vezes achava que estava perdendo tempo porque havia muita repetição de conteúdo, então olhava para as paredes. Na terceira série sabia o conteúdo da 8ª.

Fiz Ensino Médio técnico em Petróleo e Gás, na UFPR e foi um período mais fácil. Escolhi aquela escola porque é uma dos melhores do país, mas não queria seguir na área. Desde os dois anos de idade eu falo que quero ser médica. Como tenho habilidades manuais, penso que a cirurgia seria uma área interessante. Talvez também entre para pesquisa científica ou análise de imagens, porque tenho facilidade com figuras milimétricas. 

Em casa somos eu, minha mãe e meu avô. Meu pai foi embora quando eu tinha seis anos e eu o vejo uma ou duas vezes por ano. Ele vem almoçar, pergunta coisas, vai embora e manda pensão. Minha mãe teve câncer e ainda está em recuperação, então meu avô nos apoia muito.

Faço ainda terapia e tomo medicamento controlado para diminuir minha hipersensibilidade. Isso ajuda a evitar surtos, me deixa mais tranquila e aumenta a concentração.

Além de estudar, geralmente vejo séries. Inclusive assistimos a "The good doctor", uma série que mostra um menino que também tem uma síndrome e se forma em medicina. (O personagem principal tem síndrome de Savant, em que a pessoa tem uma rara habilidade intelectual). Eu me identifico com ele. Também gosto de cozinhar, desenhar e fazer bordado. Meu pai me deu um curso de corte e costura de aniversário de 15 anos. Queria muito fazer e já vou começar".