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Diversidade


"Medo de Oxum": intolerância religiosa no BBB tem origem racista?

Reprodução/GloboPlay
Paula discute com Maycon na casa Imagem: Reprodução/GloboPlay

Ana Bardella

Colaboração para Universa

14/02/2019 04h00

Diferentemente dos anos passados, nesta edição do Big Brother foram poucas as cenas de conflitos diretos entre os participantes. Apesar disso, alguns dos jogadores confinados têm feito comentários que, além de repercutirem de maneira negativa para o público, viraram caso de polícia. A Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância abriu um inquérito para apurar declarações feitas durante o programa: as acusações são de racismo e intolerância religiosa.

As famílias de Maycon e Paula, principais nomes envolvidos nas polêmicas, utilizaram as redes sociais de ambos para se desculparem pelas declarações. No entanto, sem interferências externas, os dois têm aproveitado a liberdade para se expressarem. Durante uma conversa com Hariany, Paula afirmou ter "medo" de Rodrigo por ele mexer com "esse negócio de Oxum" e finalizou a conversa com a frase "Nosso Deus é maior". Em outra ocasião, Maycon, que também garantiu ter "medo" dos colegas, insinuou que Gabriela fez um "trabalho" para que Isabella ficasse doente.

Comum no Brasil

Gabriela e Rodrigo são adeptos de religiões de matrizes africanas. Os últimos dados divulgados pelo Disque 100 mostram que, no Brasil, a maior parte das denúncias feitas por vítimas de intolerância religiosa é registrada contra a umbanda e o candomblé.

Ingrid Limeira, especialista em direito das diversidades e autora do livro "Da escravidão do corpo à escravidão da alma: Racismo e intolerância religiosa", explica que o crime se manifesta de diferentes formas no cotidiano. "Alguém que não tolera a religião do outro pode ser violento por meio de palavras, partir para a agressão física e até levá-lo a morte. Outro exemplo de desrespeito são os ataques aos terreiros", diz.

Origem racista

Cláudia Ribeiro, mestre em história, explica que a origem da intolerância está na colonização do Brasil. "Quando os povos africanos foram trazidos para o território nacional e transformados em escravos, houve uma tentativa de catequização por parte da igreja católica. Ela acontecia para deslegitimar os elementos culturais que constituíam a identidade negra", diz. "Os negros eram 'batizados', recebiam nomes cristãos e lhes era negado o direito de professarem sua fé. Graças a esse processo histórico, o Brasil se transformou em um país preconceituoso", completa Ingrid.

Nas casas e escolas

"Crescemos com medo das 'macumbas', dos 'trabalhos' porque escutamos, desde cedo, nas escolas e dentro das casas, que aquilo não é de Deus - esse pensamento foi trazido pelos portugueses judaico-cristãos. Tudo isso gera estranheza e medo do outro, um reflexo da forma como nossa civilização foi construída", opina Cláudia.

A historiadora defende que um dos pilares desse pensamento é a romantização do processo de mestiçagem no Brasil. "Não levamos em consideração que a mistura das raças só ocorreu graças ao estupro de ameríndias e negras. Sem fazer as discussões necessárias sobre o período e tratá-lo de maneira séria, idealizamos a história e velamos o racismo que é reproduzido em tantos discursos. Para avançarmos como sociedade, é necessário primeiro reconhecermos o quanto o racismo está embutido em nós mesmos", acredita.